Título Original: March
Autores: John Lewis, Nate Powell e Andrew Aydin
Ano: 2018
Editora: Nemo
Páginas: 128
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John Lewis é um importante parlamentar dos Estados Unidos e figura importantíssima no movimento dos direitos civis. Nesta HQ, ilustrada e editada por Nate Powell e Andrew Aydin, Lewis narra sua trajetória de vida, que vai desde sua estadia numa pequena fazenda no Alabama à sua participação nas manifestações pelo fim da segregação racial, na sua entrada no Congresso até o dia que recebeu uma Medalha Presidencial pelas mãos de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história do país.
Para contextualizar, é importante lembrar que na década de 60 ocorreram diversas marchas em prol dos direitos civis negros nos Estados Unidos. John Lewis, inicia sua narrativa no episódio que seria um marco para as conhecidas Marchas de Selma a Montgomery. Na Ponte de Edmund Pettus, seiscentos manifestantes protestavam pacificamente, quando foram atacados pela polícia local com cassetetes e gás lacrimogênio, esta marcha ficou mundialmente conhecida como Domingo Sangrento.
Aqui voltaremos num tempo onde a segregação racial estava em alta e que mesmo com leis que asseguraram a igualdade entre brancos e negros, na realidade era bem diferente. Os negros não tinham o direito de ir e vir, não podiam frequentar os mesmos locais que os brancos, tinham banheiros separados e não podiam votar. Notando todas as dificuldades que sua família vivia, desde pequeno, Lewis ainda muito cedo já pensava sobre o assunto e como tudo aquilo poderia ser, um dia, resolvido.

A sua primeira viagem ao lado do tio para o norte, foi suficiente para que ele abrisse os olhos, e percebesse um mundo com muita injustiça. Ao longo do seu amadurecimento, conheceu pessoas que o inspirariam em como todo pequeno protesto era válido para que os negros fossem ouvidos. Foi assim que ainda muito novo Lewis começou a palestrar em sua igreja. Foi nesta época em que o autor criou seu comprometimento com a justiça e a filosofia com a não violência.
Um exemplo dos seus protestos foi inspirado no ato de Rosa Parks, que em 55 se recusou a sentar no fundo de um ônibus público, local designado par aos negros. Anos mais tarde, Lewis desenvolveu um método de protesto semelhante, como o de sentar em balcões de bares e restaurantes até ser atendido. Nessa sua jornada John Lewis foi preso mais de 40 vezes e até foi ferido gravemente, porém nada mudava sua convicção.

Desta forma, ao lado de figuras como Martin Luther King, John Lewis foi criador de muitas das fagulhas que despertaram o desejo de mudança. Inspirado essencialmente pela ideia de paz, Lewis deixou sua marca na história dos Estados Unidos e ler esta HQ é perceber o quanto esta luta incansável ecoa até nos dias de hoje.
O traço da HQ é extremamente expressivo e marcado. Acho que nunca li um quadrinho com um traço tão detalhado e que me impactasse não só em sua narrativa, mas em cada cena. É possível capturar cada sentimento, cada sofrimento contido nesta história, mas também todo o alívio de um grito por liberdade e toda a garra de uma luta. Preciso dizer que senti um pouco de dificuldade ao ler algumas passagens, por conta do tamanho da fonte, mas isso ocorreu poucas vezes.

A Marcha é uma HQ importantíssima, que não só relata os absurdos de uma época, mas também mostra, com todos os detalhes, o sofrimento e luta dos negros há poucos anos atrás. Esta primeira HQ é a forma perfeita de olharmos para trás e percebemos o quanto a comodidade de alguns foi motivo de luta e muito sangue para outros, que no fim só buscavam justiça e direitos iguais. O racismo ainda resiste em nosso mundo, porém histórias como a de John Lewis inspiram e são importantíssimas para que mais pessoas se conscientizem de que não é a quantidade de melanina que produz a sua pele que a faz inferior a outra.
Sem dúvidas está é mais uma daquelas histórias inspiradoras, que narra honestamente a história de pessoas corajosas que mudaram a história num país que só respondia com raiva e violência. Este é o primeiro quadrinho de uma trilogia e peço encarecidamente que a Editora Nemo continua trazendo os próximos volumes para cá. Em tempos de intolerância e twittes preconceituosos este é o tipo de história que deveria ser relembrada por todos.

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