O Colecionador | John Fowles

Título Original: The Collector
Autor: John Fowles
Ano: 2018
Editora: Darkside Books
Páginas: 352
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O Colecionador, originalmente lançado no Brasil em 1980, foi a obra de estreia do autor John Fowles e que retorna nesta edição em capa dura da Darkside Books.

Frederick Clegg é um homem recluso e um colecionador de borboletas. O hábito e a personalidade tímida e distante não favorecem em nada a sua vida social, nem mesmo quando a sorte lhe sorri e ele passa a ser proprietário de uma grande quantia em dinheiro. Na verdade, isso só contribuiu com um plano que, desde quando conheceu e começou a perseguir uma jovem secretamente, deseja colocar em prática. Ter Miranda Grey, uma jovem e bela estudante de arte, como "hóspede" em sua casa.

O livro é divido em três partes, a primeira narrada por Frederick, a segunda narrada por Miranda e a terceira onde teremos o desfecho da trama. Na primeira parte, por se tratar de um narrador não confiável, é assustadoramente fácil de acreditar nas "boas" intenções de Frederick, um homem solitário que, de certa forma, passa a nos causar empatia. Porém a realidade é outra e aqui inicia-se a grande jogada da narrativa de Fowles. Frederick é homem doentio e maníaco por Miranda, que acredita não estar fazendo absolutamente nada de errado. Acompanhar de perto seu plano desde o início até o dia do sequestro e a relação de ambos os personagens, tudo te encaminha para uma montanha russa de emoções, de reações, revolta e surpresa.

"Clegg é louco, Miranda Grey é sua loucura, e o que ele deseja é adicioná-la à sua coleção, como se fosse uma borboleta. Stephen King"


Pelos olhos de Miranda é possível sentir na pele, principalmente se você é mulher, todas as angustias de Miranda sobre sua situação. O autor se preocupa em apresentar um background da personagem, não a tornando rasa ou a reduzindo apenas para este acontecimento, ele apresenta um conflituoso, mas intenso relacionamento, sua vida e rotina como estudante e os planos que Miranda almeja para o futuro, tudo roubado por Frederick, alguém que acredita fielmente de que poderá faze-la se apaixonar por ele.

Como esta segunda parte é narrada através de um diário que Miranda mantém, é possível fazer um comparativo das impressões da vítima com os acontecimentos que Frederick havia narrado anteriormente. É aqui que percebemos com profundidade a mente deturbada de Frederick. E são os diálogos entre os dois que mais se destacam na obra. Temos uma relação entre vítima e sequestrador, mas é interessante acompanhar como, em determinamos momentos, conseguimos perceber que os papéis se invertem quando analisamos cada um psicologicamente. Miranda usa de todos os artifícios para controlar Frederick e garantir benefícios (na medida do possível) até o momento que possa encontrar uma brecha para fugir. 

Em sua narrativa, Fowles também faz um ótimo balanço entre as classes sociais dos personagens, sendo Miranda mais culta e Frederick, que apesar de sua nova posição social, tem muito menos conhecimento. O autor também faz referências a diversas obras literárias durante o livro, como no caso de Emma de Jane Austen e O Apanhador no Campo de Centeio de J. D. Salinger. Inclusive, com este último, é interessante perceber o modo como cada personagem interpreta a obra. Obras de arte e diversos artistas também são citados, referências que, se você tem o conhecimento necessário, contribuirá ainda mais na análise da construção dos personagens. 

Ao final desta edição, inclusive, Antônio Tibau, tradutor da obra, faz uma listagem das referências encontradas no livro e como cada obra conversa com a narrativa de O Colecionador.

Esta sem dúvidas foi uma leitura que incomoda, por diversos ângulos. Não só pela trama que por si só já é bastante perturbadora, mas também quando percebemos o tipo de personagens que o autor deseja apresentar para o leitor. Avaliar o olhar de um autor homem como leitora, escrevendo e dando voz a uma personagem feminina na posição em que ela se encontra, foi inevitável. Da mesma forma que não compreendi o porquê do autor atribuir tal fala ou tais pensamentos para Miranda, mas o livro foi escrito 1963 e julgar isolados trechos da narrativa baseado no que sei hoje me parece injusto e de nada tira a genialidade da obra na minha opinião. 

O Colecionador é um clássico da literatura moderna e pós-moderna, uma obra que continua conversando muito com os dias atuais, onde o feminismo está mais em alta do que nunca, onde as diferenças sociais continuam presentes, onde ainda existem debates sobre o que pode ou não, ser considerado amor. Assim como Tibau afirma no posfácio da obra, estes são apenas um dos temas que podemos encontrar durante a leitura deste sublime e elogiado suspense psicológico.

15 comentários

  1. Oi, Joi,

    O autor conseguiu nos colocar à parte de uma história, onde podemos ver o que a obsessão pode fazer com alguém e o quanto ela se torna extremamente perigosa.

    O ponto de vista do Frederick é uma parte 'importante' do livro, para que o leitor possa adentrar em sua sórdida e doentia mente, cujo emocional é totalmente instável. Embora, não compreensível...

    E o ponto de vista da Miranda, acredito eu, que despertará no leitor uma variação de sentimentos. Afinal, estamos falando de uma personagem que teve sua vida virada do avesso, mudada sem precisão de momento e que se encontra em uma situação inimaginável.

