Título Original: Frankenstein, or,
The Modern Prometheus
Autora:
Mary Shelley
Ano:
2017
Editora:
Darkside
Páginas:
304
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A
curiosidade, racionalidade e a criatividade sempre estiveram presentes na
mente e evolução do homem. Não fossem por estas três características, provável seria que muitos dos avanços da atualidade, das revoluções do passado, ou do
pensamento do presente não existissem na forma como os conhecemos hoje. Porém,
o que para muitos pode ser compreendido como o diferencial, a salvação da
humanidade, também pode ser classificado como nossa maldição e ruína.
Desde
o fim da Idade Média a humanidade, por muito ligada, presa aos costumes e
mentalidade da Igreja, se volta para a razão, para as ciências, para um método
rigoroso de comprovação e observação da realidade e segredos do mundo. A
ciência, durante muito tempo foi compreendida como a redentora da humanidade,
aquela capaz de resolver todos os erros, descobrir todos os mistérios, reparar
cada defeito da natureza e do próprio ser humano. A fé cega, os avanços
desenfreados, a falta de reflexão sobre ações, escolhas e nossa posição no mundo foram
responsáveis por trazer as mais terríveis realidades, porém, nas mais diversas épocas, mentes brilhantes foram capazes de enxergar através da
neblina e dizer onde aquele caminho levaria. Este, é apenas um deles.

“A
curiosidade, a pesquisa séria para aprender as leis ocultas da natureza, a
alegria semelhante ao êxtase à medida que se revelavam para mim, acham-se entre
as primeiras sensações de que me recordo. ”

Nascido
em uma família importante, rica e amorosa, Victor Frankenstein passou a infância
conhecendo os mais diversos povos e culturas, alterando sua residência conforme
a vontade dos pais. Quando sua família finalmente fixa raízes, decide faze-lo
no solo fértil e belo da Suíça. Desde cedo Victor Frankenstein recebeu
educação, manteve uma relação direta com livros das mais diversas áreas do
conhecimento, esteve em contato com a natureza e usufruiu das maravilhas que a vida
em família pode proporcionar. Porém, quando a idade para que sua educação
avançasse e se expandisse surge no horizonte, ele é enviado para a universidade, para os ares de uma nova cidade e uma vez lá, sofrerá as consequências de seus próprios atos.
O
jovem será apresentado a novas ideias, formas de ver o mundo, descobertas no
campo das ciências naturais, deixando-se maravilhar pela grandeza de tudo. Ele também irá usufruir do prestígio conquistado por seus avanços em pesquisas, o que irá ajudar a construir sua personalidade orgulhosa. Pouco a pouco o personagem irá se direcionar para o campo de estudo do
corpo humano, para as reflexões sobre a vida e a morte, sobre qual o segredo capaz de acender a centelha da vida. Sua ânsia por descobrir os limites entre a vida e a morte direcionarão o rapaz ao projeto de sua vida.
Durante longo período ele irá criar um corpo colossal, uma união
grotesca de diversos membros antes pertencentes aos mais distintos componentes
da sociedade da época. O quebra cabeça, uma vez montado, irá necessitar de nada mais do que um último movimento, uma última ação para se ver completo.
Através da utilização de uma grande carga de energia elétrica, aquela criatura,
antes inanimada, ganhará vida. Ao observar sua própria criação,
a ruína será lançada sobre o jovem e brilhante Frankenstein. Sua vida se
transformará em terror, e ao dar as costas a vida que criou, por não estar
devidamente preparado para aquilo que tanto almejava, irá descobrir que as
consequências por seus atos, o terror, fruto de sua fé cega e falta de
reflexão, não podem receber outro culpado, se não ele mesmo.

“As
trevas não tinham efeito sobre minha imaginação, e o adro de uma igreja era
para mim tão somente o receptáculo de corpos privados de vida, que, antes fonte
de beleza e vigor, tornaram-se alimento para os vermes. ”

Frankenstein,
ou o Prometeu Moderno
, é uma metáfora para a fé cega na ciência, para a busca
desenfreada por avanços na ciência, na técnica, na tecnologia. Trata-se de uma
triste, cruel e aterrorizante história sobre a ânsia por descobrir os segredos
da vida, da terra, do universo. Para além da visão de ciência como fonte de
todas as respostas, também encontramos aqui reflexões sobre o que
verdadeiramente é ser humano. Onde se finda a humanidade e onde se inicia um
novo ser, um monstro ou demônio capaz de assombrar o futuro de todos aqueles
que amamos ou que, um dia poderíamos vir a se tornar.
Victor
Frankenstein
, apesar de tentar nos confundir com suas palavras, com seus
relatos sombrios e amargurados, é uma figura extremamente orgulhosa, arrogante,
por vezes até mesmo monstruosa. Ao completar a obra de sua vida, aquilo que com
muito afinco e paixão ousou estudar, o personagem se desespera, não está
verdadeiramente preparado para as consequências de seus atos. Por vezes, em sua sina, chega a lançar a culpa nas
mais diversas situações, acasos, estudiosos ou na própria criatura. 
Enquanto o
criador se afoga em mágoas, arrependimentos mínimos e afunda cada vez mais ao
tentar reparar um erro cuja culpa cabe somente a si, a criatura vaga sozinha
pelo mundo. O ser que ganha vida não possuí consciência de onde veio parar, não compreende a essência
humana, se vê como uma espécie à parte, deslocada de toda a natureza. As fagulhas iniciais de bondade e amor logo serão esmagadas por experiências vividas, e por
não possuir uma base, alguém a quem recorrer, um conselheiro, seus sentimentos
transformam-se em raiva para aquele que o criou. Quando a criatura se
transforma em monstro o criador vira vítima e ganha humanidade, porém a
dualidade se mostra sempre que a criatura se mostra mais humana do que o
criador, nos fazendo refletir sobre a essência da humanidade.

“Quando
percorro o catalogo medonho de meus crimes, não acredito ser a mesma criatura
cujos pensamentos, certa vez, estavam repletos de visões sublimes e
transcendentes da beleza e da excelência da bondade. ”

Frankenstein
é um clássico da literatura, e um dos títulos a serem lançados pelo selo
Medo Clássico da editora Darkside. Porém, muito além de uma história sombria e
aterrorizante, esta também é uma narrativa reflexiva, um aviso para aqueles que
ainda acreditam cegamente nos avanços da ciência e da tecnologia, além de uma
análise profunda sobre a essência humana. A visão de Mary Shelley é atemporal,
transpassa as barreiras de sua época, nos faz temer o futuro, as
possibilidades, as consequências. Porém a centelha de vida desta criatura
fantástica surge através das mãos habilidosas de todos aqueles que trouxeram
essa edição para o catálogo da Darkside. Com a edição impecável, contos
publicados pela autora, e outros extras, muito mais do que um clássico que
todos deveriam ler, esta se torna também uma obra que todo leitor deveria
possuir em sua coleção.
Muito
mais do que um clássico do terror, a obra apresenta a linha tênue entre o
surgimento de um monstro dentro da essência humana. E para todos aqueles que
alguma vez refletiram sobre o mundo ou sobre si mesmos, desafio-os a dissecar a
criatura!


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