Resenha: O Escravo de Capela

Título Original: O Escravo de Capela
Autor: Marcos Debrito
Ano: 2017
Editora: Faro Editorial
Páginas: 288
Amazon - Saraiva

Marcos Debrito estreou como escritor com o livro A Sombra da Lua em 2013, que até concorreu ao prêmio Jabuti de melhor romance, em 2015 foi muito bem falado com seu livro Condado Macabro e agora, com O Escravo de Capela, mostra mais uma vez o seu dom para criar histórias magnificas e aterrorizantes.

As lendas brasileiras estão mais ligadas à literatura infantil ou no máximo à infanto-juvenil, com O Escravo de Capela, o autor as traz para o terror, torna o Saci e a Mula Sem Cabeça assuntos de gente adulta, corajosa e com o estomago forte para aguentar todas cenas dessa caçada lendária.

O Escravo de Capela conta a história de uma família completamente masculina, apenas com o pai e dois filhos, a mãe os abandonou fugindo da família ainda quando o filho caçula era bem pequeno. O filho mais velho e o pai são extremamente brutais com o tratamento de seus escravos, obrigando-os a trabalhar desumanamente na plantação de cana de açúcar, o filho mais novo, que está no Brasil apenas esperando um papel que o fará voltar em definitivo para a Europa, onde estuda há alguns anos, mais especificamente em Portugal, é o oposto dos dois, doce, culto e humano.

"O saco cobrindo sua face, como um gorro avermelhado que deixava apenas a boca escancarada à mostra, e a bermuda maculada de sangue ressecado eram a confirmação do impossível. Sabola voltava dos mortos."


Inclusive, o primeiro ponto positivo que notei na escrita de Marcos está diretamente ligado a Inácio, o filho que morava em Portugal, suas falas são carregadas de sotaque português, além de suas palavras serem muito mais requintadas. O autor consegue passar exatamente a sensação de o leitor estar ouvindo alguém que há tempos não vem ao Brasil, o contrário ocorre com seu irmão e seu pai, que por viverem no campo e são muito mais duras e apresentam gírias e trejeitos brasileiros de se comunicar.

Um dos escravos, cansado dos maus tratos de Batista, o dono da fazenda, e Antônio, filho mais velho, tenta fugir de seus donos, acaba assassinado depois de ser recuperado, mas seu espírito volta, em forma do lendário Saci. Esta é apenas uma das cenas de assassinato brutalmente descritas na obra, a riqueza de detalhes e a maneira como o narrador descreve os ambientes e cada um dos envolvidos e seus movimentos que acontecem durante os crimes é perfeita, rica em detalhes, em muitos casos mais de um personagem estão “contracenando” e o escritor consegue passar ao leitor a emoção e a ação praticada por cada um, sem deixar lacunas nem esquecer de alguém. 

As cenas se passam basicamente em dois ambientes, a plantação de cana da fazenda e a casa grande. Algumas outras fogem desses ambientes, parando na senzala, mas apenas esses três lugares aparecem no livro, o que na minha opinião é pouco, o autor poderia ter descrito muito melhor a cidade daquela época e locais como armazéns ou o centro onde acontecia o comércio. Claro que, nada que deixe o livro menos interessante, alguns leitores podem até se agradar mais com esse modelo, pois a história fica muito mais fechada, sem enrolação e com poucos envolvidos, porém eu já prefiro conhecer mais da história como um todo, com informações sobre o país e a cultura daquela época.



Inácio por ter parte de sua formação adquirida na Europa é bem mais culto e se indigna com a maneira que Batista e Antônio tratam as pessoas, ele acaba se envolvendo emocionalmente com uma das mucamas da fazenda, uma história que norteia grande parte do livro, fazendo uma narrativa de extremo terror ter muitos momentos de romance explicito, o que não é muito comum, por muitas vezes quem gosta de um dos gêneros não se envolve bem com o outro. Achei uma atitude ousada do escritor e meio perigosa, em alguns momentos o romance se sobressai aos outros motes da história, fazendo o livro ser bem “emotivo”.

Além do terror, do histórico sobre a escravidão e do romance, o livro ainda traz a recorrente disputa entre o filho malvado e autoritário contra o culto e bonzinho, com algumas características clichês, como por exemplo, o malvado ter medo do irmão tomar a fazenda que ele cuidou durante todo o tempo que o outro esteve longe da família. Esse para mim foi o ponto mais fraco do livro, porém o escritor consegue dar um ar extremamente forte e incisivo nisso utilizando a sua escrita, tornando a maneira como descreve as situações ligadas a isso menos comuns e fazendo a história não ser prejudicada por essa parte já manjada.

