O Diário de Myriam | Myriam Rawick e Philippe Lobjois

Título Original: Le Journal de Myriam
Autores: Myriam Rawick e Philippe Lobjois
Tradução: Maria Clara Carneiro
Ano: 2018
Editora: Darkside
Páginas: 288

Seria possível, talvez por meio da distância ofertada pela passagem do tempo ou de nossa capacidade de estabelecer uma visão retrospectiva para praticamente qualquer evento histórico, reconhecer o momento exato em que uma ideia nasce na mente de uma pessoa ou mesmo de uma multidão? 

Quem imaginaria que, ao compartilhar nossos pensamentos, sentimentos, decepções e visões de mundo, ideias muito parecidas surgissem como uma enxurrada nas mentes de cada membro de uma comunidade? Poderíamos prever os direcionamentos e consequências que somente uma ideia pode causar no destino de toda uma população?

A Guerra da Síria encaminha-se para o fechamento de seu oitavo ano e, embora diversas ações tenham sido tomadas, tiros tenham sido disparados, bombas tenham explodido prédios de famílias que conheciam todo e cada um dos pequenos detalhes da vizinhança em que passaram os melhores momentos de suas vidas, o conflito não dá qualquer sinal de ser finalizado. Consequentemente, a contagem de mortos se eleva, corações são despedaçados, futuros são brutalmente destruídos e famílias inteiras fazem o melhor que podem para manter a segurança daqueles que mais amam.

Assim como tantos outros eventos que, juntos, compõem a sombria, curiosa, brilhante e assustadora trajetória humana, a Guerra da Síria apresenta em sua essência uma ideia, ou talvez um pensamento que, pouco a pouco, se expandiu e, unindo-se à histórias e contextos profundos, foi capaz de direcionar uma população inteira para consequências nunca antes imaginadas.


O que teve início com um movimento contrário a presidência de Bashar al-Assad, hoje, em sua complexidade intricada, pouco está ligado ao grupo rebelde que lhe deu origem, contando com aspectos políticos e econômicos voltados aos interesses de outros países, além de ideologias religiosas que ampliam o escopo de um conflito que, pelo bem de sua população, já deveria ter sido finalizado.

É em meio a complexidade de elementos, nuances de aspectos socioculturais, políticos, econômicos e ideológicos que surge o diário de uma criança que acompanhou o desenrolar de acontecimentos que sua experiência com o mundo não era capaz de explicar. Ela viu a atmosfera da cidade que conhecia e amava mudar drasticamente, observou as ruas movimentadas e repletas de cheiros deliciosos deixarem de vibrar, percebeu as construções, os espaços que costumava passear, perderem suas cores, viu um mundo seguro e alegre dar lugar ao vazio, tristeza e incerteza.

O Diário de Myriam, muito mais do que demonstrar as consequências do conflito para a população de Alepo; destacar as rachaduras nas construções que sofreram com explosões de bombas ou tiros de rifles e armamento pesado de guerra; indo além das perdas e sofrimento inegável que assola famílias e mais famílias; avançando para o fechamento de escolas e crescimento do número de feridos e desabrigados, ressalta e demonstra a humanidade em meio ao conflito. É o lado humano que prevalece quando bombas fazem tremer as paredes daquele apartamento que um dia Myriam chamou de lar, são os sentimentos presentes em todos e cada um de nós que transbordam pelas páginas de um diário que, em momento algum, reduz a realidade dos eventos que impactaram a vida de Myriam.

A humanidade inegável presente neste livro impacta o leitor, porém, é por meio de sua escrita sem rodeios, acessível e por vezes breve, que O Diário de Myriam estabelece um sentimento indestrutível de empatia. Seu valor reside na capacidade de ir além das visões e opiniões pré-concebidas, obscurecendo os posicionamentos de governos, bem como da própria mídia que, tantas e tantas vezes, ignora a humanidade de conflitos que são muito mais complexos do que parecem, não podendo ser resolvidos, simplesmente, com a distribuição de armas para os lados que partes interessadas acreditam ser o "correto".

O Diário de Myriam destaca a visão, pensamentos e sentimentos de uma criança com relação a eventos que vão muito além de sua compreensão. Demonstra o aspecto humano que, como humanos que somos, muitas vezes ousamos ignorar. Ressalta o impacto da guerra na vida de famílias inteiras, impactando e permitindo ao leitor uma aproximação maior, não apenas com detalhes do conflito, mas com as vidas daqueles que estão diretamente conectados ao desenrolar de um evento que ainda não mostra sinais de finalização. 

