Acredito que, após redigir uma quantidade razoável de resenhas voltadas às obras de Aldous Huxley, não seja surpresa para nenhum leitor frequente do Estante Diagonal que possuo um carinho enorme por cada história escrita e publicada por esse autor. É verdade que não irei sossegar até o momento em que for capaz de dizer, com todas as letras, que realizei a leitura de todos os livros já publicados por esse escritor maravilhoso, porém, enquanto este dia não chega, sigo a passos lentos, descobrindo minhas narrativas preferidas e compartilhando cada uma delas com vocês.
Nesse contexto surge O Gênio e a Deusa. Considerado um dos melhores romances escritos por Aldous Huxley, e também um de seus últimos, esta breve narrativa irá nos apresentar John Rivers, um pesquisador que, ao longo da juventude tornou-se aprendiz e auxiliar de um dos mais importantes físicos da época, o excêntrico, temperamental e, por vezes infantil, Henry  Maartens. Criado pela mãe viúva e fortemente instigado a seguir os princípios e pensamentos religiosos desta, John era inocente, ingênuo e consumido por uma visão de mundo prestes a se chocar com a diversidade de pensamentos e posições observadas no ambiente acadêmico e familiar de seu tutor.

“O problema da ficção […] é que ela faz muito sentido. A realidade nunca faz sentido”

Ao ser convidado por Maartens, o jovem aprendiz logo recebe acomodações e passa a viver na casa em que o brilhante físico divide com sua esposa Katy e seus filhos Timmy e Ruth. Partindo deste ponto, a narrativa formulada por Aldous Huxley nos levará por entre acontecimentos cotidianos vivenciados por membros da família; demonstrará o choque de crenças e pensamentos vivenciado por John na medida em que percebe as nuances de personalidade de cada personagem com quem passa a conviver; ressaltará o processo de amadurecimento de uma jovem que, ao modificar e descobrir novos gostos e possibilidades, lança-se também a sua primeira frustração amorosa; e por fim, como em um piscar de olhos, leitor e personagem principal se encontrarão em meio à uma trama de traição e tragédia, não esperada pela pessoa que vos fala.

Apesar de todo o meu carinho pela mente criativa e aguçada de Aldous Huxley, considero importante ressaltar que O Gênio e a Deusa posiciona-se muitíssimo longe de minha lista de obras preferidas. O romance é bem escrito, sua narrativa é interessante, as situações em que se encontram os principais personagens desta trama escondem pequenas mensagens e momentos de reflexão, contudo, minha experiência de leitura aproxima-se do que poderíamos chamar de neutralidade ou indiferença. Do início ao fim, transformei-me em mera observadora, nunca sentindo qualquer arrebatamento pelos acontecimentos que me foram expostos. Não houve, como no caso de outras obras que li do mesmo autor, uma conexão com os eventos, personagens ou críticas estabelecidas.
Por motivos que não serei capaz de explicar ou mesmo detalhar, uma vez que não encontrei qualquer defeito ao longo da construção da narrativa, exposição de críticas e pensamentos ou mesmo aprofundamento de personalidades, esta obra não trouxe consigo um sentimento de curiosidade por descobrir como tudo termina, de apreensão ou mesmo dúvida com relação as escolhas do personagem principal, ela foi somente uma leitura interessante de um autor que muito admiro e, dentre tantas mensagens e reflexões que poderia destacar nesta resenha, existe apenas uma que realmente me instigou e alegrou.
Ao longo de suas primeiras páginas, estendendo-se até determinado ponto da narrativa, o autor explora de maneira divertida, reflexiva e, por vezes irônica, o conceito de ficção, bem como sua extensão por entre os mais diversos aspectos da realidade. O que se delineia aqui, muito mais do que delimitar o conceito de ficção como normalmente a compreendemos, seja por meio de livros, filmes ou jogos de computador, é a verdadeira inserção da ficção no contexto da vida cotidiana. Trata-se de nossa habilidade de modificar narrativas humanas, transformando-as em ficções muito mais fáceis de serem consumidas, trata-se de alterar histórias com o intuito de possibilitar ao receptor um maior fascínio pela trajetória desta ou daquela personalidade, trata-se, verdadeiramente, de lançar ao leitor deste livro a oportunidade de reconhecer que em meio a sua existência encontram-se uma quantidade inimaginável de ficções que, por serem tão comuns, muitas vezes não somos capazes de perceber.
Desta forma, embora minha experiência de leitura não tenha gerado grandes reflexões ou conexões com a narrativa que me era exposta, ainda fui capaz de perceber os  elementos que tanto me agradam na mente e escrita de Aldous Huxley. É sua capacidade de inserir críticas e pensamentos diversos, voltados ao mundo real, caótico e confuso em que vivemos, dentro de uma história de ficção, que me fazem retornar para suas obras. É sua maneira de direcionar uma trama para eventos que não esperava, de demonstrar seu próprio conhecimento e visão de mundo, que me agrada tanto nos livros do autor. E no fim, é a forma como, mesmo quando não encontro o brilhantismo que gostaria de encontrar, mesmo quando não sou capaz de criar conexões com a história que me é apresentada, mesmo quando a experiência de leitura não me possibilita construir uma resenha aprofundada e instigante da forma como desejaria, que passo a amar ainda mais este autor.
Assim, finalizo afirmando que não precisamos amar e nos encantar com todas as obras que um escritor favorito escreveu. Se formos capazes de seguir amando suas palavras, criticar seus erros (quando eles ocorrem), levantar nossa opinião e os possíveis motivos pelos quais a leitura não seguiu como o esperado, estaremos realizando o verdadeiro papel de leitores. Esta pode não ter sido
minha melhor resenha, minha melhor crítica, minha melhor experiência com o  autor, mas sigo indicando suas obras e tenho certeza de que, enquanto O Gênio e a Deusa não foi capaz de me agradar, ele pode vir a tornar-se favorito de outra pessoa que não eu.

Título Original: The Genius and the Goddess
Autor: Aldous Huxley
Tradução: Fábio Bonillo
Ano: 2018
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 128
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