Título Original: Abomination
Autor: Gary Whitta
Ano: 2017
Editora: Darkside
Páginas: 320
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Abominação é um lançamento de 2017 da editora Darkside Books do autor Gary Whitta. O autor é roteirista e já trabalhou em filmes como Rogue One e O Livro de Eli e também como game design em The Walking Dead

O livro se passa na era medieval, mais precisamente no cenário onde ocorreu um dos capítulos mais sangrentos da Inglaterra, as invasões nórdicas do século IX. Permeado pelos mistérios e lendas da época, o autor vai guiar o leitor por um enredo que envolverá fantasia histórica, magia e um pouco de ficção cientifica, a receita infalível para um bom livro.
Primeiramente conheceremos Wessex, o reino comandado pelo Rei Alfredo é um dos últimos a resistir as invasões vikings. Fazem anos que o Rei Alfredo firmou um tratado de paz com o líder dos nórdicos, porém, com a vida deste líder por um fio, a certeza de uma nova invasão é quase certa. Com uma guerra iminente, Cantuária, o centro religioso do Reino de Wessex e suas dependências, oferece proteção ao rei. Com o auxílio de antigos manuscritos, o arcebispo Aethelred começará a estudar feitiços desconhecidos capazes de transformar seres vivos em abominações terríveis. Uma abominação seria capaz de exterminar doze homens e é desta forma que a magia despertada por Aethelred se provará muito mais cruel e mais sangrenta do que os próprios vikings poderiam ser.

“Algo irrompeu da barriga do porco, o sangue espirrando pelo chão. Vários expectadores berraram, apavorados, e aqueles que estavam mais próximos se afastaram, nauseados quando outra excrescência brotou do corpo do porco, em seguida outra, cada uma brilhando com o sangue escuro e viscoso enquanto se desdobrava e tomava forma.”

A princípio, os experimentos de Aethelred se provam descontrolados quando testados em animais e por este motivo, sem a autorização do rei, o mesmo resolveu testa-la em prisioneiros e desertores do reino. Após presenciar a insanidade que o corrompido arcebispo pretendia causar em almas inocentes, Alfredo resolve banir Aethelred do reino, assim interrompendo seus planos. Porém, como apenas o clérigo tem o domínio sobre a linguagem dos pergaminhos, sua prisão é inútil e ele resolve partir por conta própria em direção aos nórdicos e com uma legião de abominações sedentas ao seu lado. Para combate-lo, Alfredo convocara seu velho amigo Wulfric, um dos melhores guerreiros do reino e junto de Edgar, seu fiel escudeiro, criarão a Ordem, um grupo de paladinos treinados para exterminar todas as abominações em terra.
Abominação é dividido por suas partes, a primeira com a apresentação de todo o enredo e talvez a parte com um ritmo mais intenso e repleta de ação. A segunda se passará anos depois de uma grande batalha, neste segundo ato os acontecimentos serão mais ponderados, mas tão instigantes quanto reveladoras possíveis. Parte disso se deve a narrativa feita em terceira pessoa, com ela é possível ter uma visão bastante ampla de todo o cenário criado e apresentado por Gary Whitta desde o início ao final desta aventura.

“Porque a guerra é uma amante ciumenta. Tem um jeito de nos chamar de volta para ela, muito depois de pensarmos que nos despedimos para sempre.”

A conexão do enredo com fatos históricos e personagens que realmente existiram adicionam a trama uma atmosfera mais real e sombria, onde a imaginação do leitor transita entre as páginas, sendo assim, é fácil imaginar o cenário caótico da época. Porém, é importante salientar que apesar de permear todo o marketing do livro e aparecerem como integrantes do pano de fundo da primeira parte do livro, os vikings não irão de fato aparecer, eles são apenas mencionados como uma possível ameaça e servem para justificar as ações de Aethelred. Após o surgimento das primeiras abominações, são elas que passarão a ser o foco. Isso também não quer dizer que esta história não poderá ser tão sanguenta quando uma de vikings poderia, aqui teremos uma história visceral, bastante crua em descrições e detalhes minuciosos sobre desmembramentos e vísceras jogadas para tudo que é lado. Um verdadeiro banho de sangue.

O elemento mágico da trama, apesar de sutil, vai mostrar sua devida importância na história e aparecerá em momentos determinantes. Mas quem realmente brilha aqui são as abominações, que são obras de uma mente muito criativa. Gostei das descrições que envolvem as mais diversas criaturas e confesso que fiquei invejando o bestiário que era alimentado por um personagem em especifico sempre que um novo tipo de abominação era descoberto. A trama também vai trabalhar muito com a fé dos personagens que por um momento será de suma importância para alguns desfechos, a ideia não é nem um pouco forçada e eu gostei de encontrar isso na obra.

“Se é real ou apenas um truque das sombras, a criatura pareceu aumentar em tamanho quando saiu da cela, suas dimensões monstruosas ocupando todo o corredor estreito.”

Palmas também para a personagem feminina da história, Indra irá aparecer apenas no segundo ato, em meio a sua provação para iniciar na Ordem, que já não é mais a mesma que costumava ser. A personagem é forte e determinada, está sempre disposta a provar que nunca deve ser subestimada, principalmente por homens, incluindo seu próprio pai que acredita que ela jamais será capaz de virar uma paladina. Indra não vê problemas em dar uma surra em um ou mais homens que possam se colocar em seu caminho. Gostei muito dela e de Wulfric, os dois personagens recebem mais foco na trama e serão muito bem desenvolvidos, mas não posso dizer o mesmo sobre os secundários, mesmo quando bastante intrigantes.

A edição está muito bonita, com a ilustração de um besouro, figura importantíssima na história. Com efeitos únicos, as páginas receberam detalhes em vermelho, como se a edição tivesse sido manchada com sangue de verdade. Simplesmente genial! Além disso, a edição recebe um mapa que ajuda na localização dos fatos ao longo da história. Para agregar ainda mais nisso tudo, vou deixar aqui uma página dedica a Abominação com ilustrações de Karl Lindberg, nela podemos encontrar algumas cenas retratadas em ilustrações do artista. Vale a pena conferir.
Em suma, para os fãs mais íntimos do gênero a história de Abominação pode não surpreender tanto e apresentar certos clichês, porém quando bem feito, acredito que seja possível desfrutar da leitura e sentir que o autor sabe manter o ritmo de narrativa e consegue prender o leitor. Abominação pode ter um desfecho não tão surpreendente, mas direciona o leitor por páginas cheias de ação, com muito sangue e descrições instigantes. Para mim, que não sou uma fã tão ferrenha em relação ao gênero, a obra conseguiu me convencer, passando essencialmente uma mensagem de esperança, confiança e redenção por um caminho de águas turvas e sanguentas, tudo isso em um recorte histórico que desperta a atenção de muita gente. Recomendo.

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