Existem duas formas de você enxergar o filme Green Book: O Guia – uma delas é simplesmente você assistir como um filme qualquer que você escolhe porque simplesmente achou a sinopse interessante, possivelmente você dará umas boas risadas (e amará o filme, como eu amei); a outra é sabendo de toda a polêmica e contexto que o filme foi produzido, provavelmente você nunca mais o verá da outra forma.
Eu sou péssima com nomes de atores e tenho muita certa dificuldade de definir o gênero do filme, portanto, na maior parte das vezes, eu sempre faço uma pesquisa sobre os filmes que vou falar, principalmente se eles forem indicados ao Oscar. Enfim, eu sabia que existia uma polêmica envolvendo Green Book, mas eu só fiquei sabendo depois que o assisti. Até então, eu estava pronta para chegar aqui e dizer o quanto esse filme tinha sido um dos meus favoritos e como a dupla Viggo Mortensen e Mahershala Ali me conquistaram.

A história é sobre Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), um segurança de uma casa de shows em Nova Iorque, que decide procurar um emprego temporário enquanto o local onde trabalha entrou em reforma. Ele acaba sendo chamado para uma entrevista para ser motorista de “Doc” Don Shirley (Mahershala Ali), um famoso pianista negro de música clássica. Apesar da incompatibilidade de gênio entre os dois, Tony parece ser escolhido justamente pelo seu jeito italiano “a la máfia” de lidar com as coisas. E, como a turnê seria do centro-oeste ao sul do Estados Unidos, na década de 1960, era preciso que quem fosse assumir essa posição tivesse uma atitude compatível para enfrentar os possíveis problemas que tinham por vir. Ao longo da viagem, que dura meses, acompanhamos Tony e Don no Cadillac azul, desenvolvendo laços que os ajudam a desconstruir a suas próprias formas de ser e lidar com o mundo a sua volta.
Foi exatamente isso que tinha me encantado no filme (além dele ser esteticamente lindo e com uma trilha sonora fantástica). Uma história que mostra como, através do contato com o outro, a possibilidade de estar aberto a conhecer novas realidades e entender a posição do outro pode fazer com que a gente enxergue o mundo de outra forma. Pelo menos, comigo foi assim, eu desconstruí muitos preconceitos, não apenas através da minha formação acadêmica ou como leitora assídua, mas estando aberta a ouvir as outras pessoas. Por mais que o filme tenha os seus problemas (que vou explicar melhor quais são), esse plot e a interpretação do Mortensen e Ali estavam realmente impecáveis e a ligação que eles conseguiram fazer entre suas personagens é bastante admirável. Inclusive, justifica totalmente as indicações ao Oscar de Melhor Ator para Mortensen e Melhor Ator Coadjuvante para Ali – afinal, apesar do filme levar o nome do guia para viajantes negros que realmente existiu, o marketing do filme se vende como “inspirado em uma verdadeira amizade”.
Um dos problemas (já que não consegui definir qual foi o pior) de Green Book é justamente ele ser baseado em um história real. Esse não seria um problema se o “roteiro original” (que está concorrendo a um prêmio) tivesse sido conduzido de forma diferente. Eu entendo totalmente que estamos falando de um filme, que o diretor e o roteirista tem liberdade de expressão e, pelo que pesquisei, o filme foi praticamente “encomendado” pela família de Vallelonga – ou seja, ele atende a interesses de um dos lados da história (e saber disso, esclarece muitas coisas em relação a pegada do filme) – e para quem tiver interesse em pesquisar mais um pouco, talvez perceba que, chamar de uma “verdadeira amizade”, seja uma forçação de barra. Mas acho que essas são questões que só conseguiríamos resolver se as pessoas reais inspiradas nesse filme voltassem a vida para nos dizer a verdade.
Outra questão é como o livro que dá nome ao filme é tratado de forma incipiente. Esse guia foi criado por Victor H. Green na década de 1930 e atualizado até 1960, o seu objetivo era ajudar os viajantes afro-americanos a encontrar hotéis, restaurantes e outros espaços seguros nos estados que eram segregacionistas (até esse ponto o filme dá uma contextualizada mais ou menos sobre o guia de uma forma aceitável), mas chega em determinado ponto que o livro não faz mais diferença nenhuma na história. Sendo que, historicamente, ele teve importância vital para muitas pessoas. Sem contar que o filme retratou todos os hotéis indicados pelo guia de forma pejorativa e degradante, quando na realidade, o guia também oferecia opções mais sofisticadas. Eu particularmente, quando acabei o filme, praticamente tinha esquecido do guia e muito menos consegui sentir a intensidade da importância dele, o que é um tanto irônico já que ele é o responsável por dar nome ao filme. Talvez o filme pudesse ter recebido um nome mais genérico como “Uma Amizade Verdadeira”.
Ainda existem outras questões como o histórico de má conduta sexual do diretor Peter Farrelly, uso de palavras inapropriadas em coletivas de imprensa pelo ator Mortensen e um tweet de 2015 de Nick Vallelonga (filho de Tony Vallelonga) apoiando a alegação de Donald Trump de que os muçulmanos americanos comemoraram o 11 de setembro (muito provavelmente ressuscitado pela mídia como forma de apontar as contradições dos envolvidos com o filme, já que Mahershala Ali é mulçumano). Vale ressaltar que em todos esses casos ouve pedidos de desculpas. No entanto, fica difícil ignorar quando você percebe que o filme não passa de uma série de estratégias para se aproveitar de um debate que está em alta. É óbvio que é isso que a indústria do entretenimento faz, afinal, para um filme ser aceito em hollywood, a crítica do filmes parece sempre ter um limite de, até onde podem chegar versus o sucesso de bilheteria que querem ter.

O ponto que quero chegar é que depois de ler, pesquisar e ouvir como outras pessoas se sentiram em relação ao filme, eu cheguei a conclusão de que não tem como passar panos quentes nele – por mais que ele tenha ótimos diálogos, cenas engraçadas, emocionantes, personagens cativantes, uma ótima trilha sonora e seja muito bem produzido (provavelmente isso tudo seja o suficiente para ele ganhar o prêmio). Ainda assim, eu não consigo ignorar o contexto depois de ter tomado conhecimento dele. Acho que quando você se propõe a abordar uma temática tão delicada trazendo elementos que existiram de verdade, é preciso ter cuidado em dobro para não cair em contradições tão pesadas. Isso porque eu não contei que a família de Don Shirley classifica o filme como uma “sinfonia de mentiras”, já que parte do pressuposto de que o filme foi feito atendendo a interesses da família do motorista, achei que não cabia aqui, mas vale a pena ler.
Enfim, não tem como simplesmente ignorar o contexto em que um filme foi produzido – e muito provavelmente vocês vão entender o meu ponto de vista quando lerem a crítica que eu fiz sobre o Infiltrado na Klan, onde Spike Lee utiliza outros filmes de sucesso, que seja de forma mais clara ou mais sútil, mas apresentam problemas que perpetuavam uma lógica racista.
Vale também eu deixar aqui a matéria que eu li para fazer esse post e para quem tiver interesse em entender melhor as polêmicas envolvendo o filme: “What to Know About the Controversy Surrounding the Movie Green Book”.

Green Book

Lançamento: 21 de novembro de 2018
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini
Gênero: comédia, drama
Direção: Peter Farrelly

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