No final de Fevereiro do ano de 2015, eu escrevi aqui no Estante Diagonal uma resenha com minhas primeiras impressões do que hoje se tornou a série que nunca sairá do meu coração, sempre voltará para os meus pensamentos, possuí o melhor exemplo de anti herói atormentado pelo qual já tive a chance de me apaixonar, quebrou meu coração em mil partes mais vezes do que posso me lembrar e é, com toda a certeza que pode existir dentro de um único ser, a minha série preferida da vida!Sons of Anarchy surgiu em minha vida como algo inesperado e misterioso, como uma incógnita apresentada por um cantor, compositor e artista popularmente conhecido por Marilyn Manson, que inclusive recebeu um personagem que aparece em toda a última temporada desse seriado, mas estou me adiantando. Quando me deparei com esse nome pela primeira vez ainda era uma não iniciada no fantástico e impressionante mundo das séries, e nada nesse mundo poderia me preparar para o que aguardava escondido por sob as águas escuras e silenciosas à minha frente. Nada poderia me preparar para a imensidão de sentimentos, para os enormes significados, para as brigas e cenas revoltantes, para as histórias que inspiraram o enredo maravilhosamente bem montado dessa série.

Após finalizar as sete temporadas que compõem esse seriado, todas montadas, elaboradas, apresentadas com a perfeição de episódios cheios de tensão, tristeza, alegrias e mais tristezas, e principalmente, significados que vão tomando forma a cada novo detalhe, a cada novo segredo revelado, a cada personalidade desabrochada, eu não seria capaz de deixar a minha antiga resenha como estava. A pessoa que escreveu aquela resenha não é a mesma que escreve essa, não após ter visto tudo que viu, sentido tudo o que sentiu e principalmente, ter acompanhado a melhor saga, o melhor personagem principal e presenciado “aquele” final.

Essa história nos apresentará uma parte da vida do grupo de motoqueiros Sons of Anarchy, criado por Jhon Teller. Seu objetivo principal era ser grupo de entusiastas, uma família na estrada, algo puro e importante, porém o que se inicia como algo simples acaba se transformando em algo mais, alcançando com o tempo o patamar de uma organização criminosa de tráfico de armas. Sua clientela passa então a ser muito maior do que pessoas comuns à procura de reparos mecânicos para carros ou motocicletas, chegando à máfia e outros grupos criminosos que precisam de armas para proteção, domínio de território ou acerto de contas. Mas a vida criminosa tem seu preço, e durante um período extremamente tenso vivenciado pelo grupo, Jhon é morto e quem assume o comando do grupo é Clay Morrow.Clay se casa então com Gemma Teller, agora viúva e disponível, ele toma como seu filho Jax Teller, cuidando da educação do rapaz e de que este estivesse sempre ligado, de uma forma ou de outra, ao SAMCRO. Assim, e é preciso sempre ter isso em mente, Jax cresce cercado por aquilo que outros queriam para ele, cercado pela presença de personalidades duvidosas, e sonhando com o dia de sua entrada para o grupo. Com o tempo, lhe é dado o cargo de vice presidente, e este alcança grande confiança de Clay, assim como dos outros membros do grupo. SAMCRO é uma grande família, por mais que cada membro tenha suas peculiaridades, suas diferenças, suas personalidades, a união entre eles é palpável, é forte e poderosa, e é uma das características mais marcantes em toda a série, porém, não a única.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos os assuntos do grupo, todas as suas formas de burlar a lei, suas dificuldades e projetos para a venda de armas, e o que acontece quando eles acabam na mira dos federais, também acompanhamos suas vidas privadas, seus anseios, suas relações e amores. É assim que nos deparamos com Wendy, ex mulher de Jax. Grávida e drogada ela quase perde o bebê, o que faz com que seja afastada de cena por ninguém mais, ninguém menos do que Gemma, presença extremamente importante ao longo de toda a série, a matriarca, aquela que decide quem fica e quem sai, aquela que acredita possuir os fios do destino em suas mãos. Com a saída de Wendy, uma janela fica aberta, o que acaba por deixar um espaço para que Tara, antigo caso amoroso de Jax e médica do hospital local, se reaproxime e retome chamas a muito apagadas. Tara é outro personagem importantíssimo ao longo da história, pois ela é a que não se encaixa mesmo tentando se encaixar, é quem representa o bem e a esperança em um meio violento e criminoso, ela nos enlaça em seu amor e mesmo quando toma algum caminho duvidoso, podemos acreditar que algo de bom deve sair dali. É a partir desse começo razoavelmente simples que entramos em um mundo de traições, tristezas, segredos, vingança e morte.A primeira vista Sons of Anarchy pode parecer raso, mas é com o desenvolvimento da história que surgem os significados, as mensagens escondidas, as diversas inspirações muito bem interligadas e moldadas capazes de criar um enredo de tirar o fôlego, arrancar lágrimas, nos fazer suspirar e chorar a morte de personagens queridos. Kurt Sutter nos apresenta uma história cruel, onde é preciso lutar para sobreviver, onde as alianças significam sua salvação ou sua ruína, onde a esperança pode abandonar seu coração, onde o que se viu durante toda a vida é o único caminho a seguir, e mesmo que se tente seguir em novas direções algo sempre te trará de volta, como uma força maior capaz de manipular os fios invisíveis do destino.

