Título Original: Diário de uma Escrava
Autora: Rô Mierling
Ano: 2016
Editora: Darkside
Páginas: 222
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Diário de uma Escrava é o livro de estreia da autora Rô Mierling na editora Darkside. Vindo diretamente da plataforma Whattpad, o livro acumulou mais de 1 milhão de visualizações.

Meu contato com a leitura foi rápido, mas extremamente perturbador. Em Diário de uma Escrava conheceremos Estevão, casado e trabalhador, ele tem todas as características que o qualificam como um bom homem, porém não. Estevão é o homem que mantém Laura, uma menina que tinha apenas 15 anos quando fora sequestrada, em cativeiro para saciar todos seus desejos. Através dos seus diários, a menina descreve o tormento dos seus dias e todos os detalhes sobre a violência que é exposta. Durante quatro anos, para sobreviver, Laura se submete as mais terríveis humilhações em silêncio e sem qualquer tipo de esperança. Muito em Laura sofre uma mudança irreparável. Ninguém pode ouvi-la, ninguém pode salvá-la.
Como qualquer viciado, se apossar apenas de Laura já é insuficiente para Estevão e assim ele inicia uma nova caça a outras vítimas. Sua vontade de subjugar alguém está incontrolável e o desaparecimento continuo de jovens na cidade, obriga Estevão a fugir levando Laura. É assim que se inicia esta nova etapa na vida da menina. O desejo de liberdade e o medo da fuga travam um duelo constante na cabeça de Laura, que por muito tempo foi abusada não só fisicamente, mas também mentalmente.
Narrado em primeira pessoa através dos diários de Laura, Diário de uma Escrava também ganha a perspectiva de outros personagens do livro, como Estevão, sua esposa e os familiares de Laura. Uma ferramenta usada para facilitar o entendimento da história conforme precisamos entender o que está acontecendo fora do cativeiro.

“Uma vez, li na escola que o ser humano é capaz de tudo para sobreviver e que o instinto de ficar vivo é o maior e mais forte instinto que existe. Mesmo que não tenhamos mais motivos e forças para continuarmos vivos, ainda assim lutamos pela nossa vida até o último minuto.”

A autora acerta em traçar o perfil de Estevão. Logo nas primeiras páginas percebemos os transtornos de personalidade do personagem, que vai do louvável marido ao violento Ogro, como Laura o chama. Estevão é um maníaco psicopata, que busca controle e poder em vítimas que encontra nas ruas. É chocante perceber a facilidade em que Estevão escolhe e captura suas vítimas, frágeis crianças que caem numa armadilha sem volta. É desta maneira que Estevão vive sua fantasia, tirando vidas e destruindo sonhos.
A história de Laura não é real, mas poderia. A autora utilizou mais de cinco casos reais de vítimas de sequestro para basear seu livro. Além disso, inclui em seu conteúdo diversas bibliografias consultadas, trechos de jornais, revistas e livros que contribuíram para a criação de Diário de uma Escrava. Com parte destes casos, a autora pôde montar o perfil do sequestrador e o padrão que é seguido para estes predadores. Todos estes fatos verídicos servem como um alerta para pais e familiares.
Ao ler mais sobre o livro, notei que o mesmo levantou uma certa polêmica pela forma que a história foi conduzida ao seu desfecho. Em nenhum momento da narrativa, percebi que a autora foi exagerada ou leviana em suas palavras, na realidade, acho que a autora foi corajosa o suficiente para trabalhar em cima de uma realidade tão chocante. A intenção é esta, é trazer a repulsa e impactar o leitor, neste quesito a autora se saiu muito bem. Nenhuma cena foi desnecessária e todas contribuíram para o desfecho do livro, que ao meu ver, foi plausível e por que não real?

Junto a esta polêmica, também houve uma discussão sobre a personagem estar ou não sofrendo de Síndrome de Estocolmo, destacada pela autora ao final do livro. Eu gostaria muito de falar mais sobre isso na resenha, mas por querer evitar spoilers não vou me aprofundar no assunto, o que posso dizer é que concordo com a autora. Mas se vocês quiserem saber mais sobre isso, me mandem uma mensagem nas redes sociais que terei todo o prazer em discutir com vocês.

 “Eu escuto aquelas palavras e elas fazem todo sentido para mim. Tenho certeza de que minha família já me esqueceu, ninguém mais espera me achar viva. Foram mais de quatro anos – quem ficaria à minha espera por tanto tempo?”

Diário de uma Escrava serve como um alerta e a história de Laura pode ser a história de tantas outras mulheres que se encontram desaparecidas pelo mundo. A violência contra a mulher é algo corriqueiro e nós sabemos que o perigo pode estar presente atrás dos mais bondosos seres. Existem aquelas vítimas que sobreviveram para contar as suas histórias e que lutam diariamente contra o monstro que virou suas lembranças, mas também não devemos se esquecer que muitas outras, nunca foram encontradas. O livro é uma amostra de uma realidade abominável e repugnante da nossa sociedade. Este livro é mais um grito de socorro.

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