Título Original: The Thing Around Your Neck
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Ano: 2017
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
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No Seu Pescoço foi o meu primeiro contato com a escrita da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma coletânea de doze contos. Acredito que a maioria das pessoas a conheça pelo ensaio Sejamos Todos Feministas, que também foi publicado pela Companhia das Letras. Ela também é autora de três romances premiados: Meio Sol Amarelo (adaptado para os cinemas em 2013), Hibisco Roxo e Americanah.
O título, No Seu Pescoço, faz referência a um dos contos presente nesse livro. Ele conta a história de uma jovem nigeriana que tem a oportunidade de ir viver nos Estados Unidos. Em terras americanas, ela precisa se adaptar a nova realidade que está muito distante do que a sua família ainda vive em sua terra natal. Ela precisa lidar com o preconceito e um relacionamento inesperado com um americano branco, que nunca vai entender o que ela realmente sente. O mais fascinante é a forma como Chimamanda nos transforma na personagem durante a leitura, utilizando uma narrativa em segunda pessoa com o pronome “você”.

“Você pensava que todo mundo nos Estados unidos tinha um carro e uma arma; seus tios, tias e primos pensavam o mesmo. Logo depois de você ganhar a loteria do visto americano, eles lhe disseram: daqui um mês, você vai ter um carro grande.”

Além do conto No Seu Pescoço, que foi de fato um dos meus favoritos e que representa muito bem a proposta dessa coletânea, eu gostei muito do conto Uma Experiência Privada. A autora conta a história de uma jovem estudante de medicina da cidade de Lagos, que ao visitar sua tia em Kano, acaba sendo surpreendida por uma onda de violência em um mercado local. Na busca por um lugar seguro, ela se perde de sua irmã e acaba dentro de uma loja abandonada junto com uma senhora muçulmana.

Cada conto é totalmente independente um do outro e o leitor pode optar por ler na ordem em que preferir. Apesar da grande maioria ter como protagonista mulheres jovens, em alguns contos é possível encontrar meninas, casais e até idosos. Os pontos em comum que ligam todas essas histórias são as temáticas voltadas para imigração, preconceito racial e relações familiares. E, no meu ponto de vista, a carga emocional mesclada com crítica social é a característica mais marcante.Os contos trazem histórias contemporâneas e muito verossímeis. Ao meu ver, a autora tenta desmistificar o famoso “sonho americano”, onde cria-se o mito de que seremos mais felizes deixando nossa cultura para trás. Além de trazer reflexões sobre a importância da valorização da cultura africana. E apesar de alguns contos parecerem mais superficiais em um primeiro olhar, tratando de questões mais cotidianas, não há um conto que você não termine refletindo sobre tudo que acabou de ler.

“O futuro dela dependia daquele rosto. O rosto de uma pessoa que não a compreendia, que não devia cozinhar com azeite de dendê, ou não devia saber que o azeite de dendê, quando estava fresco, tinha um tom muito, muito vermelho, e quando não estava, virava um creme laranja espesso.”

Confesso que no começo não foi uma leitura fácil, por total culpa minha. Eu nunca tinha lido um livro onde a cultura africana fosse tão forte. Demorei um pouco para me acostumar com os nomes como Nnamabia, Nkem, Nsukka… E mesmo sem ainda ter muita certeza de como pronunciá-los, depois dos primeiros contos, eles se tornaram mais comuns aos meus olhos acostumados com John e Mary. Fiquei espantada com a minha falta de conhecimento sobre os grupos étnicos africanos!  Eu percebi como preciso urgentemente abrir um espaço maior na minha estante para livros de autores africanos. E mais ainda, que suas histórias são tão interessantes e envolventes quanto o livro de um autor londrino.Em relação a escrita da autora, Chimamanda faz uma mistura entre técnicas de escrita convencional e experimentalista. Nem sempre a história segue uma sequência linear, mesmo assim, a forma como ela escreve me envolveu de todas as formas. Com certeza, os contos mais impactantes foram os que me obrigaram como leitora a entrar totalmente no papel das protagonistas. Ler Chimamanda foi uma experiência incrível, que espero repetir em breve, e recomendo para tudo mundo que quiser sair da sua zona de conforto literária.

Conheça outro livro da autora:
1. Sejamos Todos Feministas

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