A realidade do grupo é complexa e cheia de violência, e em muitas vezes a luz desaparece dos olhos dos personagens, nem mesmo o dinheiro e a união do grupo são capazes de retoma-la, mas a família, esse organismo único e sólido é capaz de unir novamente as pontas soltas e garantir que tudo siga seu rumo. A família é explorada ao extremo nessa série, suas influências, seu amor incondicional, seu amor mal direcionado, suas esperanças e anseios são destrinchados de forma espetacular. A família se apresenta como aquilo capaz de fazer sucumbir e elevar, e é nessa brincadeira que grande parte do enredo se baseia, não importando se esteja ligado a família de sangue ou a família escolhida para dividir as estradas.

Assim como a família é elemento de destaque durante toda a trama, os segredos, significados e mensagens possuem sua própria relevância. Quando a morte surge a cada esquina ela é vista de uma maneira diferente, recebe um nome diferente, ganha uma aura quase mística. As relações de amizade e lealdade ganham uma visão amplificada, retomando assim a lealdade de cavaleiros. Perdemos as contas da quantidade de vezes em que vimos a lealdade surgir, a amizade se fortalecer ou virar pó, em que os princípios tão bem delineados de honra são destacados de uma forma original e única. A diferença é que aqui nossos cavalheiros montam motocicletas e estão a serviço do crime, mas ainda sim, muitas de suas ações, de seus princípios são, até certo ponto, justos e corretos.

A presença da fé, ou falta dela, também é algo surpreendente ao longo de toda a série. Conforme os episódios se desenrolam, conforme avançamos mais e mais fundo na história, indagações são feitas, personagens surgem com uma aura despretensiosa, mas é ao final de tudo que entendemos sua verdadeira necessidade de estar ali. Uma mendiga pode se tornar uma mensageira, uma guia ao longo da jornada, os corvos nos lembram a morte que espera pacientemente a cada esquina, as pombas nos lembram a paz e a esperança que um dia existiu nos olhos azuis de um filho, além de sua alma até então ingenua para o circulo que se fechava. O pão, o vinho, o sangue nos remetem a uma história muito antiga, tão abordada e esmiuçada, mas que aqui serve de inspiração para uma história moderna e única.

Dentre tantos detalhes, acredito que não seria possível falar de Sons of Anarchy sem falar de sacrifício. Aqui observamos a mãe que luta pelo bem estar e segurança de seus filhos, compreendemos seus sonhos e esperanças por uma vida melhor, acompanhamos sua jornada em busca de uma vida livre, justa, correta, distante de qualquer violência, desonestidade e segredos. Observamos os limites da busca por algo melhor e da necessidade de manter a família unida, junta, de se manter inalterado o estado das coisas. Entendemos a alma daqueles que sofrem e dos que fazem sofrer, compreendemos a dificuldade de mudança e como o sacrifício de outros pode vir a auxiliar seus próprios objetivos. Aqui vemos um pai atormentado, um líder sem rumo, um amigo desolado, alguém que, conforme ia perdendo cada parte de seu coração não vê outra saída se não o sacrifício para alcançar a segurança de seus filhos, a vida de seu grupo, a libertação de sua alma atormentada, a paz em seus olhos. Não é possível falar dessa série sem lembrar de seu final trágico, belo e cheio de significado.

Muito mais do que uma história sobre motoqueiros fora da lei, Sons of Anarchy é uma história sobre seres humanos. Ao longo de toda a série nós observamos os piores e os melhores lados do homem. Com personagens muito bem elaborados, muito bem explorados, nós nos vemos com o coração nas mãos, com lágrimas nos olhos, com um nó na garganta, mas com uma mensagem muito bem trabalhada. Embora o mundo seja cruel, complexo, difícil de lidar, sempre existe um meio, sempre existe uma forma, e assim como podemos fugir de quem somos, podemos também nos perder em nós mesmos e aceitar as consequências de nossos atos, até que chegue o momento do acerto de contas e de nosso sacrifício por aqueles que amamos.

Espere sangue, espere mortes, espere traições e tiroteios. Mas espere também valores, família, amores e esperanças. Pois a vida é feita de luz e de trevas, e nela os reis podem voltar a vida em forma de diários e fantasmas, podem assombrar seus filhos com desejos de vingança, usurpadores podem receber o que merecem na hora certa, aqueles que acreditam ter o poder o perder com a descoberta de um segredo, e nem sempre os bons conseguem escapar, mas seu sacrifício nunca será em vão. Espere luta, tiroteios, ação, motocicletas, sangue e morte, e duvide de que as estrelas sejam fogo, duvide que o sol se mova, duvide que a verdade seja mentirosa e por favor, por favor, por favor se jogue em meio a anarquia.

Sons of Anarchy

Criado por: Kurt Sutter
Com: Charlie Hunnam, Katey Sagal, Ron Perlman, Maggie Siff, Kim Coates
Gênero: Drama
Duração: 45 minutos – 13 Episódios
Lançamento: 2008

rela
ciona
dos