Título Original: The Evolution of Calpurnia Tate
Autora: Jacqueline Kelly
Ano: 2014
Editora: Única
Páginas: 380
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Eu sei que já
comentei algo muito parecido com isso em uma resenha aqui no Estante Diagonal,
mas nunca é tarde demais para recordar ou para repetir, pelo menos acredito que não nesse
caso. Eu sou o tipo de pessoa que gosta de passear pelas livrarias, adoro olhar
os lançamentos, descobrir livros que não estão em destaque (aqueles perdidos no
meio das prateleiras), é sempre uma pequena aventura. Eu olho para diversas
capas, leio algumas sinopses, adiciono alguns livros na minha listinha, mas
acima de tudo, aproveito um tempinho só observando esses amigos tão queridos. E
as vezes, naqueles momentos em que estamos com a guarda baixa, os livros nos
observam e nos olham de volta, e é nesses momentos que encontramos grandes
surpresas. Foi isso que aconteceu com esse livro, um daqueles tantos que eu
nunca tinha ouvido falar, nunca tinha lido uma resenha sequer, e mesmo assim
levei para casa. Acho que foi uma mistura de encantamento por essa capa linda e
por esse título que me fizeram adquiri-lo, e hoje eu estou aqui para contar um
pouquinho sobre ele para vocês!

“O que era,
exatamente, uma naturalista? Eu não sabia muito bem, mas resolvi passar o resto
do verão sendo uma.”

A Evolução de
Calpúrnia Tate
é um livro simples e leve, uma pérola que eu descobri no meio de
tantos livros soltos pela livraria. Seu título já diz tudo, aqui iremos
conferir a evolução de uma garotinha de onze anos (quase doze), a protagonista
fofa, curiosa e engraçada Calpúrnia Tate, ou Callie Vee. Essa pequena vive em
uma fazenda que cultiva arvores de pecã e algodão, em uma pequena província no
estado do Texas. Calpúrnia é a irmã do meio, a única menina entre sete irmãos. Vocês podem imaginar que a confusão e o caos poderiam reinar na casa devido a
tantas crianças, e tantos meninos correndo soltos para lá e para cá, mas a
verdade é que embora a confusão insista em aparecer vez ou outra, a mãe de
Callie consegue organizar e comandar muito bem a família.
Nossa história
se inicia no terrível verão que assolou o Texas no ano de 1899, em meio a
diversas tentativas para se livrar do calor e da busca por algo para se fazer,
algo que fosse capaz de distrair e afastar o tédio, Calpúrnia percebe, sentada
do lado de fora de sua casa, que existem dois tipos de gafanhotos vivendo no
seco gramado. Uma espécie de gafanhoto era amarelada enquanto a outra era verde
e se destacava em meio a grama seca, a pequena se viu cheia de perguntas, e se
pôs a anotar tudo o que encontrava e tudo o que pensava em sua nova caderneta, dada a ela por seu irmão mais velho, Harry (o preferido
dentre todos os irmãos). Com o passar do tempo, e com tantas outras perguntas
surgindo em sua cabeça, Callie Vee se vê cheia de dúvidas e com poucas
respostas, o único membro da família que parecia ser capaz de lhe ajudar, de
tirar suas dúvidas, era seu reservado e distante avô. É através das dúvidas de
Calpúrnia e de sua curiosidade que ela e seu avô embarcam em pequenas aventuras
diárias, juntos eles descobrem vários segredos do mundo das plantas e dos animais,
mas também constroem uma bela relação de amizade.
À primeira
vista A Evolução de Calpúrnia Tate pode parecer um livro simples e sem muitos
atrativos, mas garanto que eles existem e que vão muito além do que a relação
de uma neta com seu avô, ou a análise de gafanhotos. A autora conseguiu dosar
muito bem diversos elementos ao longo de toda a história, esses elementos, essa
diversidade, é o que deixa o livro tão interessante e especial. No início de
cada capítulo nós somos apresentados a um trecho do famoso livro de Charles
Darwin
, o livro A Origem das Espécies, esses trechos escolhidos a dedo pela
autora, possuem grande ligação com a história e com o que acontecerá em cada
capítulo, nos dando de forma indireta um gostinho do que está por vir. Além
disso a autora realizou diversas pesquisas com relação a plantas e animais,
trazendo mais desse mundo científico e naturalista em que o avô da menina vivia
e ao qual, aos poucos ela também se inseria.

