Justin | Gauthier

28 jun, 2018 Por Joi Cardoso

Título Original: Justin
Autora: Anne-Charlotte Gauthier
Ano: 2018
Editora: Nemo
Páginas: 104
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Como é ser um menino preso em um corpo de menina? É com esta pergunta que a quadrinista Gauthier inicia a história de Justin.
Tudo começa quando o professor de educação física da sua escola pede para que a turma forme dois grupos, um de meninos e um de meninas. É nesse momento que Justine não sabe para que lado ir. Desde sempre, ela sente que não pertence ao gênero que lhe foi atribuído e nesta HQ, acompanharemos todas as dificuldades que Justin, da infância ao início da vida adulta, enfrentará ao longo de sua vida. Aos olhos do personagem, iremos perceber como é ser incompreendido pelas pessoas mais próximas, por ele mesmo em diversos aspectos e também aos olhos do mundo. Aqui iremos acompanhar a jornada de um jovem transexual até enfim, aceitar quem ele sempre foi. 
Histórias que abordam a identidade de gênero hoje em dia são muito importantes. O debate precisa ser levantado cada vez mais, pois vivemos em tempos em que o preconceito e conservadorismo lutam para calar milhões de vozes que lutam pela causa. Além deste gigante fato, existe, ainda, muita confusão dentro do tema. Saber diferenciar transexualidade, homossexualidade, a arte de uma drag queen e no meio de tudo isso ter conhecimento do que é gênero e orientação sexual, são fatores que precisam ser debatidos e abordados. 

“Eu sou um garoto prisioneiro num corpo de mulher.”

Começar a compreender é o primeiro passo para a empatia, principalmente quando analisamos todas as dificuldades, barreiras e o preconceito que a comunidade LGBTQ+ vivencia diariamente. Justin é uma história singela, que conta uma entre milhões de histórias espalhadas pelo mundo.

Há dois fatos interessantes que a autora aborda na HQ. A escolha que ela fez em debater a questão trans logo na infância é muito pertinente. É nesta fase que a criança começa a perceber o mundo a sua volta e como consequência a sua identidade começa a ser formada também. O segundo fato é a falta de preparo de profissionais que deveriam dar um suporte mais amplo para as pessoas que buscam ajuda para serem compreendidos. Justin visita cerca de quatro psicólogos nesta história até, enfim, encontrar um que o orientasse corretamente e o veja como ele realmente é, simplesmente como Justin. Mas é preciso entender que esta história se passa em 1983, onde existia bem menos informações que temos hoje em dia, onde a transexualidade ainda é alvo de ignorância.
Desta forma, iremos acompanhar Justin nas indagações mais simples as mais complexas, como suas dúvidas quanto sua verdadeira orientação sexual, sua busca em tentar se encaixar numa sociedade que o julga e que o maltrata simplesmente por ser “diferente”, a sua insatisfação com o próprio corpo, principalmente com o surgimento da puberdade, e também toda a luta que é ser aceita pela própria família que sempre o negligenciou. 
O traço de forma geral é bastante simples, mas muito convidativo. A ilustradora utiliza elementos que se destacam, como narizes avantajados e orelhinhas. Como se todos os personagens da HQ fossem animais, o que acaba servindo como um bom atrativo para jovens leitores também. A HQ é curtinha, o que contribui com a leitura rápida e despretensiosa, mas sem que a história perca o peso e a mensagem final que deseja passar.
Sem dúvidas, Justin é uma porta de entrada para quem deseja obter mais conhecimento sobre a questão trans. Porém, apesar de Justin ser uma história muito crível, ela é pouco aprofundada. Não chega a ser um defeito propriamente dito, mas decepciona um pouco se você chega nela em busca de uma abordagem maior sobre a questão. De qualquer forma, a história tem êxito em informar e contribui para que os leitores criem mais empatia e respeito. Está aqui uma dica de uma história que abre uma discussão e coloca em pauta um tema importantíssimo em nossa sociedade.  
Há outra obra da ilustradora, Anne-Charlotte Gauthier, que já havia sido lançado aqui no Brasil pela Editora Nemo. O Enterro das Minhas Ex, publicado em 2016, também debate e levanta questões sobre identidade, sexualidade e descobertas. A HQ contém um teor autobiográfico então serve como uma ótima dica para quem deseja também conhecer mais a autora.

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