Título
Original:
Pretty Baby
Autora:
Mary Kubica
Ano:
2017
Editora:
Planeta
Páginas:
352
Existem
histórias que guardamos nos cantos mais sombrios de nossas mentes. Histórias
reais, de tristezas, perdas, decepções, traumas ou fantasmas que ainda nos
assombram durante a noite e, por mais que estejam escondidas dos olhares
observadores e analistas de pessoas de fora, acabaram por nos transformar
naquilo que somos hoje. 
O mundo, em sua essência mais humana, é formado por
histórias que se cruzam, que se findam com o início de outras, que se conectam
entre si e permitem que novos acontecimentos se anexem a vida e lembranças de
cada um de nós. Mas, é através de histórias de desconhecidos, de pedestres que
andam pelas ruas, de adolescentes perdidos ou de bebês separados de suas mães,
que percebemos a complexidade da vida e destas histórias que insistimos em
esconder.
Heidi,
ao contrário da grande maioria dos moradores de Chicago, faz o possível para
ser a diferença na vida de pessoas em estado de necessidade, carentes de
elementos básicos para a vida humana. Através de sua ONG, ela auxilia crianças,
jovens e adultos carentes, fazendo o possível para que, mesmo com pequenas
ações, suas vidas se alterem. O coração bondoso de Heidi, sua necessidade de
ajudar, os traumas que guarda consigo e evita comentar até mesmo com seu marido
Chris, fazem com que, durante uma noite chuvosa, enquanto pessoas saem de um
trem para outro, enquanto o ritmo frenético do fim de tarde cega olhos cansados,
é Heidi quem percebe uma adolescente perdida, carregando uma adorável bebê.

“Sorrir não é algo que a garota faça naturalmente. Eu a comparo com Zoe e sei que é mais velha. O desespero em seus olhos, por um lado, a falta da vulnerabilidade evidente de Zoe, por outro. E claro, há a bebê.”


Coincidências
acontecem. Os caminhos das três personagens acabam por cruzar-se em diversos
pontos da cidade e, a cada encontro inesperado, maior se torna a vontade de
ajudar, de fazer a diferença na vida daquelas pobres criaturas. É através do
último reencontro, durante uma noite fria, que Heidi convida Willow, a
adolescente insegura e calada, e Ruby, a graciosa bebê, para o calor e aconchego
de sua casa. O que não passou pela mente de Heidi no momento em que acolhe
essas duas crianças, é o fato de que desconhecidos carregam consigo
histórias não contadas, traumas e segredos desconhecidos, e são esses os elementos
que podem mudar o rumo de suas vidas para sempre.
A
Desconhecida
se constrói através da exploração de três perspectivas diferentes,
da visão e segredos de três personagens que, mesmo que a princípio
desconectados, interligam-se em uma trama onde cada novo capítulo traz consigo
uma nova informação, destaca uma nova face de cada personagem e permite a visão
ampla da história como uma única trajetória.
Apesar
de possuir uma premissa interessante, até mesmo instigante, a narrativa
apresentada por Mary Kubica possuí maior força quando observada através do
prisma da conscientização e pesquisa realizada para a contextualização de uma
história de suspense. Aqui a autora apresenta com detalhamento e tato as
necessidades, dores e obstáculos enfrentados por pessoas carentes, por
sem-teto, por todos aqueles que, durante nossas rotinas corridas, insistimos em
virar o rosto e fingir que não estão lá. A realidade transborda pelas páginas
desse livro. Aqui percebemos as marcas deixadas pela perda de pais, de filhos,
de famílias que nunca deveriam desaparecer. Aqui observamos as cicatrizes de
anos de abuso, de segregação, de dúvidas e sombras que ofuscavam nossa visão.
Aqui entramos em contato com a realidade vivida por milhares de pessoas ao
redor do mundo e, aqui, não somos capazes de virar o rosto para o outro lado.
O
ponto fraco da obra, por outro lado, está justamente no gênero em que se
delimita. A trama criada pela autora se interliga, os fatos se conectam para
garantir o desfecho da obra, porém, a escolha, as motivações e características
escolhidas para garantir o desfecho decepcionam por tamanha conveniência. Foi
muito fácil finalizar a obra, foi muito fácil fechar todas as pontas soltas com
um detalhe utilizado tantas outras vezes e que fazem com que toda a realidade
do livro se perca por conta de uma estratégia que, em casos como esse, mais
atrapalham uma obra em potencial.
A
Desconhecida
possuí uma trama bem estruturada com uma estratégia de desfecho
convencional e mal trabalhado, porém, é na realidade belamente abordada na obra
que senti a força da autora. Muito mais do que um suspense para nos fazer
passar o tempo, A Desconhecida apresenta conscientização, dramas verdadeiros,
vividos por pessoas e pessoas ao redor do mundo, e uma quantidade inimaginável de
elementos reais garantindo dimensão e profundidade para uma obra que, caso
contrário, seria apenas mais uma dentre tantas outras.

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ciona
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