Título
Original:
Cujo
Autor:
Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Ano:
1981
Editora:
Companhia das Letras
Páginas:
373
Dentre
tantos autores famosos, consagrados e destacados no mundo da literatura contemporânea – se
é que tenho a permissão de classificar dessa forma – Stephen King sempre foi um
entre aqueles que prometia um dia conhecer, mas que quando colocada à prova, nunca realmente me
comprometi a concretizar a promessa. 

Quando, no meio do caos que foi o ano de
2016, uma nova oportunidade de conhecer a obra do autor surgiu, confesso que
meus velhos hábitos não demoraram a aparecer. Foi preciso um empurrãozinho para
que aquela leitora que não se surpreende facilmente decidisse,
finalmente, descobrir o que existia de tão especial nas palavras pensadas por um autor que viu suas obras nas telas do cinema inúmeras vezes. 

Como
pode vir a acontecer com a maioria dos novos leitores, quando deparados com a obra de um autor
consagrado, cujo trabalho é publicado, republicado e
lançado novamente em edições ainda mais bonitas que as anteriores, confesso que
fiquei aflita. Não queria ser aquela a atirar pedras na obra de um autor que
possuí uma legião de fãs para revidar. Não queria ser a leitora chata que desgosta de um autor famoso, que iria se arrepender após ter arriscado a leitura. Apesar de todas as dúvidas, de surpresas e um pouco de amargura, venho compartilhar
com vocês minha primeira leitura do famoso Stephen King.

Cujo, apesar do que possam tentar te vender, trará uma história muito mais real, natural e até mesmo plausível, do que uma história com um pé no mundo sobrenatural. A trama se passa na cidade agradável de Castle Rock, localizada no estado do Maine, Estados Unidos. Considerando o aspecto adorável da cidade, você não imaginaria que aquela vizinhança, anos atrás, viu o horror transformado em pessoa.

Pessoa esta que morava em seus domínios, possuía nome, sobrenome e endereço fixo, e era capaz de matar pessoas da mesma forma com que você é capaz de
ler essas palavras. Frank Dodd, por muito tempo foi o pesadelo da cidade, era invocado quando as crianças não obedeciam seus pais ou quando os jovens fugiam da linha, porém, através da passagem
do tempo, a pequena cidade voltou a ser calma e agradável. Até o momento em que uma idosa peculiar sentisse o perigo que se escondia no horizonte.
Em
uma casa distante do centro da cidade, encontramos a família Camber. Joe Camber,
patriarca, mecânico e sujeito questionável, além da mulher e filho, possuí um
enorme São-Bernardo. Cujo é dócil como um filhote, amigável como qualquer cão de
família, porém têm um destino terrível a sua espera. Do outro lado da cidade,
em uma casa de classe média alta, encontramos a família Trenton. Vic, Donna e
Tad Trenton ainda se acostumam com a vida na cidade pequena quando seu
caminho, lento e discretamente, os direciona para as garras de um querido
são-bernardo. 

Embora seja difícil de acreditar, ao olhar despercebido de alguém
que não é capaz de compreender os detalhes importantes que alinham a trama, pequenos
eventos como a toca de um morcego infectado com raiva, um closet que dá
arrepios em uma criança de quatro anos, um carro com defeito e a localização do
único mecânico da cidade são capazes de gerar uma história que, mesmo
fantasiosa, possui toques de realidade e é tão capaz de nos prender quanto uma
boa história de fantasmas vingativos.

Apesar
de ter sido escrito por um autor mundialmente conhecido por suas histórias de
terror e suspense, venho aqui, com todo meu atrevimento, classificar
a obra em questão como um drama! Apesar de sermos apresentados a uma contextualização curiosa, esta nada tem a ver ou a acrescentar na narrativa principal. Porém, é a partir daquilo que parece não possuir nexo, que a trama se abre para
o que meu humilde olhar de leitora entende por um bom drama. 
Mesmo quando, da metade do livro para o final, o suspense se instala, o livro ainda é capaz de inserir e contextualizar problemas reais, infelicidades, infidelidades, a incerteza do futuro, e tudo isso, ao
meu ver, não classificam a obra como um suspense. O próprio desfecho me
provou isso, pois mesmo sabendo que o fato poderia se concretizar, preferi
acreditar que o autor não seria capaz de tanto.
Onde
esperava por terror, sangue e sobrenatural, encontrei dramas familiares, a
realidade inserida em uma trama habilmente interligada e a possibilidade do
impossível acontecer. Se Stephen King me fosse vendido como um autor de várias
facetas, diria que é exatamente isso que ele é. Porém, durante toda minha vida
ele foi vendido como um ótimo escritor de terror, e aqui e agora, digo que embora
enxergue essa habilidade, seu trunfo, ao menos nesta obra, está na capacidade
de interligar elementos dispersos do cotidiano e formar uma trama absurdamente
plausível, com probabilidades reais de acontecer. 

Onde uma pequena decepção surgiu ao encontrar um verdadeiro drama, King se mostrou capaz, também, de descrever o necessário e deixar o resto para a mente do leitor. Mostrou que a luta pela sobrevivência, o amor de uma mãe por seu filho e os monstros do mundo real ainda são elementos fortes para se criar uma ótima história.


Cujo
se mostrou, no fim de sua triste e complicada história, um companheiro ardiloso
capaz de fazer transparecer o talento diversificado do autor. Seja um drama com aspectos de suspense, ou um suspense com
elementos de drama, o livro mostra onde a mente do autor é capaz de chegar para
criar sua narrativa, demonstra sua criatividade encontrando inspiração nos mais
diversos elementos e detalhes da vida cotidiana, demonstra que muitas vezes,
monstros são reais e estão apenas esperando para serem descobertos! Após ter
encontrado o que encontrei nesse livro, mal posso esperar para me encontrar
novamente com a escrita e criatividade do autor, porém, desta vez, ciente das
possibilidades e muito mais exigente.

Conheça a coleção Biblioteca Stephen King:
3. O Iluminado

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