A princesa salva a si mesma neste livro foi lançado de forma independente pela autora Amanda Lovelace, em 2016. A ideia era externar todos os sentimentos que a moldaram, desde a sua infância a vida adulta. Neste trecho, percebemos que dentre tantas mulheres, Amanda foi também uma criança com uma infância difícil, que também precisou lidar com perdas, que vivenciou situações traumatizantes, mas que também conseguiu encontrar a cura no meio de todo este processo. Não demorou muito para que o livro virasse o primeiro de uma série chamada As mulheres têm uma espécie de magia e que fosse republicado por uma editora e ainda levasse prêmios importantes para casa.

Este primeiro volume é um livro de memórias, dividido em quatro partes, sendo “princesa”, retrato da infância da autora, “donzela” de sua adolescência e “rainha” a fase da vida adulta. A última parte, intitulada como “você”, diferentemente das outras partes que são mais biográficas, possui uma perspectiva mais ampla da mensagem para as mulheres. A intensão de Amanda é clara logo nas primeiras páginas, aqui ela falará sobre empoderamento, crescimento pessoal, encorajamento e amor, mas sem deixar de falar sobre um lado mais obscuro de sua vida, comentando sobre relacionamentos abusivos e a sua luta com a autoestima. Ela detalha todo o processo que é crescer e virar uma mulher, considerando o seu próprio tempo, todos seus momentos de superação diante as dificuldades que a vida impõe e a dedicação necessária que ela precisou adquirir para conseguir conhecer a si mesma.

Dos contos de fadas que crescemos almejando desde crianças à realidade crua e verdadeira do século XXI. Em seus versos a autora usa uma linguagem direta, moldando em poesia todas as sensações, sentimentos, dificuldades e glórias que é ser mulher e poder lutar e escrever sobre sua própria vida.

Como disse antes, por ser tratar de uma obra autobiográfica, é impossível não se conectar com Amanda. Aqui ela falará sobre todas suas perdas, suas dores, conquistas e inspirações também. É tudo muito delicado e emocionante, é o cotidiano de muitas mulheres retratado da forma mais íntima e acolhedora possível no formato das palavras. Sem dúvidas, A princesa salva a si mesma neste livro foi o primeiro ato de protesto e o primeiro grito que Amanda deu para o mundo, onde ela mesma diz que pode tomar as rédeas de sua vida e ser independente, uma mulher para ser ouvida, ou lida.

Talvez Amanda Lovelace não tenha percebido num primeiro momento que falar sobre sua vida e sobre a vida de tantas outras mulheres em seus textos tenha sido um ato feminista , mas a verdade é que a realidade de hoje exige que cada vez mais formas de interpretar o que significa, de fato, ser mulher ao longo dos séculos precisa ser disseminado, desmistificado e abordado dentro e fora da literatura. Sua obra ganhou notoriedade por possuir um olhar sincero sobre o feminismo, sem brechas para a má informação e o que representa esta luta.

E se no primeiro volume Amanda encontrou sua voz, no segundo ela a usa de uma forma ainda mais contundente. Trazido também pela Editora Leya, A bruxa não vai para a fogueira neste livro não possui uma linguagem tão próxima a vida da autora, mas acerta por continuar trazendo a identificação para tantas mulheres. O livro falará sobre temas ainda mais pesados, como abuso infantil, relacionamentos abusivos, distúrbios alimentares, estupro, entre outros. Todos citados logo no início do livro, afinal, ser alertado sobre gatilhos é o primeiro passo para que nós mesmos nos cuidemos, uma preocupação da autora. Também separado em quatro partes, sendo elas “o julgamento, “a queima”, “a tempestade de fogo” e “as cinzas”, a mensagem principal é o sentimento de luta e a busca por direitos igualitários dentro de uma estrutura criada pelos homens ao longo dos séculos.

