Título Original: The Geography of
Genius: a Search for the World’s most Creative Places form Ancient Athens to
Silicon Valley
Autor:
Eric Weiner
Ano:
2016
Editora:
Darkside
Páginas:
341
Compre: AmericanasAmazon

Quando,
em algum ponto temporal de 2016, o primeiro lançamento do novo selo da Darkside
era anunciado, confesso que você poderia me encontrar dentre o grupo de pessoas curiosas com a nova empreitada da editora. O selo Crânio surgia no
horizonte como algo novo, uma tentativa de expandir o conteúdo da
caveirinha para muito além do mundo fantástico de monstros, zumbis ou princesas
de reinos distantes. Sua intenção principal era inserir o mundo real na mente
dos leitores apaixonados pelo trabalho da editora, era mostrar a magia que
pesquisadores e estudiosos descobrem ao analisar nosso mundo, era garantir que
obras de não ficção possuíssem um lugar tão especial quanto qualquer outro livro possuí. E foi assim que Onde Nascem os Gênios surgiu.
Por
muito tempo, após ter finalizado a leitura dessa obra, encarei o que me
aguardava, as páginas em branco de um arquivo virtual, com receio e dúvidas. Mas ao mesmo tempo, começava a sentir uma
pontada cada vez maior de ansiedade. 

“Os
gênios possuem uma determinação ferrenha, uma disposição para começar e
recomeçar novamente que, embora não se encaixe em nossa ideia romântica de
criação sem esforço, ainda assim é crucial. O que distingue o gênio dos outros
não é necessariamente quantas vezes ele tem sucesso, mas quantas vezes
recomeça. ”


Uma
coisa é escrever a resenha de uma obra do gênero fantasia, de uma história inspirada em fatos
reais, de um livro de memórias. Outra extremamente diferente, é escrever a resenha de
um livro acadêmico, apontar o dedo para a pesquisa de alguém, para as conexões
feitas após muito se estudar, muito se pensar, elaborar, formatar e
reformular. 
Quando nos propomos a comentar um livro acadêmico – vou
explicar melhor adiante – o olhar muda, as fórmulas a que estávamos acostumados
se tornam inúteis e o melhor a fazer é seguir um caminho contrário àquele que
normalmente seguiríamos. Foi através de muito esforço, de um caminho novo com aspecto antigo, de dias encarando as páginas que hoje se transformaram nesse resenha, da tentativa de colocar em
ordem os pensamentos e reflexões que entraram em um redemoinho constante, e é claro, após boas xícaras de
café, que nasceu uma resenha arriscada sobre um livro acadêmico.
Onde
Nascem os Gênios
, título escolhido para a publicação aqui no Brasil, na
realidade foi batizado de A Geografia do Gênio: Uma Busca pelos Locais mais
Criativos do Mundo da Antiga Atenas até Silicon Valley
. Com um nome sóbrio, daqueles
que mostra a que veio, o livro talvez não alcançasse o apelo que alcançou caso possuísse
o título original. É mérito da editora a percepção de que acadêmicos não
possuem, necessariamente, apelo de mercado, e que para essa empreitada dar
certo, o livro de Eric Weiner deveria apresentar um título instigante,
misterioso, capaz de fisgar novos leitores ao mesmo tempo em que deixava os mais exigentes pulando de alegria. Confesso que estou nas duas opções.

“Os
acertos acabam em museus e estantes das bibliotecas, não os erros. O que, se
pensarmos a respeito, é uma pena. Isso alimenta o mito de que os gênios acertam
de primeira, que eles não cometem erros, quando, na verdade, eles erram mais
que o restante de nós. ”


