Título Original: The Girl With All The Gifts
Autor: M. R. Carey
Ano: 2014
Editora: Rocco
Páginas: 381
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Eu não sei
dizer, com certeza ou precisão, porque decidi comprar e começar a leitura desse
livro. A verdade é que, a primeira vez que vi essa capa amarela (admito, tenho
uma queda por capas amarelas) com uma menina se destacando ao centro, foi
durante uma das minhas diversas expedições ao mundo das
livrarias. 

Esse livro estava em destaque na prateleira, acredito que fazia
parte dos lançamentos do mês, ou quem sabe, estava vendendo muito bem. Mas não
foi isso que chamou a minha atenção. O que me fez querer conhecer essa história
desconhecida, uma história que eu nunca tinha sequer ouvido falar, foi o seu
título e as diversas possibilidades que o título proporcionava.

Depois que já
tinha um exemplar para chamar de meu, eu decidi que não pesquisaria, ouviria ou
leria nada que estivesse relacionado ao livro. Ele deveria permanecer
misterioso até o momento em que eu iniciasse a leitura. Quando terminei de ler
a última página dessa história, fui surpreendida positivamente, fui agraciada
com algo maravilhoso, porém terrível. Terminei a leitura me sentindo como
Pandora, que libertou todos os males ao mundo, mas que não pode conter a
curiosidade. Eu era Pandora, e havia libertado uma história cruel, porém puramente bela e magnífica.

“O nome dela é
Melanie. Significa “a menina escura”, de uma palavra em grego antigo, mas sua
pele na realidade é muito clara, então ela acha que talvez este não seja um bom
nome. ”

A Menina que
Tinha Dons
aborda um tema muito conhecido pelos apaixonados por monstros,
ficção e terror. O livro nada mais é do que uma história muito bem escrita e
montada sobre infectados (ou, se preferir, zumbis). Neste livro nós seremos apresentados aos famintos, pessoas contaminadas por um fungo mortal que
originalmente infectava formigas (o fungo é real, e já foi usado como inspiração
para o jogo Last of Us). Nesta história, o fungo deu um enorme salto na cadeia
alimentar e conseguiu realizar a proeza de ser capaz de infectar humanos. 

Uma
vez dentro do corpo humano, ele dirige sua atenção para o cérebro e, uma vez
instalado, vai se alimentando da massa encefálica humana até alcançar sua
maturidade, porém, enquanto essa maturidade não é alcançada, ele controla o
infectado para que este contamine outras pessoas ou se alimente de carne e sangue
humano. Se trata, basicamente, daquilo que estamos acostumados a ver em filmes e jogos de
zumbis, porém, o que ganha o leitor é a história presente no livro, é o que
acontece nesse mundo dominado pelo caos e desespero que nos fisga logo na primeira página.

A história do
livro nos direciona para uma base militar de pesquisas científicas, localizada
na Inglaterra (em algum lugar com uma distância segura de Londres e Beacon), e montada para tentar descobrir uma cura para a epidemia que
assola o mundo inteiro. Nesta base, dentro de uma construção localizada no
subsolo, vive a pequena Melanie, uma garotinha de dez anos que foi levada para
servir de cobaia por ser parcialmente imune ao fungo. Melanie não sabe que é
infectada, ela não entende porque todos os dias deve ser amarrada em uma
cadeira de rodas, porque os soldados apontam uma arma para sua cabeça, porque ela
e as outras crianças aparentam ser tão perigosas para os soldados e professores
da base. Mas a menininha é extremamente inteligente e, em meio ao pouco que consegue ouvir da conversa dos adultos,
ela é capaz de compreender algumas coisas importantes a respeito de todas as pessoas que possuem algum tipo de contato com ela.

“A infecção
ainda se disseminava e o capitalismo global ainda se destroçava – como os dois
gigantes se devorando na pintura de Dalí intitulada Canibalismo de outono. ”

Todos os dias,
com exceção dos sábados e domingos, as crianças são amarradas e levadas para
uma sala de aula onde professores ensinam diversas matérias, ou cientistas fazem testes e perguntas para as crianças. Dentre os professores
que lhes ensinam todo o tipo de coisas, sua professora preferida é Helen
Justineau
, uma mulher calma e atenciosa, que aos poucos cria um enorme carinho
por Melanie. Esse carinho se transforma em cuidado e proteção quando Melanie é
levada para o laboratório da Doutora Caldwell, responsável pela base, pesquisas e pelas
cobaias, é ela quem escolhe as crianças que quer dissecar e analisar. Durante uma
bela tarde, a Doutora se prepara para, desculpem os mais impressionáveis, abrir
o cérebro da garotinha e desvendar os mistérios que a impedem de chegar à cura
para a infecção causada pelo fungo. 

