Título original: Mary Barton
Autora: Elizabeth Gaskell
Ano: 2017
Editora: Record
Páginas: 462
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Publicado pela primeira vez em 1848, mesmo ano em que Marx e Engels oferecem ao mundo seu Manifesto Comunista, vindo a influenciar gerações que se estendem até os dias atuais, Mary Barton explora o contexto histórico e cultural que lhe deu origem como poucas obras são capazes de fazer. 
Escrito por Elizabeth Gaskell, uma autora cuja habilidade e percepção foram obscurecidos pelo fato de que, na época, autoras escreviam romances para mulheres e sobre mulheres. Sua obra, porém, vai além do “romance de época”, explorando características duras de uma realidade que, em tantos casos quando é abordada, não vai além de um mero instrumento necessário para contar uma história.
Muito mais do que abordar a vida, desafios e amores da protagonista, Mary Barton conversa com a realidade, apresentando-a com força, delicadeza e principalmente, reflexão. Neste livro iremos perceber as consequências da Revolução Industrial para a cidade de Manchester, reconheceremos as dores, tristezas e desafios de uma comunidade operária, enfrentaremos as adversidades com fé, juntamente a cada personagem que, em maior ou menor grau, sofre injustiças e acaba por nos conquistar a cada nova etapa vencida.

“Se passo semanas sem trabalhar, nos tempos ruins, e o inverno chega, com a geada negra, ou o vento cortante do leste, e não temos carvão para colocar na lareira, nem cobertas para pôr na cama, e os ossos aparecem no meio das roupas esfarrapadas, o rico vem dividir sua abundância comigo, como devia fazer, se sua religião não fosse balela?”


Com interesses amorosos e luta de classes, a autora nos leva a um contexto que, embora fortemente baseado em princípios cristãos – e de realmente acreditar que tudo pode ser resolvido através destes mesmo princípios – consegue ir além de tantas outras obras do gênero.
Mary Barton é filha de John Barton, operário, pobre e membro ativo do sindicato de trabalhadores. Sua esposa foi levada cedo demais, deixando uma filha confusa e sozinha para trás, além de um marido que, pouco a pouco, perde toda e qualquer esperança na vida e na luta por melhorias na qualidade de vida e trabalho dos operários das fábricas de Manchester.
Mary logo é levada a trabalhar como costureira em uma boutique, auxiliando assim no rendimento da família e garantindo que, mesmo no momento em que seu pai perde o emprego, eles tenham acesso ao mínimo de alimento e fogo para seguir lutando por um futuro melhor para os dois. 
Ela é uma jovem linda, de comportamento agradável, lutadora, cuidadosa e amorosa com todos aqueles que lhe são caros e, em meio as desventuras de seu pai, ao trabalho como costureira e a todos os desafios que a vida lhe impôs, ela acaba por encontrar dois pretendentes, um da mesma classe social que a sua, e outro, um homem rico, galanteador, pronto para conquistar o coração da bela e pobre jovem. É assim, em meio a diversos contextos que se misturam, que acompanharemos a luta entre ricos e pobres, entre operários e patrões, nos surpreenderemos com um assassinato e as lutas de pessoas cuja fé não os permite abalar.
Elizabeth Gaskell soube dosar, de forma primorosa, a realidade de uma classe cujo sofrimento e desafios são apresentados sem reservas, sem rodeios e embelezamento, juntamente a uma história de amor digna de um apaixonante romance de época. Apesar de apresentar um futuro em que o amor e a esperança surgem como os raios de sol derretendo o gelo no início da manhã, o que permeia cada momento desta narrativa são os obstáculos. Nada vem com facilidade, nada é entregue sem esforço, dor e sofrimento, a tristeza por vezes é grande, mas, como uma mulher que acreditava em algo maior do que cada um de nós não poderia fazer diferente, chegamos ao final com a certeza de que, não importa o que nos é imposto, com fé e perseverança podemos chegar a nosso futuro melhor.
Mary Barton é sim uma obra imprescindível para todos os amantes de romances de época, porém, muito mais do que uma história de amor, obra cuja protagonista, a sua própria maneira e dentro dos padrões da época, era nada mais do que uma grande feminista, este livro também é um relato acerca da luta de classes que, mesmo não tomando partido ao estilo de Marx e Engels, possuí tanta força que não deve ser ignorado.


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