Lion

Lançamento:
16 de fevereiro de 2017
Com: Dev Patel; Nicole Kidman; Rooney
Mara; Sunny Pawar; Priyanka Bose
Gênero:
Drama; Biográfico
O
mundo é enorme em toda sua pequenez. É repleto de histórias, caminhos
que se cruzam e entrelaçam, vidas que se chocam e modificam rumos e futuros
desconhecidos, e enquanto tudo isso acontece, gira sem compreender a
quantidade de vidas que dele dependem. Em meio a imensidão de paisagens, caminhos
desconhecidos são trilhados, mães são separadas de seus filhos, crianças se
perdem em meio a multidões e reencontros nunca acontecem. Mas quando a tristeza
se torna insuportável, a esperança parece ter desaparecido de nossos corações, uma
voz se eleva com toda a coragem que possui para contar sua história.
No
ano de 1986 um adorável garotinho brinca com seu irmão mais velho, os dois se unem
para garantir um pouco de leite que em breve será distribuído para os membros
da pobre e bela família cuja mãe batalha todos os dias para garantir a menor parcela
de conforto, segurança e futuro. Naquele ano, o garotinho Saroo possuía apenas
cinco anos, era feliz, via magia na pequena comunidade em que vivia e queria
ajudar o irmão mais velho, ser útil, contribuir com algo. Guddu, acaba cedendo
as tentativas do pequeno, levando-o consigo para um trabalho noturno, mas Saroo
possuía apenas cinco anos, estava cansado, acabou adormecendo no caminho para a
estação. É no meio da noite, no desespero que surge pela falta do irmão ao seu
lado, na estação vazia, que a vida de um filho se separa dos caminhos de sua
família.


Saroo,
ao perceber-se só, chama pelo irmão, se desespera. É apenas uma criança e não
possuí ninguém a quem recorrer. Ele entra em um dos vagões estacionados na
estação, em busca do irmão mais velho, mas o cansaço, a tristeza e o desespero o
derrotam e acaba adormecendo. Quando acorda novamente está em movimento,
seguindo para a cidade de Calcutá, localizada a 1500 milhas de sua casa, de sua
mãe, de sua família. O garotinho não fala bengali, a língua utilizada na
cidade, ele só conhece o hindi. Não conhece o nome da mãe, não sabe dizer de
onde veio e nem pronunciar corretamente o nome de sua vila, está perdido em um
ambiente estranho. Ao perder-se, a pobre criança andará sozinha pelas ruas,
buscará ajuda, encontrará outras crianças perdidas, será direcionada à polícia
por uma pessoa bem-intencionada, acabará em um orfanato. Mas seu caminho,
embora intrincado em meio a tanta tristeza, estava destinado a uma família australiana
cheia de amor.

Vinte cinco anos após ser adotado, Saroo, a criança indiana perdida, encontrada por uma família
amorosa que lhe proporcionou um futuro improvável, ainda é uma
pessoa perdida. Ele se lembra do caminho que fazia para voltar para casa,
lembra-se do belo rosto da mãe, das brincadeiras com o irmão, do jalebi que
ambos sonhavam em comprar. Vinte cinco após uma criança se perder no mundo, um
filho decide buscar o caminho de volta para casa. E é essa jornada que iremos
acompanhar em Lion.
Todos
os anos, crianças e mais crianças se perdem na Índia. Lion é a história de
apenas uma delas, a trajetória de uma criança que encontrou o caminho de volta
para casa, de uma criança que encontrou uma segunda família, uma segunda mãe
que o amou, cuidou, proporcionou um futuro e deu suporte quando o filho
precisou reencontrar aquilo que deixou para trás. O filme possuí uma carga
enorme de tristeza. Saber que a cada dia crianças são perdidas é de partir
corações, de criar um nó na garganta, marejar os olhos. Conhecer os destinos
aos quais essas crianças podem chegar, pensar que cada uma delas pode ter sua
vida destruída no meio do caminho, é pior ainda. Embora não detalhe, não
exponha os diversos fins de crianças perdidas, o filme nos apresenta uma
realidade dura e isso nos assombra. 
Dividido
em duas partes distintas, uma apresentando o caminho trilhado pelo pequeno
Saroo até ser adotado por uma família australiana e a outra, mostrando a busca
de um Saroo mais velho pela família deixada para trás, o filme nos suga para
dentro do sofrimento, da tristeza, da incerteza de não saber o que aconteceu.
Enquanto a primeira parte é triste por si só, capaz de tirar lágrimas dos
olhos, espantar com a brilhante atuação de Sunny Pawar, a segunda parte é
melancólica. Os acontecimentos da primeira parte marcam a segunda, transformam
um ser humano e direcionam sua busca. Porém é aqui que tudo se transforma. Dev
Patel
nos conquista, seu olhar perdido, a sutileza de sua atuação, a carga de
tristeza que o ator traz consigo garantem toda a sensibilidade necessária para
contar essa história.
O
filme é sua história, o sentimento que permeia cada cena, a carga de tristeza
capaz de destruir corações, fazer com que o espectador se emocione. Porém, o
único ponto destoante são as diversas cenas explorando a ferramenta Google
Earth
. Compreendemos sua função, elas auxiliam na narrativa, porém, destoam,
são usadas em demasia. As cenas diretas, onde a ferramenta é estampada na tela, quebram
a atmosfera do filme, retiram a condução maravilhosa que vinha sendo
apresentada e poderiam ter sido melhor pensadas, ou simplesmente cortadas e substituídas
por cenas como as do quadro com as impressões em papel dispostas lado a lado.
Em
meio a tantos fortes indicados ao Oscar de 2017, Lion pode não ser aquele a
levar a estatueta de melhor filme para casa, porém, seu maior triunfo não está
no ouro que brilha em uma estatueta, e sim na história de uma criança que teve
o futuro garantido e encontrou o caminho de volta para casa. Sensível e belo, o
filme conduz o espectador a uma história com final feliz, porém, abre os olhos para
as trajetórias interrompidas, para as crianças perdidas que nunca reencontraram
suas famílias. Para além de apresentar talentos estabelecidos, de uma história
dramática, o filme insere no contexto do Oscar uma trajetória que foge do
padrão conhecido pelas escolhas da academia, e espera-se que, cada vez mais,
tenhamos novos rostos, novas culturas, histórias incríveis sendo destacadas na premiação.

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