Título Original: My Husband’s Wife
Autora: Jane Corry
Tradução: Márcio El-Jaick
Ano: 2018
Editora: Record
Páginas: 434
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Lily e Ed são um casal recém-casado. Ela, uma advogada formada no começo de carreira, trabalhando em um caso para defender a liberação de um presidiário, acusado de ter assassinado a namorada em uma banheira de água fervente. Ele, um publicitário frustrado que prefere fazer suas pinturas que não rendem nenhum dinheiro para casa do que investir no trabalho que realmente lhe dá algum sustento. 
O livro começa com um sucinto relato sobre a morte de Ed – isso não é nenhum spoiler, realmente acontece na primeira página – e logo já somos sugados para doze anos atrás, onde inicia-se a narrativa sobre o início do casamento dele com Lily e o relacionamento deles com uma mãe solteira e sua filha de dez anos, Carla. Sendo imigrantes italiana, Carla sofre com o bullying na sua escola enquanto a mãe, que trabalha como vendedora em uma loja, passa parte do seu tempo com o homem do qual ela é amante.
A obra é dividida entre duas perspectivas. A primeira, em primeira pessoa, feita por Lily, conta as histórias da vida dela e seus problemas pessoais, como o trauma da morte do irmão na sua adolescência, assim como os problemas no casamento e no trabalho. A segunda é em terceira pessoa e mostra a vida de Carla e sua mãe, falando de todos problemas que a garota passa na escola e a dificuldade que sua vida é por seu pai ter morrido muito cedo.
A Mulher do Meu Marido é um livro muito impressionante, apesar de não ter muita ação direta ele tem uma constante impressão de tensão, algo incrível, que prende o leitor à obra. Isso tudo está embutido na maneira como a escritora construiu o livro.

Jane Corry já tem dois livros lançados nos Estados Unidos e este foi o primeiro deles, lançado por lá em 2016. O segundo livro de Jane se chama Blood Sisters, algo como Irmãs de Sangue, em uma tradução livre. Este lançado ano passado lá fora, já o seu próximo livro, se chamará The Dead Ex e na capa há algumas chamadas destacando frases como “Ele traiu”, “Ele mentiu” e “Ele morreu”. Esses títulos e as citações nas capas, mostram que a intenção literária dela é justamente falar sobre relacionamentos e seus problemas, e ela faz isso maravilhosamente bem. Mas ela tem algo a mais: em A Mulher do Meu Marido existem muitas informações sobre Autismo e a Síndrome de Asperger, um dos estados do Espectro Autista. Vários personagens são autistas, outros tem traços do espectro, mas são muitas as páginas dedicadas a falar sobre as maneiras corretas e erradas de lidar com crianças e adultos que são diagnosticados com autismo, além da maneira como a sociedade os vê.
A segunda parte do livro acontece doze anos depois da primeira e começa pouco depois da metade do livro. Nela Ed e Lily já tem um filho, que inclusive é um dos personagens que sofrem do espectro. Através dele a autora descreve bem as crises provocadas pela Síndrome de Asperger, falando sobre todas manias e a violência que ações contrárias em momentos complicados de crise podem gerar. Nessa segunda fase Carla está adulta, formada e com novos planos. O mais legal de Carla é que ela não é uma daquelas personagens certinhas e mesmo assim, consegue ser cativante suficiente para você torcer por ela. Quando criança ela consegue inclusive chantagear o homem com quem sua mãe tem um caso, isso tudo sem perder a inocência de uma criança e sem ficar claro que ela é vilã – e eu não estou dizendo que ela é.
A conclusão da obra é muito intensa, são nas últimas cinquenta páginas que a ação acontece de verdade, e, assim como o livro inteiro, é muito bem descrita e ambientada, sem contar que tudo é muito realista e bem explicado, deixando todas cenas muito plausíveis e o desfecho do livro muito bom.

Falando um pouco sobre a edição do livro, lançado pela Record, a capa é deslumbrante, com um rosto feminino e marcas de sangue e tinta que se destacam com detalhes em alto-relevo. Além da capa e da maneira como o livro foi construído, no final dele a editora inclui treze perguntas para grupos que queiram fazer leitura coletiva da obra, o que eu achei muito legal. Não sei se isso foi incluído na edição americana também ou se é uma nova ideia da Editora Record, algo que seria maravilhoso, pois incentiva grupos a lerem os livros da editora, já que traz essa facilidade. Parabéns à editora pelo belo trabalho.
Gostei muito do primeiro livro de Jane Corry, sem dúvida entrará para aquela lista de escritoras que quando aparece um lançamento vou correndo na livraria comprar. O estilo literário dela está muito claro, vai falar sobre problemas nos relacionamentos, envolver suspense, alguma ação e talvez fale de uma nova doença ou se mantenha falando ainda sobre autismo. Algumas pessoas podem não gostar desse tipo de livro, já que envolve muito romance em meio à história e também é um livro onde a ação de fato, a explicação sobre o título e o desenvolvimento como um todo, demoram bastante para deslanchar. Tudo ocorre no arco final e alguns leitores podem não se adaptar com esse tipo de característica, porém isso foi o que mais me chamou a atenção na minha leitura e me deixou ainda mais interessado para conhecer ainda mais coisas da autora.
Se você gosta desse tipo de obra intensa, mas que ao mesmo tempo vai envolvendo tantas coisas no enredo que o desenvolvimento das ideias centrais do livro leva muito tempo para acontecer, sem dúvida vai amar A Mulher do Meu Marido. Aposto que a capacidade de escrita de Jane Corry vai contagiar você. 
Dica: se você assistiu ao seriado Atipycal, que também trata do Espectro Autista, e gostou da história do Sam, sem dúvidas vai adorar este livro incrível. 


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