Título Original: When We Collided

Autora: Emery Lord
Tradução: Lígia Azevedo
Ano: 2018
Editora: Seguinte
Páginas: 349
Uma jovem que só quer sentir. Isso mesmo, simples assim, sentir. Sentir a vida pulsar em suas veias, sentir o vibrar da gargalhada se formando em sua garganta, sentir o arrepio na pele diante de um desafio, da beleza da cor em cada nuance do lugar em que está. Sentir e tão somente sentir, sem medo de ousar, de errar, de arriscar. A vida para ela é algo tão precioso e único que precisa ser vivida ao seu máximo, com intensidade, sem limites.


Vivi é essa jovem audaciosa, entregue e apaixonada. Que onde chega erradia luz, cor, sons, uma força da natureza, um pequeno furacão que por onde passa deixa sua marca. Mas engana-se quem pensa que é somente isso. Por trás de toda impetuosidade, existem segredos, temores, eu diria até que arrependimentos, problemas não tão fáceis se serem resolvidos, ultrapassados, principalmente por alguém tão jovem e com tanto para descobrir e aprender.

“(…) Mas a vida nos surpreende. Ela nos diz para fechar os olhos e assoprar as velinhas, mas às vezes enfia o bolo na nossa cara antes do pedido. E às vezes — só às vezes — você consegue o que queria.”

Jonah Daniels carrega sobre os ombros muitas responsabilidades, algumas que não deveriam pesar sobre ele, mas que diante das circunstâncias não restaram alternativas. Seu pai faleceu a seis meses, deixando seis filhos e uma viúva que não consegue superar o luto. A vida que antes parecia leve, cheia de sonhos e planos precisou entrar em pausa, dando lugar para dor, renúncia e preocupações. Inteligente, forte, talentoso, esse jovem é notável, generoso, carinhoso e tudo que mais desejamos no decorrer das páginas é poder abraça-lo, pegar em sua mão e dizer que tudo ficará bem. Mas uma pessoa consegue fazer isso por nós – Vivi.
Quando dois mundos completamente opostos colidem é impossível sair sem nenhum vestígio. Verona Cover é uma cidadezinha pacata, um lugar tranquilo e muito bonito que se tornou rapidamente o lugar preferido de Vivi, que com seu talento artístico, espírito livre, excentricidade, não demora muito para conquistar os moradores locais, inclusive o jovem Jonah e sua família.
Existem livros que chegam até as nossas mãos no momento mais preciso possível. É incrível a maneira como algumas histórias conseguem transpor as páginas e tocar quem está do outro lado, lendo e sentindo cada palavra. Vivi é de fato uma grande força, a maneira como ela encara a vida, como escolhe viver é tão intensa e por diversas vezes surreal que nos rouba o fôlego. É difícil não se sentir tocado por ela de alguma forma, e conforme vamos conhecendo-a, passamos a compreender a grandiosidade de seu problema e a maneira como ele não define quem ela é. Empoderada, dona de si, Vivi é excêntrica, erra e acerta, cai e levanta e nos mostra que realmente essa é a única maneira de se viver. E apesar de Vivi vir com toda sua força e se destacar em grande parte da leitura, Jonah e sua família são igualmente importantes e bem trabalhados na narrativa. E essa foi a grande sacada da autora, falar sobre o luto, sobre as dificuldades de uma família grande, das relações entre irmãos, de maneira natural, cotidiana, como se estivéssemos presenciando de perto uma família da vida real. E não posso deixar de mencionar o romance, cheio de altos e baixos, arrebatador e fugaz.

“(…) — Seu sussurro paira no ar entre nós. — Estou tentando viver intensamente. Tentando sentir tudo que posso. Priorizo as experiências em relação a tudo e a todos. Pode ser difícil aceitar isso, e sinto muito, mas é quem eu sou.”

Como um livro tão pequeno pode carregar uma mensagem tão grande? Ao mesmo tempo em que se revela simples e fácil, se torna angustiante e reflexivo. Quero sair falando e comentando cada nuance da história, cada pequena frase que me tocou, cada gesto humano que me sensibilizou, que me aproximou dos personagens e suas lutas.
Queria que todas as escolas, que todos os jovens tivessem acesso a essa obra, ressaltando deste modo a importância de se ter histórias que abordam essa temática – Doenças Mentais, mas não com toda essa crueza da palavra, causando aquele choque, aquela torção de nariz. Por que se tem algo que ficou claro com Queria Que Você Me Visse, é que apesar da doença ser parte de quem você é, ela não te define, ela não te limita, ela não te incapacita. Somos todos únicos ao nosso modo.
Queria Que Você Me Visse é uma linda história sobre dois jovens que estão em busca de si mesmos, de saídas, oportunidades, aprendizados. Jovens com sede de viver, mas presos em meio as circunstâncias e dificuldades da vida. Precisando lidar com muito em tão pouca idade – perdas, diagnósticos, arrependimentos, medos e anseios. Transforme o cinza e em um arco-íris, olhe pelo outro lado, encare de cabeça erguida, você não está sozinho.
A melhor sensação é terminar a leitura desejando que ela nunca chegue ao fim, que pudesse continuar acompanhando cada dia desses jovens e o desenrolar de suas vidas. Emery Lord, foi genial. Sua narrativa é “insana” e vamos compreendendo o porque de ser assim com o passar dos capítulos. Ela foi muito sensível ao abordar temas tão sérios, os retratando com muita precisão e veracidade.
Portanto, caso ainda não tenha fica claro, vou dizer que sim, eu recomendo muito a leitura deste livro, principalmente se for um jovem, se conhece e lida com alguém com alguma doença mental, ou que simplesmente tenha curiosidade sobre o tema. É sempre importante frisar que antes de julgar, escolha ajudar. Beijos, até a próxima!

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