“Um dia eu
teria todos os livros do mundo, prateleiras e mais prateleiras deles. Viveria
em uma torre de livros. Leria o dia todo e comeria pêssegos. E, se algum jovem
cavaleiro de armadura ousasse vir gritando em seu cavalo branco, me pedindo que
soltasse o cabelo, eu o bombardearia com caroços de pêssego até que fosse para
casa.”

Além disso nós somos
apresentados a diversos detalhes da época em que o livro se passa, através dele
observamos a instalação da primeira central telefônica (e do primeiro telefone)
da província, o surgimentos e popularização dos automóveis, a inserção da
mulher no mercado de trabalho (de maneira gradativa e lenta), a famosa Coca
Cola
, e todo o discurso de virada de século, a energia e as possibilidades que
o ano de 1900 traria para a vida de todos. Juntamente a tudo isso, e para
acertar bem a mistura, nós observamos o dia a dia da menina, observamos o que
sua mãe espera dela, o que a sociedade (que estava aos poucos mudando) esperava
dela. Observamos a relação de Callie Vee com seus irmãos, e como eles, assim
como ela, evoluem, amadurecem, aprendem mais e mais sobre os segredos da vida.
Percebemos a descoberta de um amor por parte do irmão mais velho, os primeiros
interesses amorosos de seus irmãos mais novos, descobrimos a tortura que era
ter aulas de piano, sem contar no sofrimento de cozinhar e pior ainda, tricotar
e aprender as técnicas de crochê.
Em meio a
tantas situações, Calpúrnia se apresenta como uma pequena feminista, no sentido
mais puro desse conceito tão comentando e interpretado atualmente. Ela não
queria aceitar, e não consegue entender certas imposições e regras de sua mãe. A pequena garota não compreende porque tem que aprender a cozinhar quando seus
irmãos estão todos soltos por ai se divertindo. Não entende porque ela deve
aprender a tricotar quando tudo o que ela quer é coletar espécimes e ajudar nas
observações científicas de seu avô. Ao longo do livro nós percebemos o quanto
aquela pequena menina ansiava por uma mudança nos rumos da sociedade, o quanto
ela estava voltada para o futuro, mesmo sem saber disso. Outro destaque do
livro está em seus momentos de indignação, Callie Vee, além de ter toda a razão,
se torna fofa e engraçada em seus momentos de revolta e indignação, a pequena é capaz de te divertir com suas ideias e pensamentos.

Ah, ervilhaca. Um instinto assassino
invadiu meu peito. Eu queria voar sobre a mesa para cima dele, mas em vez
disso, espumei em silencio pelo resto daquela refeição interminável.”

Todo o trabalho
realizado pela Editora Única também está maravilhoso. A revisão do texto foi
muito bem realizada, ao longo da leitura não notei nenhum erro de revisão, se
existem, eles passaram totalmente despercebidos. Toda a diagramação e escolha de fontes mostra um
carinho pelo livro. Adorei ver as fontes mudando de trechos em trechos, como
nas citações de A Evolução das Espécies, nas anotações da caderneta de
Calpúrnia ou nas cartas apresentadas ao longo da história. A fonte geral do
texto possuí um tamanho um pouco maior do que o convencional, é verdade, mas
isso facilitou muito a leitura e fez com que ela fosse mais fluida, além de
auxiliar essa pessoa que vos fala, que além de ser míope tem astigmatismo, e que muitas vezes vê as letras pequenas todas embaralhadas.
A Evolução de
Calpúrnia Tate
é um livro leve,
muito gostoso de ler, com uma história bem construída e que flui muito bem.
Como o próprio nome diz, ele se trata da evolução de uma garota, e não sobre
uma revolução, por isso não espere encontrar enormes descobertas, grandes
reviravoltas, mas sim, momentos comuns ao dia a dia de uma criança, seus
pensamentos e aspirações, todos recheados com aquele encantamento e graça que as
crianças possuem. Ele é maravilhoso em sua forma simples, através dos relatos
da garota somos transportados para outro tempo, e vemos o mundo sobre os olhos
dela. Para aqueles que procuram algo leve, mas surpreendente, eu recomendo este
livro, e para aqueles que querem se divertir e acompanhar a evolução de uma
garota, eu peço que leiam o livro. Garanto que as surpresas e pensamentos dessa
menina podem surpreender vocês também.

“O que
Calpúrnia diz? O que eu poderia dizer? Que queria atirar o livro – nada melhor
do que incendiá-lo – na lareira? Que queria gritar contra a injustiça daquilo
tudo? Que naquele momento eu poderia ter feito uma violência, que queria
esmurrar o rosto de todos eles e correr para o meu quarto?”

rela
ciona
dos