Resenha: O Melhor Que Podíamos Fazer

Título Original: The Best We Could Do
Autora: Thi Bui
Ano: 2017
Editora: Nemo
Páginas: 330
Amazon - Saraiva

É incrível como os quadrinhos tem me surpreendido cada vez mais. Há alguns anos, eu diria que este universo não me agradaria tanto quanto o dos livros, mas hoje, mordo a língua só de pensar em tal pensamento. Diferentemente de um livro, uma graphic novel utiliza do recurso visual, transmitindo, às vezes, em apenas uma imagem a mesma emoção que um par de parágrafos poderiam proporcionar. Esta graphic novel não faz isso em apenas uma imagem, mas sim em todas e emocionará todo o leitor que se aventurar por esta história.

Em O Melhor Que Podíamos Fazer acompanharemos a história da família da autora, Thi Bui. Uma autobiografia contada de forma não linear, em pequenos fragmentos existentes no passado e no presente nas vidas de quem ainda enxerga marcas de uma guerra. Através de seus traços expressivos, sua paleta alaranjada e uma narrativa até poética, Thi Bui registra a fuga da sua família após a Guerra da Indochina, no Vietnã Sul. O cenário é no início dos anos 70 e aqui acompanhamos todas as dificuldades e desafios que , Nan e seus seis filhos tiveram que passar em busca da liberdade e de uma vida melhor, e muito mais que isso, também vai trazer o relato de uma filha em busca por compreensão em relação aos pais e todas as angustias e marcas que o passado deixou.

O relato de Thi Bui inicia em 2005, no momento que entra em trabalho de parto. Naquele momento, tratada como algo e sem a menor ternura, Thi sente uma verdadeira empatia pela mãe, que já havia passada por situações muito piores em sua vida, mas que estava ali para apoia-la. É este pequeno "grande" detalhe que muda a perspectiva de Thi Bui em relação a sua criação, o nascimento do filho e o surgimento de sua própria família. Entender tudo pelo qual seus pais passaram, ajudou Thi a compreender as fraquezas da mãe e o tratamento frio de seu pai.

"Agora família é algo que criei e não algo em que nasci."


A percepção de Thi Bui sobre o seu aprendizado, as lições que vem tirou de toda a jornada de sua família e o modo que enxerga tudo com outros olhos depois de mãe, rende ao leitor uma das reflexões mais emocionantes na minha opinião. A passagem em que Thi Bui enxerga sua mãe, realmente como ela é, em vez da forma como ela gostaria que fosse e a forma como ela, já madura, começa a dar valor a todos os pequenos gestos e todos os grandes sacrifícios que foram feitos por seus pais, todas as escolhas e atitudes que eles tomaram em prol dos filhos. Todo este crescimento próprio, inspira para que nós passemos a dar valor aos nossos pequenos momentos finitos, nosso tempo com a família, o aprendizado que herdamos de nossos pais.

Esta é uma graphic novel que cai como uma luva, numa época onde ainda existe a crise de refugiados na Síria e a de que o líder de uma das maiores potências do mundo deseja fechar as portas para imigrantes. Talvez, na segurança de nossos lares, ainda que em meio ao caos que é nosso pais, não encontremos tempo para pensarmos em pessoas que vivem e sobrevivem em condições mais precárias e mais desumanas que nós. Pessoas que não tem a oportunidade nem de sonhar por viverem em lugares cheios de privações, amarras e controle. Sem dúvidas, esta é uma reflexão para se levar para a vida.


Ao longo da narrativa iremos acompanhar também fatos marcantes da Guerra do Vietnã, fatos históricos que acompanham a família de Thi Bui. Alguns relatos revelam um outro lado da história e como a mídia americana, que de certa forma, acabou manipulando muito a verdade por trás dos fatos. Um, em particular, me chamou bastante a atenção, foi a divulgação de uma foto, veiculada pelo mundo como a Execução em Saigon, nela aparece um oficial vietnamita, prestes a atirar em um vietcongue, membro do exército do lado norte do país, porém, o que o mundo não sabia era que este mesmo homem havia assassinado uma família inteira poucas horas antes. 

O Melhor Que Podíamos Fazer é um trabalho que demorou dez anos para ser concluído e publicado, pois Thi precisou entrevistar seus pais inúmeras vezes e as lembranças nem sempre eram bem-vindas. Mas pelo que vemos Thi Bui soube guiar o leitor por sua narrativa, nos transportando entre suas memorias, lembranças e consciência no presente em que o livro fora criado. É sua obra de arte de estreia como quadrinista, mas digna para uma história tão tocante, cruel e sensível ao mesmo tempo.


