Título
Original:
Der Hals der Giraffe
Autora:
Judith Schalansky
Ano:
2011
Editora:
Alfaguara
Páginas:
224
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Não
vou mentir. Muitas vezes eu me sinto parte daquele, ou talvez realmente faça parte, do grupo de leitores que para e pensa em como
seria maravilhoso conhecer livros escritos em outros países, por autores de
realidades diferentes, por pessoas como a gente, mas que possuem uma visão de
mundo totalmente nova e ainda não explorada. 

Porém, mesmo com vontades e
planos, na grande maioria das vezes acabo lendo obras de autores norte americanos
e ingleses, e quando me sobra uma brecha, tento inserir os nacionais em minhas
leituras. Mas sabe aqueles momentos em que tudo se alinha para que você consiga
fugir um pouco da rotina? Você já se viu naqueles momentos em que encontra um livro único e que, ainda por
cima, vem de um país que sempre esteve seu coração? Quem já passou por essa experiência sabe o quanto é gratificante sair do comum e se aventurar na literatura de outros países. E hoje, após ter passado novamente por essa experiência, venho compartilhar com vocês um pouquinho da literatura alemã!

“Esses
transtornos de desenvolvimento que vemos agora em todos os lugares. Depois da
dislexia, a discalculia. O que viria em seguida? Uma alergia a biologia? ”

O
Pescoço da Girafa
começa com um acontecimento simples, rotineiro e talvez sem
grandes proporções, mas juntamente com essa realidade comum aos nossos olhos, nos deparamos com alguns
significados e certas personalidades. Nos vemos em um edifício escolar, sentados em uma sala
de aula, iremos iniciar a aula de biologia e com esse acontecimento que já fez,
ou talvez ainda faça parte da vida de muitos de nós, iremos conhecer a única de
sua espécie, Inge Lohmark.

Inge
é uma professora que já apresenta certa idade. Ela possui uma opinião fortíssima sobre novos métodos de ensino e do papel do professor e do aluno em uma instituição de ensino, a personagem leciona biologia para seus alunos de uma
maneira firme, séria, sem gracejos ou qualquer tipo de amizade com seus alunos. 

De maneira resumida, ela se mantém distante de seus problemas e faz o possível para focar todo o roteiro da classe nas questões referentes a matéria. Seus alunos estão ali para aprender e ela está lá para ensinar. Essa personalidade
forte e peculiar possui seus próprios princípios, sua própria forma de ver o
mundo e isso irá transparecer ao longo de todo o livro. Iremos acompanhar a personagem, e conhece-la em sua maneira antiquada
e arcaica de lecionar, em suas relações com os colegas de ensino, passando também pelos
pensamentos relacionados a sua única filha e ainda as atividades de seu marido. Nesta obra fascinante, iremos entrar na mente lógica, prática e, por vezes, sem um pingo de
sentimentalismo de Inge.

O
Pescoço da Girafa
foi uma agradável surpresa e, ao mesmo tempo, uma difícil e
complicada tarefa para essa pessoa, e leitora razoavelmente destemida que vos fala. Fiquei impressionada, surpresa, encantada e também confusa com o
modo como Judith Schalansky conduziu toda a obra. 

“E,
em seguida, ver mais alguma coisa do mundo. No entanto, o mundo estava bem ali:
a floresta, o campo, o rio, o pântano. ”

Como mencionei antes, o livro é iniciado através de um evento cotidiano, mas
desta mesma maneira única, ele é finalizado. Assim como acontece com nossas próprias vidas, toda a
obra é permeada de acontecimentos cotidianos, simples e singelos, mas essa obra não seria o que é se seguisse apenas essa fórmula. É quando a forma
única de ver o mundo que a personagem possui é inserida na equação, que o livro se transforma em algo mais, em algo além do comum, além do repetitivo, além do usual. Inge é uma personagem incrível e cheia de peculiaridades. Seus
pensamentos são transparentes em suas ações, da mesma forma como muitas pessoas de carne e osso são, mas é o que ela
pensa em seu íntimo, o que ela não diz, que me fascinou e deixou intrigada. Me fez ver confusa, e em muitos casos, concordando com as entrelinhas de suas observações.
Em
muitos pontos, e ressalto aqui que as duas obras não são iguais apesar de possuírem sim similaridades em sua essência, essa obra me lembrou de A Assinatura de Todas as Coisas (resenha aqui), lançado
também pela Alfaguara e escrito pela minha rainha Elizabeth Gilbert. Essas duas obras literárias possuem uma forma única de retratar suas personagens principais, assim
como sua forma de ver e compreender o mundo a sua volta, além de possuírem uma escrita diferenciada. 
Mesmo estando acostumada com leituras
mais complexas, e ser uma grande fã de livros que fogem do comum, não posso negar que senti alguma dificuldade para entender com precisão e certeza o que existia
por trás de certas situações, acontecimentos e dos pensamentos da personagem.
Algumas passagens me foram muito simples de entender, outras, com um pouco de
pensamento e interpretação foram, com o tempo dissecadas, mas ainda assim, finalizei o
livro sem realmente compreender o significado de mais de uma passagem. Destaco esse detalhe não para desmerecer a leitura, e nem mesmo para comentar o quanto o livro é complexo e difícil, mas sim para afirmar que de maneira alguma isso se tornou um ponto fraco. O fato de não ter compreendido algumas reflexões só me deixa ainda mais ansiosa
para reler a obra e tentar entender tudo aquilo que, à primeira vista, não estava claro aos meus olhos.

“Criança
e animal de estimação: nunca terminam bem. Dar um animal para uma criança era
uma forma especialmente pérfida de maltratá-lo. Ensino de competências sociais
uma ova. ”

O
Pescoço da Girafa
possui opinião, reflexão e argumentos para mais assuntos do
que podemos imaginar, para mais temas do que posso destacar, e para mais realidades do que podemos inseri-lo. Aqui somos capazes de observar uma maneira única de compreender a
maternidade da mesma forma em que compreendemos a passagem do tempo, a chegada a
puberdade, os relacionamentos humanos, e tantos temas e assuntos que fazem parte de nossas vidas. Mais do que um livro sobre a realidade com a qual estamos acostumados a acompanhar dia após dia, esse é
um livro que nos traz uma visão única sobre nós mesmos e a sociedade.
É difícil
falar e escrever a resenha de uma obra complexa, cheia de interpretações, opiniões e reflexões.
Mais difícil ainda é fazer transparecer para o leitor, que muito provavelmente ainda não teve qualquer contato com a obra, uma história que segue o
ritmo da vida real, do cotidiano, e que ainda assim não é como a própria vida
real. Da mesma forma que cada um de nós somos peculiares, possuímos nossos próprios
pensamentos e opiniões, Inge também os tem e também é única. Dessa forma, muito mais do que conhecer um mundo novo, uma personagem única, ou uma nova sociedade, nós entramos de corpo e alma na mente de outra pessoa. Reconhecemos como podemos ser iguais, diferentes, parecidos e ainda assim sermos cada um de nós. Reflexões e críticas permeiam todo o livro, mas é a mente de outra pessoa que torna a experiência muito mais cativante, já que somente assim podemos compreender com exatidão como é o pensar, o agir e o ser outra pessoa.

“A
vida não era uma batalha, a vida era um fardo. Precisávamos carregá-la. Da
melhor forma possível. ”

rela
ciona
dos