Através
de uma escrita direta, simples e muito bem-humorada, Eric
Weiner ganha o posto de guia de viagem, se transforma no companheiro ideal, é capaz de
desbravar a trajetória histórica das figuras que hoje reconhecemos por gênios.
Com precisão e foco, o autor destaca as mudanças de ares, as diferenças
encontradas nos maiores centros de cada época, centros estes que produziram
mentes brilhantes. 
Através da análise de épocas, momentos e contextos
históricos, cidades específicas, das personalidades que hoje reconhecemos e
adoramos (no real sentido da palavra), das características materiais ou até
mesmo culturais de cada localidade, descobrimos as nuances capazes de fazer surgir
mentes geniais. 
Confesso que meu maior medo, no exato momento em que iniciei a leitura desse livro, era
encontrar uma visão equivocada da genialidade. Logo nas primeira páginas, porém, percebi que meus medos eram infundados e que estava diante de alguém com as mesmas visões que possuía as mesmas visões de mundo, mas que, é claro, pesquisou e sabe muito mais do que minha humilde pessoa. Encontrei nas páginas dessa obra um desbravador, alguém com algo para contar e com as melhores intenções, alguém que encarou a difícil e
gratificante tarefa de viajar o mundo, realizar extensa pesquisa e colocar no
papel a realidade guardada a sete chaves pelos senhores do mundo. 
Ao retirar a genialidade do altar em que está posta, Eric Weiner é capaz de
observar cada época, cada momento histórico, cada cidade e personalidades que
ali surgiram, com um olhar novo, desmistificado. Para além de todos os detalhes
já comentados, o autor realiza um trabalho magnífico no sentido de
desmistificar a figura do gênio e ainda evidenciar as diferenças de visão e
tratamento que cada sociedade lançava sobre seus gênios, sobre suas figuras
criativas e de grande valor. Sua visão não possuí preconceitos, não evidencia uma cultura em detrimento de outra. O autor demonstra a genialidade tanto em sociedades ocidentais quanto nas orientais, e assim, com outra escolha certeira ele me conquistou.

“Desde
o início, o café foi considerado perigoso. Ele era conhecido como a “bebida
revolucionária”, o estímulo das massas. Quando as pessoas bebiam café, ficavam
agitadas, e sabe-se lá onde essa agitação poderia dar. ”


Por
se tratar de um livro acadêmico estrangeiro, Onde Nascem os Gênios ainda
apresenta a vantagem de possuir uma escrita simples e fácil de ser entendida. Para aqueles que nunca tiveram contato com obras do gênero, é interessante destacar que livros e artigos escritos na língua inglesa – ao contrário da grande maioria
brasileira – não apresentam grande impedimentos ao leitor, assim, no momento da
tradução o mesmo se repete. Porém,
ao apresentar uma escrita simples e direta, não estou dizendo em momento algum
que o livro seja leve, muito pelo contrário, ele é denso. Denso no sentido de
possuir informação, de possuir conteúdo, de exigir que o leitor esteja focado naquilo que lê e que venha a refletir sobre aquilo que encontrou.
Por
mais estranho que possa parecer, Onde Nascem os Gênios, além de apresentar
informações novas, me fazer refletir e ser capaz de conversar comigo sobre elementos
que também acredito, foi uma obra que me emocionou, me tirou boas risadas, foi além de tudo o
que poderia esperar. É difícil e dura a tarefa de resenhar um livro acadêmico,
demonstrar para um leitor em potencial que muito mais do que entreter, a obra
irá modificar sua visão de mundo, o fará refletir. Apesar de possuir a edição maravilhosa
da Darkside, de possuir apelo comercial e apresentar uma escrita de fácil
acesso, a obra por si só é quem rouba a cena.
Em
um país onde os acadêmicos sentem a necessidade de manter-se distante, de, mesmo
sem perceber, evitar o acesso e contato com obras importantes e informação capaz
de mudar a visão do mundo. Em um país em que a população como um todo não
valoriza a leitura, seja ela do gênero que for. Em um país em que livros
específicos são escritos em linguagem complexa e muitas vezes ineficiente, saúdo
a empreitada da Darkside. Me encanta ver uma editora se arriscando, trazendo
uma obra de não ficção com a mesma roupagem, cuidado e carinho que traria para um
livro de fantasia. Não sei dizer onde o selo Crânio irá chegar, mas sei que, se
depender dessa pessoa, ele será defendido com unhas e dentes. Mal posso esperar
para ver quais outros mistérios desvendaremos através do olhar sem vida de um crânio.

“Precisamos
começar a pensar na criatividade não como uma indulgencia privada, mas como um
bem público, parte dos bens comuns. Nós temos os gênios que queremos e
merecemos. ”


rela
ciona
dos