Título Original: My Friend Dahmer
Tradução: Érico Assis
Autor: Derf Backderf
Ano: 2017
Editora: Darkside Graphic Novel
Páginas: 290
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É possível perceber que seu colega de classe poderá virar um serial killer no futuro? Meu Amigo Dahmer é a primeira graphic novel lançada pela Darkside e nela, o quadrinista John Backderf, sob o pseudônimo Derf Backderf, relata o período que estudou ao lado de Jeffrey Dahmer, quem anos depois acabou sendo descoberto como um dos seriais killers mais terríveis dos Estados Unidos.
Para construir esta história, o autor precisou de muito mais do que sua própria vivência com Dahmer, mas também consultou colegas de classe, arquivos do FBI e da mídia, professores e antigos diários mantidos por ele e por sua família. Além disso, entrevistas feitas com Dahmer após ter sido preso também foram utilizadas para ajudar na veracidade e cronologia dos fatos. Em um breve prefácio, o autor conta como foi receber a notícia que seu antigo colega de classe havia se tornado um serial killer, a ideia de criar o quadrinho e como uma história que a princípio deveria ter apenas 24 páginas acabou ganhando as proporções que tomou até conquistar um renomado prêmio do gênero em 2014.

Na sétima série do colégio Eastview, John Backderf conheceu Jeff Dahmer, um garoto solitário e completamente invisível. Sem amigos, Dahmer sofrera o que praticamente muitos adolescentes sofreram e sofrem até hoje devido a exclusão. Alvo de piadas e insultos, o fato de se isolar ainda mais era apenas uma questão de tempo. Filho de Lionel e Joyce Dahmer, Jeff não recebia a devida atenção em casa e crescera num ambiente hostil. A saúde debilitada da mãe e as discussões constantes em casa contribuíram para que ele se isolasse ainda mais eu seu mundo particular.
Tive amizades normais no colégio […] e não tive amizades muito próximas depois da escola. – Jeff Dahmer

Jeff foi notado pela primeira vez quando o Fã Clube Dahmer fora fundado por John e outros colegas, a intenção era incentiva-lo a replicar em público uma imitação bizarra que fazia do decorador que um dia fora a sua casa. Ainda na adolescência, desenvolvera o habito de dissecar animais mortos e mantinha um cemitério particular com as carcaças. Para tentar esquecer todos os pensamentos ruins que o atormentavam, logo Dahmer começou a ingerir álcool, virando alcoólatra com apenas 15 anos de idade. Estes e outros hábitos estranhos eram apenas os primeiros sinais de um adolescente perturbado.

O mais interessante de toda esta história relatada por John é perceber o quanto todos os sinais estavam ali, claros e ninguém fora capaz de fazer nada. E quem poderia? Visto como um estranho, praticamente todos seus colegas sabiam que tinha algo de errado com Dahmer, porém, conforme o próprio autor diz, todos eram crianças e não sabiam a dimensão que isso poderia virar dali uns anos. Onde estavam os responsáveis por Dahmer quando o mesmo gritava por socorro? A intenção de Backderf não é justificar tais atos deste assassino, mas eu acredito que seja de pelo menos alertar as pessoas que os sinais existem e as vezes só precisam de um gatilho para serem despertos. Se Jeffrey Dahmer tivesse recebido a atenção merecida, tudo seria diferente? É possível então criar empatia por um ser tão cruel? Não foi assim com a realidade de Dahmer, o menino recluso que sofria bullying, que não tinha uma boa estrutura familiar e que acabou despertando em si o mal adormecido.

Acredito que seja esta a melhor discussão que a graphic levanta. É saber se há como identificar os traços de uma personalidade doentia logo no começo, antes que um potencial psicopata comece de fato a matar. Pelo que li, percebo que há uma resposta para esta questão e sem dúvidas é algo que o autor e todos os colegas de Dahmer precisarão lidar pelo resto de suas vidas, porém, quem eram eles para fazer algo? Apenas crianças vivendo suas vidas como deveriam viver.

Dividindo a graphic novel em cinco partes na narrativa, o autor irá contar desde a primeira vez que notou Dahmer até o dia em que um dos seus colegas vira Dahmer pela última vez, na época, o mesmo já tinha cometido o seu primeiro crime. Ao final da edição, John também apresenta ao leitor todas as fontes que utilizou para a cronologia da história, destacados por páginas para a localização do leitor. Como material extra, também pode-se encontrar cenas cortadas da edição finalizada, descritas e justificada do porquê da exclusão e também as cenas desenhadas em rascunho pelo quadrinista. Fotos reais onde aparecem juntos, rascunhos da planta da casa de Dahmer e até o anuário que fora removido da escola também estão anexados ao final desta edição. Sem dúvidas, temos registrado aqui um amplo dossiê do início da vida de um dos seriais killers mais hediondos da década de 90.

Naquela noite lá em Ohio, naquela noite impulsiva. Desde então, nada foi normal. Esse tipo de coisa permanece pela vida inteira. Depois do que aconteceu, pensei que ia tentar viver da forma mais normal possível, deixar aquilo enterrado. Mas coisas assim não ficam debaixo da terra. – Jeff Dahmer

Vale ressaltar que apesar de todos os fatos descritos nesta história serem verdadeiros, detalhes sobre a vida conjugal dos Dahmers levantou muitas controvérsias. Durante anos, Joyce e Lionel contaram versões diferentes dos fatos e sobre a relação individual que tinham com o filho e família. Lionel Dahmer, inclusive, lançou em 1994 o livro A Father’s Story’s, onde fala sobre o dia que descobriu – junto com o resto do mundo – que seu filho era um assassino. Neste relato Lionel falara profundamente sobre sua vivência e percepção que tinha do filho entre outros assuntos que recaíram pesadamente sobre sua cabeça. Um relato em particular acabou sendo julgado equivocado por Jeff logo após do lançamento do livro. Nele, Lionel descreve Dahmer como um adolescente tímido e introspectivo, porém, Dahmer sempre afirmou que sempre tivera uma boa relação com seus colegas, o que acabamos descobrindo ao longo desta leitura.

Sendo a primeira graphic novel lançada pela Darkside, preciso dizer que a mesma está impecável, mantendo a já conhecida qualidade de seus livros. Em capa dura, papel em ótima gramatura e uma folha de guarda lindíssima também, é um trabalho gráfico bem elaborado e acabado. Gostei muito do traço do autor, o modo como ele equilibra a narrativa apenas com o preto no branco, utilizando-se do recurso para trazer à tona uma atmosfera mais sombria nas partes mais tenebrosas da história. Sem dúvidas é uma edição para todos os fãs do selo Crime Scenes ter na estante.

Meu Amigo Dahmer conta o início da vida de um psicopata. Entre os anos de 1978 e 1991, Jeffrey Dahmer assassinou 17 homens, todos de formas hediondas envolvendo estupro, necrofilia e canibalismo. Aos 31 anos, O Canibal de Milwaukee foi preso e declarou-se inocente alegando insanidade, após três anos foi morto dentro da prisão. Não foi fácil saciar esta minha curiosidade mórbida em conhecer mais profundamente a história de Dahmer, foi uma leitura bastante densa de uma história perturbadora, mas de modo algum me arrependo, pelo contrário, recomendo que todos leiam e reflitam sobre a importância dos sinais.

Para saber mais sobre a vida de Jeffrey Dahmer recomendo a série Mentes Diabólicas do Canal Freak TV.

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