Porém, tudo irá mudar quando um ataque à
base frustra os planos de Caldwell, além de obrigar a formação de um grupo
estranho, composto por uma criança faminta que nunca viu o mundo, uma cientista
frustrada, uma professora de infectados e dois soldados. Juntos eles serão
lançados ao caos em que se encontra o mundo, buscarão pela sobrevivência em meio a
uma jornada suicida, e enfrentarão um caminho sem esperanças onde tudo que se espera é fugir da realidade.

A Menina que
Tinha Dons
é um livro maravilhoso que aborda muito mais do que um mundo
dominado por zumbis. Através da narrativa em terceira pessoa nós somos capazes
de observar o que se passa na mente de cada membro do grupo de sobreviventes. Conhecemos os medos e as expectativas dessas pessoas, compreendemos porque agem
como agem e descobrimos, de um jeito ou de outro, como é possível que, mesmo não concordando
com as ações de certos personagens elas ainda são justificáveis aos nossos olhos. Porém, o mais
interessante de todo o livro, na minha opinião, é que aqui nós podemos observar
o mundo através dos olhos de uma garotinha faminta de dez anos. De todos os
personagens apresentados nessa história, ela é sem sombra de duvidas, a mais interessante e cativante.
É graças a
pequena Melanie que percebemos o quanto as ações dos adultos são justificáveis
e muitas vezes louváveis. Através das ações e pensamentos da inteligente
criança nós descobrimos que sempre existe esperança, mesmo nas situações mais
difíceis e complicadas ainda é possível encontrar uma saída. É verdade que nem
sempre a saída, a esperança para o mundo, é bela, cheia de flores e unicórnios,
mas se ela existe deve ser agarrada.

“Está em
território desconhecido e teme o futuro vago e inescrutável em que a precipitam
antes que esteja pronta. Ela quer que seu futuro seja como o passado, mas sabe
que não será. ”

Outro elemento
maravilhoso presente nesse livro, é toda a pesquisa realizada para que a história tivesse força e veracidade. O
autor se saiu muito bem ao interligar elementos reais e verdadeiros com a ficção. A própria presença do fungo que contamina formigas comprova que o autor
pretendia criar uma história fictícia, porém com possibilidades reais de
existirem. Ao longo da leitura o leitor não possuí outra alternativa, senão confiar na capacidade do autor em nos deixar levar, em nos surpreender e encantar. 


M. R. Carey queria que sua história fosse palpável, possuísse
justificativas e conseguiu. Aqui nós observamos de perto o que o colapso
causou à sociedade como um todo, descobrimos que, apesar de civilizados, o ser
humano nem sempre responderá as expectativas e nem sempre fará o que se espera dele.
Receberemos justificativas muito bem embasadas ao longo de toda a história, nada do que acontece nesse livro é impossível de imaginar na vida real.
E temos também
o final. Não se preocupem, não soltarei nenhum spoiler. Mas o que eu preciso
dizer é que a ligação que o autor fez com a Caixa de Pandora foi magnífica,
surpreendente e me deixou sem palavras. É o típico final que
chega sem avisar, que nos surpreende e nos encanta. Eu sinceramente não
esperava por isso, estava apostando em uma hipótese muito mais trágica e
triste, mas quando me deparei com o poder e a mensagem deste desfecho, fiquei
feliz por ver que estava totalmente errada. 
A Menina que
Tinha Dons
é um livro sensível, porém cruel, é cheio de esperanças, porém também
contém grandes doses de tristeza e desespero. Este é o típico livro que não
agradará a todos, não despertará o interesse em vários leitores, mas garanto
que se arriscarem e apostarem na história dessa querida garotinha, vocês não
irão se desapontar. O autor conseguiu me passar sua mensagem, e agora eu me
sinto no dever de passar essa história adiante!

“Ela desenha na
lateral do tanque a letra A maiúscula e outra minúscula. Os mitos gregos e as
equações quadráticas virão depois. ”

rela
ciona
dos