Título Original: Sob a Luz da Escuridão
Autora: Ana Beatriz Brandão
Ano: 2018
Editora: Verus
Páginas: 336
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As guerras destruíram o mundo, agora as poucas pessoas que restam são apenas seres especiais, conhecidos como Metacromos. Eles possuem diversos poderes e são divididos em classes diferentes, que agora batalham entre si, já que o mundo não tem mais quem o controle. 
As personagens principais dessa distopia são Lollipop e Jazz, amigas que perderam a memória durante a guerra e que apesar de parecerem ter apenas dezesseis anos, na verdade passam dos 50. Juntas elas fugiram da instituição aonde estavam presas, após a morte de Leonard Travis Goyle, o homem que depois da Quarta Guerra Mundial se tornou dono de tudo, porém foi assassinado, deixando o poder vago.
O início do livro é extremamente interessante, muito bem descrito, cheio de detalhes sobre o que aconteceu durante a guerra e o resultado que isso causou ao mundo, prometendo ser uma obra incrível englobando ficção cientifica e ação, aliando personagens femininas extremamente fortes com um mundo completamente destruído pela ganância e pelo capitalismo. Porém é só nas primeiras páginas que o livro é interessante.
As duas garotas, uma delas inclusive com o poder da telecinese, se aliam a vampiros que são Sam e Evan. O segundo é o líder da casta e comanda a ação de todos que estão próximos a ele. Aquilo que tinha tudo para ser um belo livro sobre a reconstrução mundial acaba virando um romance infanto-juvenil repleto de características abusivas. As personagens femininas, que tinham tudo para ser excelentes protagonistas daquela retomada mundial, deixando o planeta mais habitável, viram coadjuvantes fraquíssimas, submissas as ordens de Evan.

Sob a Luz da Escuridão foi extremamente decepcionante para mim e me gerou discussões importantes sobre personagens ruins e a necessidade de ainda termos obras que deem espaço para eles. O livro também me gerou uma reflexão sobre o pode ser julgado como abuso e violência contra mulher ou se tudo se trata apenas sobre uma luta entre dois personagens guerreiros. É sobre isso que quero discutir com vocês aqui.
Desde que passei a ler livros como os de Robert Bryndza, que com sua protagonista Detetive Erika, demonstra a batalha dela contra o machismo e a maneira como, mesmo com dificuldades, vence no seu emprego e luta contra assassinos de igual para igual, mostrando o poder feminino, ou como a protagonista de Jack, o Estripador – Rastro de Sangue, que consegue se fantasiar de homem para, em meio a uma sociedade machista, realizar seu sonho de trabalhar com medicina forense, que eu não consigo aturar livros com personagens femininas fracas e com a necessidade da presença masculina para viver e conseguir dar cada passo.

No começo de Sob a Luz da Escuridão achei que Lollipop e Jazz seriam esse tipo de protagonistas, que seriam fortes e tinham tudo para o serem, porém se tornaram o pior tipo de personagem possível, mulheres mandadas, dependentes, no caso de Lollipop, e simplesmente dispensável, no caso de Jéssica, que passa a aparecer pouquíssimo na obra.

A segunda discussão que tive foi sobre a abusividade do relacionamento de Evan com Lollipop. Ele agride ela em mais de uma cena no livro, mesmo a amando os dois brigam, lutam, discutem. Conversei com outra pessoa que leu o livro, que achou que as cenas seriam apenas de duas pessoas fortes brigando por espaço e que a cena não apresentaria problema algum se fossem dois homens trocando sopapos. Aceitei o argumento e refleti. Eu não vejo problema em lutas entre os dois sexos, a literatura precisa abordar isso, se tratando de uma fantasia e uma luta entre guerreiros, mas na minha opinião ela precisa ter um objetivo, os personagens precisam estar brigando por algo, essa luta precisa ser em prol de alguma coisa. Se estes personagens estivessem brigando pelo poder do planeta, por exemplo, seria completamente plausível e a minha ideia de relacionamento abusivo não seria correta, porém as brigas entre os dois são completamente despropositais e dispensáveis no livro. A motivação da maioria das brigas é uma ex-namorada de Evan, que lembra Lollipop. Como já falei, na minha opinião, este é o retrato de um relacionamento abusivo demais e gratuito, já que a violência do homem contra a mulher não é um tema abordada no livro, ela apenas acontece e é encarada de maneira natural.

Enfim, o livro tinha tudo para ser magnífico, a maneira como a escritora descreve as cenas e o mundo utópico criado por ela é esplendoroso, mas depois a coisa desanda e passa a ter muitos aspectos ala fantasia adolescente sobre vampiros, com as mesmas questões de convivência, apenas modificados para sobre-humanos e vampiros. Desta forma, além de personagens fortes virarem extremamente dispensáveis para obra, os protagonistas nem se fala, são muito fracos. 
Achei que leria uma obra épica de distopia, mas acabei com a impressão de um romance infanto-juvenil, com uma mulher muito submissa e abusada durante toda a obra, infelizmente. E vocês o que acham de livros que ainda tratam a mulher como dependente e aceitam de maneira normal o machismo e a violência contra elas? E me digam, quais os tipos de personagens que vocês gostariam que não aparecessem mais nos livros?

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