Infiltrado na Klan, ou BlackKklansman (que em inglês, faz um trocadilho com a sigla da Ku Klux Klan e a palavra Black), infelizmente, parece ser uma daquelas produções fantásticas que vem recebendo várias indicações em diversas premiações, mas que no final acaba levando poucos prêmios para casa. No Oscar 2019, além da categoria de melhor filme, ele está concorrendo nas categorias de Melhor Diretor (Spike Lee), Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora (Terence Blanchard). Se formos levar em conta um levantamento rápido que eu fiz no site da IMDB, as maiores chance desse filme está na categoria de Melhor Roteiro Adaptado – talvez essa seja de fato a categoria que ele mais se destaca, junto com a de melhor diretor. Afinal, Spike Lee é o ponto-chave para o sucesso desse filme.
Spike Lee é um cineasta afro-estadunidense que procura trazer em suas produções críticas sociais e raciais – entre seus trabalhos estão Malcolm X (1992) e O Plano Perfeito (2006). Em Inflitrado na Klan, como co-escritor do roteiro e diretor, ele traz a sua versão do livro autobiográfico de Ron Stallworth, Black Klansman.
Infiltrado na Klan toma por base três direcionamentos específicos que, ao interconectarem-se, oferecem ao espectador a oportunidade de refletir com maior profundidade não apenas esta narrativa verídica transformada em ficção para a criação do longa, mas a própria trajetória do preconceito e perseguição efetivada por uma comunidade branca que verdadeiramente acredita em sua supremacia.

A história é sobre Ron (interpretado por John David Washington), o primeiro policial negro de uma cidadezinha do Colorado, que começa sua carreira nos arquivos da delegacia e tendo que lidar diariamente com colegas racistas. Após solicitar a sua transferência para outro setor, ele é colocado para sua primeira missão infiltrado em uma manifestação convocada por líderes dos direitos civis, onde Kwame Ture iria fazer um discurso. Essa sua primeira experiência abrirá uma nova oportunidade para Ron na divisão de inteligência como detetive. Nessa nova posição, ao ver um anúncio de contato da Ku Klux Klan no jornal, ele decide começar a investigar uma divisão local da organização. Ele começa ligando para o número inventando um personagem branco racista chamado Walter Breachway. A situação complica um pouco quando os membros da Klan decidem que querem conhecer o Walter pessoalmente e, para resolver essa situação, ele decide convocar o seu colega judeu, Flip Zimmerman (Adam Driver). O filme acaba se desenrolando em torno dessa investigação onde um negro e um judeu acabam se infiltrando na Klan.
O cunho biográfico do filme é tão valorizado quanto sua posição crítica e educativa. A trajetória e relevância de Ron Satllworth juntamente ao Departamento de Inteligência da Polícia do Colorado é representada com maestria, ironia, algumas piadas sarcásticas maravilhosas e uma porção infinita de crítica social. Contudo, em momento algum o filme perde sua atmosfera irônica, por vezes engraçada e em breves momentos, leve. O equilíbrio aqui é digno de nota, toma-se todo o cuidado para a construção de um clima que, na mesma medida em que explora acontecimentos reais que devem e merecem ser lidados com respeito e criticidade não afasta o espectador, como ocorre em tantos exemplos de filmes, ao delinear cenas chocantes, violentas ao extremo ou mesmo profundas ao ponto de confundir aquele que optou por conferir uma parte desta narrativa. É verdade que de início não consegui compreender a estratégia utilizada, me confundi em meio a interligação de cenas, comentários, elementos que até o momento me eram desconhecidos, porém o filme pede ao espectador paciência, atenção e interpretação permitindo que, na medida em que avançamos por seus pontos principais, suas ironias e equilíbrio perfeito entre sarcasmo e seriedade, atribua-se o terceiro fundamento deste longa, transformando-o em forte veículo educativo.