O Escravo de Capela é um livro com muito sangue, acredito que por causa das mortes infindáveis as bordas de suas páginas sejam vermelhas, tamanho o sangue que escorre delas, uma releitura original e surpreendente de lendas tão antigas. Você com certeza nunca viu nada parecido relacionado ao Saci e a Mula Sem Cabeça, a leitura é fácil, apesar de bem pesada, a ação é constante e o romance bem implícito, é a primeira leitura que faço desse autor, então não consigo tirar uma conclusão sobre ele envolver tanto romance em seus livro, talvez faça parte da sua maneira de escrever e permeie suas demais obras também, mas neste posso dizer que ficou bem colocada, talvez no limite para não prejudicar a leitura para quem não gosta muito de romantizar livros aterrorizantes.



Quanto ao exemplar do livro, as bordas de página são pintadas, uma coisa já comum nos livros lançados pela Faro Editorial e que o deixa muito bonito, as folhas são grossas impedindo que as letras da página seguinte reflitam na que você está lendo, uma coisa que me incomoda muito em algumas edições e que neste livro está perfeita. 

Em suma, o livro é um ótimo terror, cheio de assassinatos, dramas e romance, quem gosta de mortes descritas de uma maneira muito convincente e aterrorizante irá adorar. Além de fazer lendas brasileiras terem novas explicações para o seu surgimento, a leitura vale a pena para saber como se transforma a lenda e a maneira como estes personagens do nosso folclore podem amaldiçoar o ambiente e as pessoas passando de ícones infantis para símbolos aterrorizantes.

27 comentários

  1. Oi Bruno :)
    Achei que o autor foi muito original de recriar essas lendas trazendo uma pegada histórica junto. Eu leio muito sobre essas ambientações escravocratas e a divisão parece ser bem estruturada. Acho que vou gostar da inserção do romance do filho que mora em Portugal com uma das mucamas.
    A edição tá muito linda e fiquei curiosa pra saber o desenrolar das histórias.
    Obg pela indicação ;)
    Abc

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vale muito a pena, não vai se arrepender.

      Excluir
  2. Olá !!
    Uma amiga minha me recomendou esse livro mas ainda não tinha visto nenhuma resenha sobre ele ..
    Esse livro apesar de ser sobre 'lendas' é bem real ao retratar a maldade humana!

    Adorei !! Vou ler com certeza !

    Bjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso, leia mesmo, depois passa aqui pra dizer o que achou.

      Excluir
  3. Olá!!
    Gostei muito da premissa, pois gosto muito de livros com temas históricos.
    Parece ser um livro que envolve a gente, além de ser muito frenético. Quero muito ler. Bjos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, mas ele deixa a desejar um pouco na parte do teor histórico, fora isso é ótimo.

      Excluir
  4. É um livro que desperta curiosidade em saber mais, fiquei impressionada com tanto terror que tem, mesmo sabendo que na época da escravidão era crueldade pura, as cenas dos assassinatos deve dar uma angustia e um aperto no coração com tanta maldade assim ainda mais por serem bem descritas. Quanto a parte do romance gosto, só não quando é aqueles melosos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade, e o autor faz questão de mostrar bem esse tipo de cena. O romance é bem meloso, mas não atrapalha muito a história.

      Excluir
  5. Esse livro não me chamou atenção de cara mas vendo mais dele até que parece bem interessante. Gostei dessas misturas que tem nele. De falar de um contexto histórico, esse negócio dos escravos e das coisas ruins que faziam, as lendas que surgiram e o lado obscuro e cheio de sangue da trama, romance.... Parece ter ficado legal por isso.
    Tem umas coisas que soam clichê e outras que acho que me irritariam, mas no geral me parece uma boa história. Acho que iria gostar se lesse. Ao menos pra conhecer o trabalho do autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Faça isso, é sempre bom conhecer novos autores, ainda mais quando são nacionais.

      Excluir
  6. Eu não conhecia esse livro, mas achei a história dele muito interessante. Achei o enredo do livro bem diferente da maioria dos livros que costumo ler. Mas confesso que não fiquei com muita vontade de ler. Não gosto muito de livros de terror, e só de saber que o livro é bem pesado e tem muito sangue, já sei que não iria gostar :/

    Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É.. Se você não tem estômago pra cenas BEM fortes melhor nem começar.

