Título original: Maestra
Autora: L.S.
Hilton
Ano: 2016
Editora: Fábrica
231
Páginas: 319
Judith
Rashleigh
não teve uma infância fácil, a vida nunca lhe permitiu um momento de
verdadeira felicidade. Para a garota que amadureceu cedo demais o jardim do
vizinho sempre foi, verdadeiramente, muito mais verde do que o reduzido pedaço
de concreto que ousara chamar de lar. 

Tudo o que esta mulher possuí é fruto de
seu esforço, da superação dos obstáculos que surgiram a sua frente. Foi graças
a sua paixão pela arte que Judith entrou para a universidade e conquistou um
emprego em uma das mais importantes casas de arte de Londres.

Todas
as mudanças, sonhos e ambições almejados, todos os planos de abrir sua própria
galeria e casa de leilões são obscurecidos quando, ao desconfiar da veracidade
de um quadro recém comprado pela galeria em que trabalha, nossa protagonista é
demitida. Na ansiedade por esquecer-se dos erros e decepções que ousam
acumular-se ao longo de toda sua vida, ela parte com seu amante e uma amiga
para um hotel de luxo, porém, a vida lhe tira dos trilhos novamente quando uma
morte inesperada acontece, direcionando a pobre e indefesa Judith para um
caminho sombrio que pode lhe garantir um futuro.
Apesar
da curiosa premissa, da ousadia demonstrada pelo New York Times ao indicar esta
obra para amantes de livros como Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, Maestra
foi minha primeira grande decepção de 2018 e, por defender o compartilhamento de
obras que não nos agradam, na mesma medida em que compartilhamos aquelas que nos
encantam, me proponho a redigir esta resenha.

O
primeiro desafio que encontrei ao realizar esta leitura concentra-se na própria
essência, construção e apresentação da personagem principal. O passado difícil,
os relacionamentos abusivos, a relação com a mãe, tudo é brevemente explorado.
Não existe delineamento do passado da personagem, não existe construção de sua
personalidade, não encontramos aprofundamento algum e, a carência de detalhes
relevantes em sua trajetória contribui para a falta de conexão entre leitor e
protagonista, nos transformando em meros expectadores de uma história que, ao
mesmo tempo, não sabe por qual gênero pretende seguir.
Na
mesma medida em que encontramos uma protagonista rasa, uma mulher que, pouco a
pouco, transforma-se em gênio do crime e assassinato, percebemos a posição
social da própria autora. O constante destaque dado a marcas de luxo, a
necessidade de ressaltar os sapatos, as roupas, a maquiagem usada pela
personagem, demonstra um pensamento hegemônico que lutamos todos os dias para
descontruir. O status se cria por meio de uma marca, pelo dinheiro, pelo luxo
e, ouso questionar a função destes detalhes para a narrativa.
Enquanto que em Lisbeth Salander encontramos uma personagem que busca a justiça de acordo
com seus próprios termos, cujo passado de sofrimento e abuso forja a força e
brilho que a transformam em destaque de uma trilogia, em Judith Rashleigh
encontramos uma personagem sem motivações aparentes, onde a vingança e “raiva” é direcionada para todo e qualquer personagem que ousar cruzar seu caminho,
onde o luxo e crescimento financeiro é mais importante do que a personalidade e
caráter em meio a um mundo em decadência.
Como se
não bastassem os problemas na construção da protagonista, a própria narrativa é
confusa e pobre em objetivos. Não encontramos uma mensagem de poder e superação
feminina pois, a personagem feminina é rasa, seu passado não é explorado e,
suas atitudes seguem muito mais para uma possível manutenção do status quo, do
que para a quebra de padrões e cosmovisões que oprimem toda e qualquer figura
feminina. Da mesma forma, todo o planejamento e crimes realizados por Judith
são absurdamente “perfeitos” para uma iniciante. É impossível acreditar que uma
mulher cuja personalidade, passado e intelecto mal conhecemos, que nunca
imaginou seguir para o caminho que segue nesta obra, fosse capaz de executar,
sozinha, as ações que realiza aqui. Mas, para fechar com chave de ouro,
encontramos uma porção de cenas “hot” que em nada acrescentam a narrativa,
fazendo com que o leitor se questione a todo o momento, qual é,
verdadeiramente, a razão de ser deste livro.
Com uma protagonista rasa, uma narrativa confusa
e sem objetivos definidos, em meio a uma profusão de acontecimentos que
facilitam o direcionamento e superação dos obstáculos impostos à personagem,
esta obra não passa de uma mistura de gêneros e elementos literários que, na ânsia
por estabelecer-se, perde todas as potencialidades de uma história que tinha
tudo para dar certo.

rela
ciona
dos