Um dos pontos mais interessantes, que vale a pena observar no filme, é como Lee utiliza referências de outras produções cinematográficas para criticar a cultura racista norte-americana. No início, nós temos um trecho do filme “…E o Vento Levou” (1939), onde Scarllet O’Hara corre entre os corpos dos rebeldes da Guerra de Secessão enquanto a bandeira confederada flutua as farrapos à esquerda. Talvez uma forma poética e ao mesmo tempo satírica do diretor em tentar representar o “sofrimento” e as “perdas” que os sulistas tiveram ao perderem a guerra. Isso para logo depois ele colocar uma interpretação jocosa de Dr. Kennebrew (Alec Baldwin), líder segregacionista, com cenas de O Nascimento de um Nação (1915) – um filme altamente racista que retratava os afro-americanos como inferiores e selvagens, ao mesmo tempo em que colocava a Ku Klus Klan como uma força heroica. Os mais atentos também observarão que logo depois do corte da cena da bandeira flagelada, aparece a mesma bandeira pendurada atrás do Dr. Kennebrew. Provavelmente uma dica para que quem não sabe o que aquela bandeira significa e, assim, possa fazer uma ligação com o discurso que é feito depois. Ele ainda faz referência ao filme Tarzan (acredito que de 1959), onde os negros nativos eram espancados pelo Tarzan branco, incentivando a violência contra negros em uma época em que o fim da segregação racial nos Estados Unidos ainda era muito recente. O diretor ainda termina o filme trazendo cenas reais do confronto entre supremacistas brancos e grupos antirracismo. Puxar o expectador para realidade me pareceu uma forma de lembrar as pessoas que filmes não são apenas produtos de ficções e de entretenimento, todos eles (em maior ou menor grau) vem carregados de significados e ideologias dialogando com questões culturais.

A opção por relacionar cenas de filmes específicos, documentação fotográfica e videográfica real, bem como histórias, acontecimentos e pessoas interligadas a toda a problemática abordada demonstra que o longa não anseia somente por transmitir um trecho importantíssimo de um período histórico dos Estados Unidos ou da vida de Ron Stallworth, mas também demonstrar a interligação de cada evento, comentário, produção “artística” e ações individuais ao plano geral. Seu objetivo principal é ressaltar que o que observamos não limita-se ao passado mas estende-se aos dias atuais e é tão arraigado em pessoas, corporações e atitudes que por vezes nos sentimos assombrados pela realidade inegável que esta obra ficcional apresenta.

Em relação as atuações, eu confesso que fiquei surpresa de não ter visto John David Washington indicado na categoria de melhor ator. No entanto, Adam Driver, o seu parceiro que representa muito bem o policial veterano que já não se importa muito com as coisas (mas que no fundo todo mundo sabe que ele se importa sim), levou a indicação de melhor ator co-adjuvante. Só não conto muito que ele leve a estatueta para casa, porque ele ainda não chegou a ganhar em nenhuma das outras premiações a qual ele foi indicado. Por fim, vale comentar a trilha sonora do filme que também está impecável, envolvente e irônica. Ela conseguiu despertar os sentimentos certos dentro de mim em cada cena.

Em suma, seja pela magnífica e poderosa menção ao Linchamento de Jesse Washington ou por meio da inter-relação de cenas do atentado cometido quando um grupo de protestantes se posicionavam contra uma passeata de Charlottesville que clamava por diversos ideais defendidos pela própria Ku Klus Klan, voltando, ainda, para o discurso absurdo do atual presidente dos Estados Unidos, este filme cumpre com seu papel social. Muito mais do que entretenimento, muito mais do que uma obra realizada para garantir que o tempo de pessoas específicas seja gasto com qualidade, este filme, muito mais do que pedir, clama, instiga, força o espectador à se posicionar, a refletir sobre o mundo a sua volta e compreender que não se pode mais baixar a voz ou calar-se quando pensamentos e eventos como esses seguem acontecendo ao redor do mundo. Acredito que o toque especial de Lee, nessa história, está em sua pegada cômica e sarcástica para criticar toda uma cultura racista que, apesar de diversas lutas, ainda se perpetua em nossa sociedade.

Por tratar-se de um filme tão importante, além de ter gerado uma quantidade considerável de debate e reflexões, esta crítica apresenta-se como um texto conjunto, escrito em duas mãos. Aqui as percepções da Dani se mesclam às reflexões da Bel, mas no fim o que fica é todo nosso carinho pelo longa, além de sua relevância inegável!


BLACKKKLANSMAN

Lançamento: 22 de novembro de 2018
Elenco: John David Washington, Adam Diver, Laura Harrier, Topher Grace
Gênero: comédia, drama, policial
Direção: Spike Lee

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