Título Original: The Time Machine
Autor: H. G.
Wells
Tradução: Braulio Tavares
Ano: 2018
Editora: Suma
Páginas: 168
Imagine
que um pesquisador do século XIX se lançasse em meio a uma empreitada para
desvendar os mistérios relacionados à dimensão temporal. Imagine também que a ânsia
deste pesquisador possibilite a reunião dos conhecimentos necessários para
construir uma máquina do tempo que, verdadeiramente, permita a translocação de
uma pessoa para os pontos mais longínquos do passado ou futuro da humanidade. O
que este bravo explorador poderia encontrar ao longo de suas viagens? Seria o
futuro da humanidade algo tão magnífico e promissor quanto muitos de nós
dispõem-se a acreditar?
O
viajante do tempo retorna de sua fascinante jornada com nada mais do que um
olhar desolado, aspecto debilitado, roupas rasgadas e sujas, pequenas e belas
flores guardadas em seus bolsos e uma história que muitos ousariam afirmar ser
nada mais do que alucinações de um cientista louco! No futuro, segundo seu
relato, encontraremos os graciosos e pacíficos Eloi, ruínas de uma civilização próspera,
descanso e apreciação da natureza, mas também os misteriosos e sombrios
Morlocks, que guardam os segredos de um futuro que pode não ser tão magnífico,
promissor e agradável quanto suas aparências nos fazem acreditar.

“Fiquei
abatido ao pensar em como o sonho do intelecto humano havia sido breve. Tinha
cometido suicídio”

Autor de destaque em meio às publicações do gênero de ficção científica publicadas ao longo do século XIX – embora o termo venha a ser cunhado somente em meados do século seguinte -, H. G. Wells conquista leitores através de sua escrita acessível, direta e livre de grandes termos e conceitos científicos, focando seus esforços muito mais nas aventuras, descobertas e consequências enfrentadas por seus personagens do que na criação de mundos ou contextos plausíveis e cientificamente embasados. A simplicidade científica de Wells destaca-se em A Máquina do Tempo, uma vez que não possuímos qualquer informação sobre o funcionamento da mesma, a trajetória que possibilitou sua construção, além dos conceitos que permitem sua existência. O que irritava Jules Verne, contudo, destaca-se como uma ótima oportunidade para leitores desacostumados com a profundidade presente em diversos livros do gênero, além de ser uma porta de entrada agradável para esse vasto universo.
Apesar de tratar-se de uma clássica obra de ficção científica, A Máquina do Tempo também ressalta a capacidade inventiva de Wells ao desenvolver todo um futuro que, apesar da aparência utópica, não passa de uma distopia sombria e absurdamente relacionada ao período histórico que lhe deu origem. Ao questionar-se sobre as condições de vida e trabalho dos funcionários de fábricas do século XIX, ações e estratégias utilizadas pelos proprietários dos meios de produção, além de refletir sobre os possíveis caminhos para uma sociedade fortemente baseada em conceitos científicos e tecnológicos, Wells demonstra sua base marxista, construindo uma distopia instigante e bem diferente do padrão estabelecido por séries como “Jogos Vorazes” e “Divergente”.
Muito mais do que um clássico da literatura do século XIX ou uma porta de entrada para que novos leitores possam descobrir as fascinantes histórias contidas no universo da ficção científica, esta nova edição, publicada pela Suma, destaca o carinho que todos deveríamos ter para com os clássicos. Com projeto gráfico impecável, além de belíssimas ilustrações dispostas ao longo de toda a narrativa, este livro atinge todas as expectativas, transformando a própria experiência de leitura em algo muito mais prazeroso.
A Máquina do Tempo faz parte daquele grupo seleto de livros que, além de apresentar uma aventura instigante, viagens fascinantes e detalhes de um mundo nunca antes visto, possibilita a imersão e reflexão do leitor que ousar se debruçar sobre as nuances e relações entre o mundo fictício do livro e nossa própria realidade enquanto sociedade. Os comentários e críticas estabelecidos ao longo de toda a narrativa fazem todo o sentido quando relacionados ao mundo criado, porém, a verdadeira viagem reside na percepção de que nem todas estas críticas estão destinadas a um futuro possível, mas sim, ao mundo real.

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