      Excluir
  7. Oi, Bruno!!
    Gostei muito da resenha desse livro espetacular!! Adorei a ideia do autor ambientar-se na época da escravidão e ainda por cima colocar uma estória de terror para completar essa obra belíssima !! Sem dúvida na primeira oportunidade vou ler esse livro!!
    Beijoss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelo elogio, faça isso, não vai se arrepender de lê-lo.

      Excluir
  8. Parece ser uma livro e tanto!
    Não conhecia ainda, mas confesso que esse estilo de história não faz o meu tipo.
    Esse terror, sangue e a leitura um pouco pesada, sempre acabam com o meu frágil coração rs
    Achei interessante essa questão das lendas e fiquei curiosa pra saber como o autor abordou elas.
    Mas por enquanto, o livro não entre na minha listinha de leituras.
    Achei a edição um bapho. Super caprichada!
    Beijos
    Caroline Garcia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, se seu coração é frágil é melhor manter distancia do livro, pois o final dele é daqueles de irritar/fazer chorar qualquer um.
      A edição está maravilhosa, a Faro Editorial tem caprichado demais nos seus livros.

      Excluir
  9. Olá, percebe-se que o autor teve o cuidado de pesquisar detalhadamente o contexto histórico da época, o que torna a leitura muita mais válida. A capa, assim como a diagramação e as bordas coloridas, chamam a atenção do leitor a se aventurar nessa história de dor, amor e resistência. Beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso ai, pegou bem o espírito do livro :D

      Excluir
  10. Olá!
    Ainda não conhecia o livro e adorei a premissa. É um tema super importante que é pouco abordado. Já pelo tema podemos ver o quanto esse livro pode ser forte e tocar bem no leitor.
    Parece ser bem triste e o tipo de livro que nos faz refletir bastante.
    Dica anotada (:

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sem dúvida, torço para que aproveite a dica!

      Excluir
  11. Oi!
    Não conhecia o livro, parece ser uma leitura muito interessante e forte. Por trazer tantos detalhes pesados e tristes, não é uma leitura que me agrade, pelo menos no momento. Mas para quem gosta, com certeza uma ótima dica.
    Excelente resenha.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  12. Oi Bruno,
    Primeiramente achei essa edição maravilhosa. Gostei bastante de envolver o folclore, escravidão com uma pegada de terror. Uma pena que não trouxe o aprofundamento que você esperava.
    Beijos

    ResponderExcluir
  13. Esta e uma obra no qual tenho visto muitos elogios a respeito desta trama. Mesmo não curtindo muito este tema terror, e assassinatos, principalmente descritos de maneira aterrorizante, a forma como o autor optou por retratar a escravidão no Brasil com uma mistura de sobrenatural, e lendas e algo que me despertou bastante interesse, já que este e o diferencial desta estória. Enfim, por estas características estou pensando em dar uma chance a esta leitura, espero não me decepcionar.

    Participe do TOP COMENTARISTA de Julho, para participar e concorrer aos livros "O Casal que mora ao lado" e "Paris para um e outros contos".
    http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  14. Oi! Eu ainda não conhecia o livro, mas adorei que o autor juntou lendas (de uma forma bem aterrorizante) com o histórico sobre a escravidão. Adorei também as bordas vermelhas fazendo referencia a todo o sangue escorrido. Quero muito ler, Beijos!

    ResponderExcluir
  15. Olá!
    Uau, que trama em!
    Quando vi o lançamento do livro fiquei meia receosa por causa da capa, ela é muito chamativa, ela mostra para você um olhar de sofrimento e só de olha fico encomodada, mas a trama e super interessante e bastante pessada, porque naquela época muitos sofria com escravidão, sempre trabalhando e serem mandados. Gostei do livro, tem uma premissa muito boa.

    ResponderExcluir
  16. Bruno!
    Que o Marcos é um autor fenomenal, é inquestionável.
    Já li outros livros deles e são maravilhosos!
    E ver que soube usar o folclore local, junto com fatos realmente existentes e criar uma ficção espetacular e carregada de assombro, faz com que queira ler logo mais esse livro dele.
    Bom final de semana!
    “Ciência é conhecimento organizado. Sabedoria é vida organizada.” (Immanuel Kant)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    ResponderExcluir
  17. Eu nunca li livros de lendas, mas fiquei bem curiosa em ler este livro após conferir sua resenha, ainda mais por ele ser sobre lendas brasileiras, e de terror, sobre o Saci. Adicionei este livro em minha lista de leituras e espero ler ele em breve.

    ResponderExcluir