Acompanhar a história de Thi Bui, que é apenas uma em milhares, me fez pensar em quanto somos ingratos pelo que possuímos, talvez, agora após esta leitura, eu me sinta mais motivada a outras coisas, com certeza foi o tipo de leitura que me modificou um pouquinho mais, que me engradeceu e certamente marcou minha jornada como leitora. Acompanhar seu sofrimento, angustias e suas preocupações fizeram de mim uma pessoa melhor e eu só tenho que agradecer por Thi Bui ter decidido compartilhar a sua história. 

Sem dúvidas, esta é uma história inspiradora, um feixe de luz para aqueles que ainda buscam paz e a certeza de futuro melhor sem privações. A história de pais que conseguiram se reerguer para construir uma nova vida na América, que além de ensinaram aos filhos o significado do respeito e a importância de cuidarem sempre uns dos outros, também ditaram lições que os acompanhariam sempre, reflexos de uma vida de luta pela sobrevivência. O Melhor Que Podíamos Fazer traz o relato de uma família, traz e revela um emaranhado de significados e sentimentos, mas que percorrem o mesmo e singelo caminho, os aprendizados que levamos e desejamos para nossos filhos.

14 comentários

  1. Que historia para se refletir, para pararmos e analisar como reclamamos das coisas e não damos valor as pessoas, enquanto essas pessoas passam por coisas que nem imaginamos, sua luta e busca por uma vida melhor, é uma leitura que mexe muito com as emoções e cada virar de página é um sofrimento e também uma lição.

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    1. É verdade Maria, este é o tipo de história que precisa ser compartilhada!

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  2. É sempre bom quando uma história nos acrescenta algo, nos inspira, acho que esse é um dos maiores prazeres na literatura, independente de ser quadrinhos, prosa ou verso. Parece uma história muito profunda e íntima e com certeza muito atual por toda a questão dos imigrantes e das atrocidades que continuam acontecendo e expulsando as pessoas de seus lares e países. Beijos.

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  3. Oi Joi.
    Essa graphic novel parece maravilhosa.
    É sempre bom quando lemos algo que nos faz refletir e ver algumas situações sobre outros pontos de vista.
    deve ter sido bem doloroso para a família de Thi relembrar tantos acontecimentos ruins e tristes pelos quais passaram. Mas espero que essa graphic novel sensibilize as pessoas a tratarem melhores os refugiados e tente passar um pouco das dificuldades que eles passaram ao ter que se mudar para um país totalmente diferente.
    Já está na minha lista de desejados.
    Beijos

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    1. Verdade Pam, ainda mais em tempos em que líderes querem impedir a vinda de imigrantes e refugiados! Triste a realidade =/

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  4. Ah....
    Como não conhecia a Graphic, estou aqui com os olhos marejados só de ler e ver tudo que está acima.
    Que coisa mais emocionante! E não me pergunte os motivos,mas lendo a resenha, me vi lendo e vendo A Viagem De Chichiro.
    As ilustrações são incríveis e com certeza, cada letra e imagem traz sentimentos diversos.
    Quero muito ter e ler essa obra!
    Beijo

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    1. Fico feliz que a resenha tenha te tocado tanto ♥ Acho que meu objetivo foi alcançado! Beijos

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  5. Joi!
    Pois é querida, as Grafic Novels tem sido uma grata surpresa e vem trazeno temas bem atuais e importantes, o que atinge mais leitores, justamente pelo que falou, porque traz o apelo visual.
    Bom ver que aqui é uma biaografia da vida da autora e traz relatos históricos dos momentos difíceis pelos quais passou.
    Um feriado de alegria e moderação e desejo uma ótima semana!
    “Ninguém é assim tão velho que não acredite que poderá viver por mais um ano.” (Cícero)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA FEVEREIRO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  6. Depois que li Maus estou querendo ler outros quadrinhos que abordem temas difíceis e que nos permitem refletir bastante. Este parece ser um exemplo disso, e com ctza de uma qualidade incrível. 10 anos dedicados é muita coisa!

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    1. Se você gostou de Maus tenho certeza que vai curtir esta assim como Persépolis.

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  7. Muitas famílias passaram por momentos realmente difíceis em períodos de guerra. É bacana podermos acompanhar nessa graphic novel a evolução da família de Thi Bui, o quanto lutarem para viver uma vida melhor, as vezes a gente reclama de nossas vidas sem nos dar conta do que realmente é o sofrimento!!

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    1. Falou tudo Karina e super captou a mensagem da HQ!

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  8. Esse post para mim Foi muita coincidência porque eu acabei de ler um livro que se passava Durante a Guerra do Vietnã e eu fiquei muito interessada em ler mais livros assim e Eis que aparece. Na verdade eu já tinha ouvido falar sobre esse livro que é um HQ da Nemo mas eu não tinha parado até então para ver sobre o que se tratava a história Fiquei super impressionada e atraída por essa sinopse incrível e já adicionei esse livro na minha lista de desejados

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    1. Fico feliz que a resenha tenha te influenciado positivamente Carol! Beijos

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