12 comentários

  1. Só de ler a resenha fiquei abalada, imaginando quando for ler o livro, deve ser muito triste e revoltante essa historia ainda mais pela visão de uma criança, que mexe muito mais com as nossas emoções. A mente dessa criança nunca mais será a mesma, devido a essas sequelas de tudo que observou e ouviu, os estrondo.

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  2. Oi, Izabel,

    Poxa, é muito triste imaginar que com essa guerra, muitos sonhos foram destruídos, por causa dos fragmentos do horror vivenciado por muitas pessoas.

    Vemos que a Myriam é um sinônimo de esperança. Por serem fatos verídicos, essa é com certeza e sobretudo, uma história mais impactante e triste ainda.

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  3. Além de ter como pano de fundo um capítulo trágico da história da humanidade, ver tudo isso pelos olhos de uma criança é ainda mais cruel e chocante. O ênfase nos detalhes e em todas as vidas que foram destruídas pela guerra deixa o livro pesado e impossível de ser ignorado. Não há como ser indiferente a este tipo de literatura, que absorve e traz à tona uma realidade que, por mais distante que esteja, é comum a todo nós, como seres humanos.

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  4. Oi Izabel.
    Deve ser uma história muito triste! Nem podemos imaginar os horrores e sofrimentos que essas pessoas passam em meio a essas guerras. Uma criança então... Deve ser muito difícil vivenciar algo assim. Deve impactar para a vida toda. Ótima resenha.
    Bjus
    www.docesletras.com.br

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  5. Que resenha!Aliás, nem acredito que tenha sido uma resenha, mas um desabafo e uma verdadeira aula sobre um pouco do que acontece "lá fora".
    Desde que este livro foi lançado, li muita coisa ele. É uma pontinha da vida de uma sobrevivente deste caos, desta tragédia que não deixa sobreviventes. Se esta guerra não mata fisicamente, ela mata por dentro. Nas perdas, nas mutilações, nas famílias gritando por socorro.
    Em meninas como Myriam que não abriram mão de estar onde nasceram, com os seus, mesmo tendo oportunidade para isso.
    O livro está na lista de desejados e tenho esperança de ainda o ler e ter!
    Beijo

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  6. Oi Izabel, é difícil imaginar perder casa, estabilidade, pessoas, vizinhos e muito mais, tudo de vez, difícil e triste e imagino que esse livro seja bem tocante e o fator humano presente nele de forma tão forte o torne emocionante. Gostei da resenha e espero poder ler o livro mais a frente.

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  7. Quero muito ler este livro. Pois além de ler uma história emocionante, eu iria ficar conhecendo um pouco mais sobre o conflito. Infelizmente a gente que está sempre trabalhando e ocupada muitas vezes não tem tempo de se inteirar das notícias internacionais e importantes que estão acontecendo. É muito ruim se sentir meio alienada!

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  8. Fiquei completamente apaixonada pela sua resenha O que mais me chamou atenção na história do livro foi descer quase que um auto biografia de uma garota que viveu durante a guerra civil na Síria em muitos pontos Esse livro me lembrou um pouco a história da Anne Frank com toda essa história de uma garota no meio da Guerra

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  9. Olá Izabel!
    Eu sou louca pra ler esse livro, tenho acompanhado resenhas bacanas como a sua sobre e o livro e não vejo a hora de conhecer a história que parece ser muito boa.
    Bjs!

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  10. Izabel!
    Nossa! Deve ser um livro intenso e bem doloroso, principalmente trazendo a visão infantil de uma guerra que não faz muito sentido.
    Gosto demais de livros ambientados em guerras, nos fazem aprender sobre o quanto somos abençoados por nunca termos passados pelas atrocidades vividas durante a guerra.
    cheirinhos
    rudy

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  11. Oi, Izabel! Tenho uma questão muito triste com livros que se passam em meio a guerras, acho que eles devem ser lidos por todos, mas não gosto muito de lê-los (contraditório, né?) mas o que acontece é que eu fico extremamente triste lendo esse tipo de narrativa, e às vezes até meio mal, como quando li o diário de anne frank (ou melhor, como quando abandonei :( ) entendo a importância de conhecermos mais esse conflito que está acontecendo a tanto tempo e não tem nem previsão de quando vai acabar, e fiquei curiosa para ler esse livro, em uma época melhor da minha vida com certeza vou atrás para conhecer a história.

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  12. Oi Iza!!!
    Não tinha ouvido falar desse livro ainda. Fiquei com vontade de saber mais sobre ele.
    Adorei a dica.
    Beijinhos
    Quanto Mais Livros Melhor

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