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  2. Em primeiro lugar é preciso falar do trabalho magnífico da DarkSide. Não é por ser minha Editora favorita no mundo todo, mas ela é caprichosa demais em suas capas.
    Em segundo lugar, fui colocar o livro na lista de desejados. Adoro um suspense assim, ainda mais quando é apresentado desta forma dolorida e angustiante. Colocando em evidência todo o medo da personagem, contrastando com a loucura do personagem.
    E não poderia ter outro título uma obra tão intensa!
    Com certeza, espero ter a oportunidade de me jogar nesse suspense!
    Beijo

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  3. Já vi outras resenhas desse livro e fiquei bem curiosa, apesar de ter uma temática forte e ser bem perturbador, fiquei curiosa pra saber os motivos que o levou a fazer isso. Sem falar dessa edição que está impecável né! Amei sua resenha.

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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  4. Perturbador parece ser mesmo a palavra pra essa história, não se a leria mas é uma trama que temos que reconhecer ser bem diferente principalmente ao ser lançada em 1963, muitos anos atrás. A nova edição parece estar belíssima e a resenha está ótima ;)

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  5. Oi Joi!
    louca pra conhecer esse livro exatamente pelo enredo que trás, desde que comecei acompanhar resenhas sobre ele tenho um interesse imenso em ler, espero conseguir ler logo.
    Amei essa capa e as ilustrações das borboletas...
    Bjs!

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  6. Quero muito ler esse livro e já deu pra ver que é daqueles que deixam a gente pensando e tem uma trama que mexe muito com a cabeça. Acho que vou gostar e entender melhor as partes da Miranda, pode me conectar com a personagem e ver a situação pelos olhos dela. Parece interessante isso do autor fazendo as coisas da personagem feminina, se consegue passar bem os sentimentos dela e tal. No geral é um livro que me chamou atenção e acho que vou gostar pelo macabro da história e todas as referencias e coisa pra se pensar que tem nela.

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  7. OI, Joi.
    Adorei a resenha. Ainda mais por saber de todo cuidado que o autor teve para nos passar os sentimentos da personagem.


    Abraços,
    Naty
    http://www.revelandosentimentos.com.br

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  8. Oi Joi.
    Estou doida para ler esse livro.
    A premissa é incrível e deve ser desconcertante ler as narrativas sob pontos de vistas diferentes, tanto da vítima como do sequestrador.
    Acho que todo leitor gostaria de tentar entender porque uma pessoa comete um crime, suas justificativas, mesmo que não haja justificativa suficiente para cometer tal ato.
    Além disso, essa edição está lindíssima.
    Beijos

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  9. Deve ser uma leitura difícil devido aos acontecimentos perturbadores e que acaba mexendo com as nossas emoções. Gostei que tenha o lado dos dois personagens, para saber o que se passa na mente de cada um. Gostei da Miranda que mesmo em uma situação dessas consegue ter forças e inteligência para tentar ter algum controle sobre o sequestrador.

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  10. Li esse livro recentemente, gostei muito, podemos conhecer o ponto de vista dos dois personagens,em algumas partes,dá um pouco de aflição, devido a situação da Miranda e das coisas que passam na cabeça de seu sequestrador. Recomendo a leitura!!

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  11. Oi Joi,
    Uma história que para mim se tornou a beira da realidade, não tem como não se incomodar com os pensamentos de Frederick, e pior, ver que ele acredita realmente naquilo, a autor mostrou um lado bem horrível do ser humano, talvez por isso assuste um pouco.
    Como mulher, só de me imaginar na pelo de Miranda já sinto um terror por dentro, imagino como foi difícil para a personagem além de lidar com a situação, precisar agir para coisas a seu favor.
    Beijos

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  12. Oi Joi,
    É praticamente impossível não desejar uma obra da Darkside, além da editora caprichar na edição, as histórias são absurdamente interessantes.
    Que trama mais complexa e intricada, trazendo no inicio um personagem que nos conquista com seu jeito modesto de viver, mas que após acompanharmos a narrativa, nos mostra que as aparências realmente enganam.
    É uma leitura que gera uma gama contraditória de emoções, uma leitura bem perturbadora, digamos. É uma obra rica em assuntos, que aborda, além da situação do que a Miranda passa, a questão das classes sociais dos personagens e referencias a obras literárias incríveis, como Emma.
    Fiquei muito empolgada para ler esse livro.
    Beijos

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  13. Olá, Joi
    Quero muito ler esse livro e a cada resenha que leio fico mais curiosa.
    Deve ser um pouco assustador ler a segunda parte narrada por Miranda e perceber como realmente Frederick é, e como ela manipula ele para ser bem tratada e dar um jeito de escapar do cativeiro.
    Beijos

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  14. Joi!
    Até arrepiei só em pensar na situação que Miranda passa, privação é a pior coisa e nem tem como barganhar sua soltura.
    Mas em Misery, a enfermeira judia do escritor, é mais físico e aqui, é uma tortura, digamos assim, mais sentimental e psicológica.
    cheirinhos
    Rudy

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  15. Oi Joi,
    Adoro que a Darkside relance livros antigos como esse nessas edições maravilhosas que fica difícil não se sentir atraído para adquirir um exemplar. O colecionador é o tipo de história que gosto de ler e mesmo que seja perturbador sempre fico curiosa sobre o enredo. Acho que a ideia do autor aqui é chocar o leitor mostrando o lado mais perturbador possível de um sequestrador. Enquanto uns vão atrás de suas paixões através de cortejos e conversas, há aqueles não sabem definir um limite entre o normal e o bizarro e ultrapassam qualquer linha de um relacionamento saudável. Frederick Clegg é a perturbação em pessoa, sua obsessão o transforma em um criminoso e honestamente não imagino como essa história irá acabar. Quero ler esse livro e já vou adicioná-lo a minha lista de leituras.

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