Uma Visita a Salem

12 out, 2018 Por Bruno Bastos

Era o século XVII, a escravidão ainda era uma prática legal e muito ativa nos Estados Unidos, principalmente no atual estado de Massachussets, conhecido até hoje como a Nova Inglaterra, lugar por onde os imigrantes ingleses chegaram para colonizar o país desconhecido da América do Norte.
E foi uma dessas escravas que deu origem a uma das maiores histórias sobre bruxas dos Estados Unidos. Seu nome era Tituba, uma afro-caribenha que contava todas as noites para um grupo de amigas histórias, que ela jurava serem reais, sobre a prática do vodu pelos seus conterrâneos. As histórias de invocação de espíritos e sobre pessoas possuídas por entidades animavam as noites, mas infelizmente chegaram aos ouvidos de crianças de famílias religiosas da cidade. As crianças de 9 e 11 anos, passaram a ter alucinações e pesadelos, e, pressionadas pelo reverendo a revelarem o que as perturbavam tanto, elas admitiram que tinham tido contato com Tituba e suas amigas, e que tinham ouvido histórias sobre os rituais que aconteciam no país de origem de uma delas.

Foi o necessário para as três mulheres, chamadas Tituba, a escrava, Sarah Good e Sarah Osbourne fossem condenadas. As duas Sarahs não chegaram a confessar serem bruxas, porém Tituba admitiu servir o demônio, dizia que era obrigada por ele a fazer diversas coisas, como por exemplo amaldiçoar as crianças da cidade.
A caça às bruxas começou a se tornar mais pesada na cidade e até mesmo mulheres ricas e brancas acabavam sendo acusadas de bruxaria e condenadas, ou a irem para o presídio ou para o sanatório, onde deveriam ser tratadas.
Esse é o mesmo tipo de crueldade aplicado na Europa a diversas mulheres, e não seria diferente no primeiro lugar que recebia nobres europeus para morar na América, assim criando uma das maiores histórias de bruxaria dos Estados Unidos. Esta não é apenas uma lenda, a história aconteceu realmente e eu vi com meus próprios olhos a casa onde as três mulheres moraram, e nesta postagem, vou contar para vocês sobre a minha visita a Salem, a cidade das bruxas.
Salem, a cidade onde tudo isso aconteceu durante os anos de 1692 e 1693, está situada a pouco mais de 80km da capital de Massachusets, em Boston. Eu levei pouco mais de uma hora para chegar até ela e o que eu vi lá foi simplesmente incrível.
A cidadezinha interiorana simplesmente vive em função das bruxas de Salem, toda a esquina existe uma loja de artigos exóticos ligados à bruxaria, as casas de videntes ou até mesmo bruxas que atendem pessoas para falar a elas sobre seu futuro são presentes em todas ruas, assim como os museus de terror, que são diversos. Salem é extremamente extravagante, você anda pelas ruas e vê dezenas de pessoas vestidas de bruxas ou magos, elas não estão fantasiadas, aquela é a cultura delas, é a maneira como aprenderam a viver e da qual se orgulham.
A população americana valoriza mais do que qualquer outro povo a sua cultura e ver a forma como a cidade de Salem abraçou com amor uma história que deveria envergonhar a cidade é muito interessante. Eles preferem valorizar a memória daquelas que morreram pela crueldade dos homens, do que esconderem a atrocidade que cometeram. E eles fazem essa reverencia de uma maneira maravilhosa, inclusive mantendo intacta a casa de Tituba, Sarah Good e Sarah Osbourne. É claro que eu não poderia deixar de conhece-la.
A casa é simples, de madeira, tem dois pisos e a grande maioria dos cômodos se mantem abertos para visitação. Não é permitido filmar dentro do local, apenas tirar fotos e sem flash.
O ingresso para conhecer a casa custa $8,00, por esse valor você tem acesso à sala e à cozinha, que ficam no primeiro andar. Pode-se ver talheres, fotografias e manuscritos. No segundo andar todos os cômodos estão abertos para você entrar. Desde a escada usada para você subir até eles até os quartos onde as bruxas dormiam, passam uma sensação terrível de temor, não temor pelas bruxas, mas pelas pessoas que naquela época precisavam subjugar mulheres que não seguiam as leis que a sociedade e os homens impunham, fazendo com que qualquer rebelião feminina fosse tratada como bruxaria com dois intuitos. O primeiro era de tirar a credibilidade do que aquelas mulheres fortes, e que traziam ameaça para a sociedade, falavam, pois imagine se mais mulheres seguissem o que as bruxas pregavam? E o segundo motivo era para usa-las de exemplo, mostrando o que realmente aconteceria com aquelas que fossem contra o que a religião, a sociedade e seus homens pregavam.

Por $39,00 você pode fazer um tour pela cidade, com um guia turístico e conhecer melhor cada uma das histórias. Os lugares não são tantos, apenas a rua principal da cidade tem a história verdadeira para ser mostrada, era nela que ficava a casa das bruxas, a casa das meninas que as acusaram e onde elas foram julgadas. A caminhada dura cerca de 2 horas e é feita sempre das 20:00 até as 22:00 horas. O que deixa as coisas ainda mais tenebrosas, ou você não sentiria nem uma pontinha de medo, andando à noite pela cidade das bruxas?
Imagino como deve ter sido bom para Tituba provocar seus acusadores, dizendo que realmente era uma bruxa, aterrorizando a memória de cada um. Ela não tinha nada a perder, era constantemente açoitada pelo seu senhorio, era obrigada a fazer trabalhos que não queria e talvez, para ela, a glória de viver nos sonhos dos acusadores e dos juízes, mesmo que morrendo na fogueira (o seu fim provável), tenha valido mais a pena.
Quanto à outras mulheres acusadas de bruxaria, inclusive brancas e da alta sociedade, certamente teriam enlouquecido com os maus tratos de seus maridos e pais, simplesmente por tentarem viver a vida que tinham vontade e não aquela que havia sido imposta a elas. Já que a luta contra a “bruxaria” estava em alta, nada melhor do que se aproveitar dela para sumir com outras mulheres indesejáveis e que não seguiam as regras.

A história do mundo é triste, a maldade do ser humano sempre foi terrível, os interesses sempre vieram em primeiro lugar do que o bem-estar do próximo, seja ele, rico ou pobre, amarelo ou preto, homem ou mulher. As pessoas tendem a pensar no seu benefício e não no melhor para todos, isso ainda não mudou, não mudou em Salem, não mudou no Brasil, não mudou na Europa. Não se pode caçar mais judeus, mas homens negros ainda são assassinados quando enquanto voltam do seu trabalho. Não se pode mais colocar fogo em bruxas, mas mulheres ainda são assassinadas por seus companheiros e depois atiradas da sacada para que pareça suicídio. As mulheres já podem votar, estudar, andar no mesmo ambiente que os homens (não no oriente médio), mas não tem a segurança de que no simples trajeto para o trabalho não sofram qualquer tipo de abuso de abuso.
Salem é uma cidade linda, que abraçou sua história e se tornou turística, se denomina a Cidade das Bruxas e tem orgulho de ter dado a volta por cima. Eu não me assustei em nenhum lugar da cidade, me assustei em saber que a história de terror do século XVII ainda existe, com outros personagens, sem fogueiras, mas ainda com pessoas querendo escolher o que vai ser feito na vida da outra pessoa, única e exclusivamente para o seu próprio benefício.
Espero que tudo mude e que não vivamos uma inquisição moderna, não precisamos ter medo das bruxas, a caça precisa ser contra quem as denominam assim.

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ciona
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