Título Original: Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Ano: 1962
Editora: Aleph
Páginas: 352

Compre aqui

Olá pessoal, tudo bem com vocês? A resenha de hoje é muito especial, não apenas por se tratar de um dos meus livros favoritos, mas por se tratar de um clássico!
Laranja Mecânica sempre foi um livro que me chamou a atenção, talvez pelo nome, talvez pela natureza distópica, quem sabe pelo aspecto da ultra violência ou talvez por ser um livro/filme tão popular! O fato é que mesmo me interessando muito pelo livro eu demorei um bom tempo para finalmente ter a oportunidade de ler esse exemplar, ouso dizer que se eu tivesse lido o livro quando era mais nova provavelmente não aproveitaria tanto quanto aproveitei, e quem sabe não entendesse e tirasse tantas lições como pude tirar com a minha leitura.
Laranja Mecânica foi publicado pela primeira vez no ano de 1962, isso mesmo, você não leu errado, fazem exatamente 52 anos que este livro foi lançado, por isso a edição especial de 50 anos! Seu autor Anthony Burgess além de escritor era nada mais, nada menos do que: poeta, dramaturgo, compositor, crítico, linguista e tradutor. Burgess se formou em Literatura Inglesa na Universidade de Manchester, serviu ao Exército entre os anos de 1954 e 1960, e também trabalhou como professor na Malásia, ou seja, o cara era muito incrível! O autor, além de ser mundialmente conhecido como o criador de Laranja Mecânica, escreveu diversos romances, peças de teatro, roteiros de cinema e TV.

Laranja Mecânica é tão importante que foi eleito pela revista Time como um dos melhores romances de língua inglesa do século 20. Ou seja, é um livro de peso que todo mundo deveria ler!

“É uma história horrorshow, que vai te fazer smekar feito um bizumni ou trará vetustas lágrimas a seus glazis

A história nos é apresentada e contada pelo personagem principal, o anti-herói Alex. Sendo assim, com o desenrolar da história nós conhecemos a forma como Alex pensa, age e o mais importante, a forma como ele fala. Alex fala através do dialeto nadsat, criado por Burgess especialmente para a história. Este dialeto é uma mistura de várias referências que são explicadas, no caso desta edição, no começo do livro.
O nadsat era o dialeto pelo qual os jovens da época conversavam, o mesmo é absurdamente utilizado pelos bandos de garotos que “tomavam conta” das ruas durante a noite, Alex e seus companheiros formam um destes grupos. Como o livro se propõem a nos inserir no mundo de Alex, necessitamos de o mínimo de auxílio para compreender sua forma de falar, por isso o livro nos apresenta um glossário, com o significado de todas as palavras utilizadas pelo dialeto. Admito que no início da leitura eu achei terrível ter que ir e voltar do glossário para a história, da história para o glossário, pois em cada página são pelo menos 10 palavras utilizadas, porém conforme progredimos com a leitura vamos aprendendo as palavras e seus significados até chegar a uma etapa em que não é necessário voltar ao glossário. Para vocês terem uma noção, havia momentos em que eu estava fazendo qualquer coisa e do nada soltava alguma palavra nadsat, essas palavrinhas foram tão bem boladas que elas grudam na sua cabeça e você acaba as utilizando como gíria.

“O que interessovatou Vosso Humilde Narrador um bocado.”

A edição de 50 anos, também apresenta ilustrações maravilhosas de Angeli, Dave Mckean e Oscar Grillo, que criaram desenhos que representam pontos específicos da história. Como o livro é dividido em três partes cada ilustrador ganhou uma parte para ilustrar os acontecimentos que considerasse mais importantes. O livro conta também com diversos textos escritos por Burgess, estes textos falam sobre vários assuntos, porém sempre voltando para um ou outro tema de seu livro. Com esses textos nós somos capazes de entender como o autor pensa, quais eram seus ideais, seus anseios para a obra e em que ele pensou quando chegou ao conceito de Laranja Mecânica. Esses textos foram cruciais para que eu me encantasse ainda mais pelo livro e pelo autor. Sua presença no livro seja muito interessante para outros leitores, pois seus textos permitem que sejamos capazes de entender muito bem o que existe por trás da história, o que se passa na cabeça do autor, e principalmente aproximá-lo mais de nós! Para fechar com chave de ouro o livro ainda conta com a reprodução de páginas do manuscrito original.

A história começa com Alex e seu bando, ou grupo se preferirem, reunidos em seu ponto de encontro habitual, o Lactobar Korova, uma espécie de bar que serve o popular leite-com, uma mistura de leite e um pouco de tudo! Ali era proibido vender bebidas alcoólicas, porém, aparentemente, não havia nenhuma restrição a outros tipos de drogas, por isso o “um pouco de tudo” misturado ao leite. Era neste ambiente que Alex, Tosko, Pete e Georgie se reuniam para decidir o que iriam fazer durante o restante da noite. É importante ter em mente que eles não são heróis, por isso roubar, espancar cidadãos que tivessem a falta de sorte de cruzar seu caminho e brigar com outros bandos é extremamente normal para no cotidiano deles. É assim que o bando age durante a noite, durante todas as noites. Porém logo no começo da história percebemos que o grupo de Alex estava começando a se desintegrar, suas opiniões estavam divergindo e seu “líder” estava mudando.

