Título Original: Um Martíni com o Diabo
Autora: Cláudia Lemes
Ano: 2016
Editora: Empíreo
Páginas: 336
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Charlie está em busca de vingança. Ao descobrir sobre o passado da sua mãe e sobre a origem do seu nascimento, ele não vê outro caminho a não ser encontrar a pessoa que causou tanta dor e sofrimento a sua mãe. Para isso ele enfrentará as consequências do que é estar na máfia italiana de Las Vegas. Sua missão é assassinar Tony Connici, um dos chefes da máfia e seu pai.
Uma vez infiltrado na família Connici e cada vez mais próximo de Tony, Charlie se vê menos capaz de executar seu plano inicial. A vida fácil, regada a dinheiro, poder e a influência que um mafioso ganha em Las Vegas, o seduz. Charlie faz amigos e inimigos, lida diariamente com distrações e provações, conflitos, descobertas e principalmente perdições. Agora ele também é um deles.
A primeira coisa que você deve saber ao pegar Um Martíni com o Diabo para ler é que o livro relembra o estilo “noir“, uma forma de filmagem que traduzindo livremente fica “filme negro”. O estilo acabou virando um subgênero dos filmes policias na Grande Depressão. Porém a história que a autora está contando, vai se passar no período entre os anos 80 e 90, quando a Cosa Nostra atuava em Las Vegas. Fãs de O Poderoso Chefão, por exemplo, devem se identificar com a história e narrativa.
Cláudia Lemes nos apresenta uma Las Vegas controlada pelo crime organizado, uma cidade com suas próprias regras e mantida pelas tradições das famílias italianas. Tony é o don, ou seja, o chefe de apenas uma das famílias da máfia, mas até entre elas existe conflito e traição. Uma guerra entre as famílias está próxima, o FBI está cada vez mais perto de encontrar os cabeças das quadrilhas e Charlie, nosso protagonista, está no meio de tudo isso e correndo todos os riscos.
A autora inclui na sua narrativa várias expressões em italiano, para ajudar o leitor a se ambientar na história. Para isso foi incluso no livro um glossário com o significado de cada expressão, assim como um mapa sobre a hierarquia da família Connici. 
A narrativa da autora, sem dúvidas, é seu grande trunfo. Cláudia é muito direta, dando um ritmo acelerado em sua trama, mas sem deixar de segurar as pontas com a continuidade dos fatos. Passam-se anos ao longo do livro e apesar disso, não perdemos nenhum detalhe sequer sobre nosso protagonista, mesmo quando a perspectivas dos capítulos deixam de serem narrados por Charlie em algum momento.
Outro ponto forte do livro são os personagens secundários. É fácil visualizar e traçar a personalidade de cada um dos personagens do livro. Sejam eles os mafiosos, os traficantes, as garotas de programa, os agentes do FBI, a doce mãe de Charlie e a do Diabo em pessoa. Tony Connici é aquele personagem que mesmo ficcional, consegue causar um frio na espinha quando aparece durante a leitura. Sem dúvidas, é um personagem bem construído, que faz jus ao seu cargo como chefe dos Connici. 
A presença feminina de Marion e Graeme carimba a história de Cláudia como uma cereja no bolo. São duas personagens completamente diferentes, que carregam seus próprios fantasmas e que apesar de tudo que já passaram, se provam sobreviventes, provam seus valores e força ao longo da leitura. Donas, literalmente, de suas vidas e provavelmente, donas de seus destinos nesta história. Só Cláudia poderia nos dizer isso.

O personagem de Charlie, por sua vez, oscilou muito ao longo do livro. E complicado acompanhar desde o início as motivações do até então, jovem Charlie Walsh, filho de uma mãe solteira irlandesa ao Charlie Retorini, braço direito de Tony, que apesar das suas convicções, fraquejava e se rendia a corrupção. Ele havia virado algo muito distante do jovem que havia saído há anos de casa em busca de retaliação. Charlie percebe tardiamente que uma vez dentro daquela vida não havia mais saída e suas motivações contra Tony acabam sendo colocados a prova. Este conflito de personalidade e amadurecimento do personagem causa um misto de empatia e revolta para o leitor, mas ao final, fica impossível não deixar de torcer por ele. 
Passa a ser interessante acompanhar esta mutação de Charlie, que mergulha de cabeça no mundo do crime. No fundo, é possível notar que ainda existe um pouco do velho Charlie nele. Aquele que ainda possui misericórdia com os inocentes, um que é capaz de confrontar Tony quando ninguém mais é capaz.

Um Martíni com o Diabo é um livro violento e direto ao ponto. É exatamente aquilo que a autora quer passar para o leitor, a verdade, nua e crua, característica que notei desde a leitura de outro livro dela. É uma abordagem densa, que pode pegar os desavisados de surpresa. Você encontrará um linguajar pesado, sexo, cenas com violência extrema, personagens consumindo drogas e cometendo atrocidades. Mas nada disso está ali por estar, tudo tem um significado e pesa dentro da história.

Este é meu segundo contato com a autora Cláudia Lemes. Tive o prazer de conhece-la através do excelentíssimo, Eu Vejo Kate (resenha) e desde então venho cuidando tudo o que a autora posta em suas redes sociais. Quando fiquei sabendo de Um Martíni com o Diabo foi difícil segurar a empolgação, era garantia de mais uma ótima história.

Concordo que fui tomada pela expectativa, visto que conhecia a autora de outro livro, tão violento quanto, porém, acredito que se eu conhecesse mais sobre este mundo da máfia, se fosse mais familiarizada com histórias do tipo “O Poderoso Chefão” e “Os Sopranos” eu poderia ter aproveitado ainda mais a leitura, poderia ter demorado menos para entrar no clima da narrativa e entender com mais facilidade tudo que acontecia ali.
Óbvio que a minha falta de “know how” não tira o brilho da excelente obra que a autora acaba de lançar. Até para mim, que sou totalmente leiga neste tipo de gênero acabei me rendendo para a história. Então se você gosta de livros violentos e escrito com extrema maestria, permita-se conhecer Um Martíni com o Diabo, conheça o lado obscuro e corrupto de Las Vegas e boa leitura, porém, tome cuidado, não deixe Las Vegas te seduzir.

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