É diante disso que, se analisarmos a construção da obra por um viés histórico, temos a representação de todas as mulheres que ousaram levantar a voz. Quantas mulheres realmente foram perseguidas e levadas a fogueira, simplesmente por serem consideradas fora dos padrões, por serem consideradas uma afronta ao que se imaginava como correto? Durante toda a narrativa deste segundo volume, a autora faz uma certa analogia, reutilizando este modelo de “bruxa” como uma forma de resgatar o que há de mais poderoso nas mulheres, deixando pra trás todos os conceitos enraizados por séculos de patriarcado.

Este é um chamado para que utilizemos este fogo jogado contra as mulheres para incendiar o mundo com informação e com um grito de igualdade. A união de todas as mulheres contra as mais variadas formas de violência e opressão. Inclusive, a autora afirmou em uma entrevista que este livro nasceu como o seu próprio #MeToo, protesto que surgiu em forma de hashtag e utilizado por grandes celebridades hollywoodianas em apoio as mais de 20 mulheres que denunciaram o produtor Harvey Weinstein por assédio sexual na mesma época.

Nerd assumida, a autora se utiliza de muitas referências da cultura pop e que conversam exatamente com o que ela quer passar em seus textos. Como o exemplo de Harry Potter e Katniss Everdeen na dedicatória dos livros já lançados. Harry por inspira-la e por ser o menino que sobreviveu e Katniss por ser a própria garota em chamas em representação do que é inflamar o mundo – mesmo que seja apenas na literatura. Ao longo dos textos também podemos encontrar outras homenagens como o caso de um dedicado inteiramente a June, personagem protagonista de O Conto de Aia, criada por Margaret Atwood.

Por fim, não é como se Amanda fosse a mulher mais empoderada do mundo, dona de si e imune a qualquer coisa. Não. Ao longo de seus textos, mesmo aqueles onde ela parece vencer, é possível perceber sua vulnerabilidade, sua luta continua para se amar, para continuar lutando contra seus próprios demônios. E tudo bem. É importante ela também revelar sua face mais frágil, pois todas somos assim. Há dias em que estamos prontas para dominar o mundo e outros em que tudo parece desabar novamente. É isso que nos faz humanos e este foi uma das características que mais gostei ao conhecer a autora, ter a certeza que não existe perfeição, mesmo para as mulheres que inspiram outras mulheres.

Não há como concluir este texto sobre Amanda Lovelace sem falar de Rupi Kaur, autora de Outros jeitos de usar a boca e O que o sol faz com a flores, publicados pela Editora Planeta do Brasil. Comparadas devido a suas formas de expressão, ambas conquistaram o público por falarem de temas tão importantes no formato da nova poesia, com uma linguagem contemporânea e que conversa diretamente com um público de todas as idades.  Há quem diga que ambas não são dignas de comparação, devido a qualidade da escrita de uma com a outra, mas seja uma obra focada mais no público maduro ou no juvenil, o que importa é que  todas as situações retratadas nas páginas destes livros, tenham elas sido vividas pelas autoras ou por alguém próxima a elas, são tão próximas do que todas nós, mulheres, vivemos, que não há como não imaginar que certas passagens são para mim, para minha irmã, mãe ou sobrinha. Se vale como uma leitura para reflexão, este é o mérito.

Vale dar a dica de que, se você domina a língua inglesa, cotejem também a versão original dos poemas, pois muito se perde na tradução em questão de harmonia e afins, independente é claro, do trabalho incrível que a tradutora Izabel Aleixo fez em ambas as edições.

A princesa salva a si mesma e A bruxa não vai para a fogueira são mais do que obras escritas por uma mulher, que falará sobre mulheres e que apenas mulheres poderão ler, mas sim uma mensagem para todas as pessoas, humanas e empáticas, que gostariam de ver e construir um mundo melhor. Talvez seja esta a oportunidade que você precisa para começar a enxergar seus próprios atos de forma diferente.

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