“Você entendeu aquele toltchok na rot, Tosko. Foi a música. Eu fico todo bizumni quando algum vek interfere com uma ptitsa cantando, como foi o caso. Como foi ali.”

Durante uma noite o grupo se dirige a uma casa, para tentar a sorte e roubar o que conseguisse de uma velha que vivia com um bando de gatos. Esta atividade, se é que podemos chamar assim, foi sugestão de um dos membros do grupo, porém todo o rumo da história muda quando a polícia chega ao local e Alex é deixado para trás, de propósito, por seus companheiros, resultando em sua ida para a prisão. Algo muito interessante na personalidade de nosso “querido” personagem principal é o fato de que ele é muito carismático, assim mesmo que pratique atos cruéis e seja totalmente dissimulado, nós iremos torcer por ele, acabamos gostando dele, bom, pelo menos foi isso que aconteceu comigo! De início eu tive muita raiva do Alex, mas com o passar do tempo eu fui percebendo seu carisma e não consegui resistir. É justamente essa dualidade, o seu carisma e ligação com diversos atos perversos que garantem que o mesmo seja visto com bons olhos pelo padre da prisão e ao mesmo tempo garanta boas relações com seus colegas de cela.
Porém a história não se baseia apenas em como um moleque desmiolado e inconsequente acaba na prisão, ela vai além disso. Através das boas ligações de Alex com o padre da penitenciária ele acaba descobrindo uma nova forma de sair da prisão, uma forma que diminuiria drasticamente a sua estadia para apenas seis meses. É claro que como todo jovem, Alex quer tudo o mais rápido possível, e por isso se candidata a participar deste programa que encurta a estadia na penitenciária. Tudo o que ele sabe é que ele sairia de lá rapidamente e não seria mais um prisioneiro, este programa o tornaria um homem bom. Em momento algum ele é aconselhado adequadamente, e em momento algum, alguém lhe informa em que ele estaria se metendo. E é assim que Alex é inserido em um novo espaço, onde este será reeducado, onde todos os seus atos de maldade serão “curados”, através de uma terapia de condicionamento social, tema que estava em foco na época em que o livro foi escrito. Neste novo espaço, sob os testes e atividades de condicionamento é que Alex sofre, talvez a mais terrível das torturas, ele perderá a sua chance de escolha. E é assim que os papéis se invertem. Tudo o que Alex provocou no passado será provocado a si mesmo após sua volta para a sua vida normal.

“Como ides vós, Ó, pequenos druguis?”

Além do tema terapia de condicionamento social, o livro aborda outros assuntos, que podem ser mais ou menos relevantes, dependendo do tipo de leitor que você é. Nele percebemos a ultra violência, a violência praticada simplesmente por ser praticada, por ser compreendida até mesmo como uma espécie de diversão, uma violência praticada em escala muito maior do que somos capazes de compreender, aquela em que as pessoas extrapolam os limites da razão. Nele observamos até mesmo o conceito de karma, pelo menos eu percebi isso muito bem apresentado na história. Mas o que mais me marcou, talvez o que eu tenha percebido com maior grandiosidade é o crescimento, o amadurecimento.

Durante todo o livro nós conhecemos e acompanhamos Alex durante toda a sua jornada, podemos em muitos momentos não concordar com o que ele fez, mas também não concordamos com o que foi feito a ele e muito menos em como o transformaram. Porém ao final do livro percebemos seu amadurecimento, percebemos que ele cresceu e que já não precisa mais fazer besteira. Ele era apenas um jovem inconsequente, como muitos que vemos hoje em dia, e que veremos em toda a nossa vida. Alex é o exemplo de que alguns casos não são casos perdidos, é o exemplo de que alguma coisa, a qualquer momento, uma pequena centelha pode acender nesses jovens, e aos poucos eles amadurecem, mesmo que precisem de duras penas para crescer. Eu digo que já gostava muito dele após alguns capítulos, porém passei a gostar mais ainda quando o livro chegou ao fim, e percebi que fui capaz de acompanhar toda a sua jornada, e toda a sua mudança de pensamento.

“Mas vós, Ó, meus irmãos, lembrai-vos de quando em vez deste que era vosso pequeno Alex. Amém. E aquela kal total.”

Laranja Mecânica é um livro especial! É o tipo de livro onde cada leitor perceberá algum fato de uma maneira diferente, observará um dos diversos temas como o principal do livro. É um livro clássico. É uma obra de arte que se manteve atual. É um livro que todos deveriam ter a oportunidade de ler!


rela
ciona
dos