Uma jovem irlandesa, no ano de 1859, fica famosa na sua pequena cidade, ela não precisa se alimentar. Bom, pelo menos não com alimentos físicos, a única coisa que fornece energia para que ela caminhe, fale, corra e consiga ainda ficar em pé é a fé. Ela passa os dias rezando junto com o pároco e sua mãe. A história começa a ficar famosa, primeiro na pequena cidade onde todos conhecem a pequena Anna O’Donnell, mas agora pessoas de outras cidades vão até Athlone, onde Anna mora. Pessoas de fora da Irlanda, que nunca ouviram falar no nome daquela cidade, passam horas em trens para chegarem até ela e ver a garota acenar da janela do seu quarto.

Mas nem só de fiéis é feito o mundo, aliás o mundo é cheio de céticos e aquela história parecia estranha e pouco confiável para muitas pessoas, principalmente quando ela passou a viajar pelo Reino Unido e chegou até Londres, onde a enfermeira Lib Wright fora contratada para ir até a pequena cidade irlandesa conhecer uma família específica. Ela ficaria hospedada na casa da família e teria que fazer anotações sobre uma menina que morava no local. Sem saber nada sobre a história, Lib aceita o desafio e faz uma longa viagem até Athlone para conhecer a família O’Donnell.

O trabalho de Lib seria muito bem remunerado e extremamente simples, não deixar a garota comer nada, se certificar de que de forma alguma ela recebesse comida escondida e anotar as mudanças no corpo da garota durante o andamento dos dias.

A enfermeira Wright conheceu a família e rapidamente deixou claro que passaria as noites em claro, e se fosse preciso sequer dormiria para ter certeza absoluta que nada seria dado a menina. Sua postura é de extremo profissionalismo e ela inclusive não dá qualquer abertura para que haja algum tipo de aproximação entre Anna e ela, cortando friamente as perguntas feitas sobre sua vida e qualquer outro indicativo de que Anna gostaria que a mulher que estava a vigiando se tornasse uma amiga.

Esse é o enredo da história contada por Emma Donoghue, uma escritora de romances e peças de teatro nascida em Dublin, que ficou famosa no mundo inteiro quando seu livro Quarto foi adaptado para o cinema sob o nome de O Quarto de Jack, que acabou recebendo várias indicações ao Oscar, dando à Brie Larson o prêmio de melhor atriz.

O estilo literário de Emma é exatamente o que mostra o filme de O Quarto de Jack, suspense com um teor psicológico muito forte, principalmente por tratar de pontos polêmicos, ligados ao relacionamento familiar. É exatamente esse o estilo do livro O Milagre. O fato de ser verdade ou mentira a história de Anna O’Donnell, vira algo secundário a partir do momento em que Elisabeth, a enfermeira, passa a conviver na casa e ver a maneira como a mãe trata a filha, a maneira como é importante para a mãe que a filha não coma. Você consegue imaginar isso? Ser mais importante para a genitora de um ser preferir que ele não se alimente para que sua fé seja provada realmente, ou será que a fama é ainda mais importante que a fé?

A história é incrível, muito bem descrita e bem ambientada. Você tem a real impressão de estar vendo Anna pelos olhos de Lib, mas com sentimentos completamente diferentes do que a enfermeira demonstra. Você parece estar vendo a cena, mas quando a garota é tratada com frieza por Lib você começa a acha-la arrogante, cruel, má, mas com o tempo vai entendendo o porquê da postura profissional da enfermeira. Isso faz com que o fato dela deixar de ser profissional em determinada parte do livro, torne a mudança mais importante, você sente a dor de ver uma profissional, inglesa, séria, honesta, cética, que está ali para provar que a fé que aquela família gera é completamente fictícia, precisar deixar todo esse profissionalismo de lado, para resolver o problema de alguém que ela julga estar enganando milhares de pessoas.

Tanto em Quarto como em O Milagre, a evolução dos personagens criados pela autora é indescritível, a maneira como elas crescem na história, como se fragilizam, como mudam de postura e como mudam de pensamento é extremamente bem controlada, o que torna essas modificações muito críveis, principalmente porque elas também tem os sentimentos refletidos em quem está lendo o livro.

Não preciso nem dizer que não se emocionar com esse livro é praticamente impossível, o final é simplesmente extraordinário, as personagens que terminam a trama são cem por cento diferentes daquelas que a iniciaram, sem contar que o tema principal, saber se Anna realmente consegue se alimentar somente da fé, se torna completamente secundário. A briga ali é por coisas muito maiores, mais importantes e vitais do que a fé ou o alimento.

Já admirava Donoghue, mas ver que em outra obra ela conseguiu empregar novamente uma das melhores características do livro anterior em outra obra sua, me fez virar um grande fã da autora, e sem dúvida vou em busca de mais obras suas. A parte boa é que ela possui muitos livros, são mais 8 novelas além dessas duas, depois de O Milagre ela já lançou mais um livro, chamado The Lotterys Plus One, que conta a história de Sumac Lottery, uma garota de 9 anos que vive em uma família com muitas crianças e animais de estimação, que recebe a notícia de que o avô com demência está vindo morar com a família. Deve ser mais uma obra incrível falando sobre comportamento e preconceito, não vejo a hora dele chegar ao Brasil.

Mas e você, já conhecia Emma Donoghue? Já assistiu ao filme O Quarto de Jack? Bom, se a resposta para essas duas questões for não, então não perca tempo, vá atrás das obras dessa incrível escritora e grave bem o nome dela, pois em breve teremos mais best-sellers dela.


Título Original: The Wonder
Autora: Emma Donoghue
Tradução: Vera Ribeiro
Ano: 2018
Editora: Record
Páginas: 266
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