Emily Carroll é uma autora de quadrinhos de horror e suspense premiada, que começou criando histórias curtas em 2010. Em 2014, após várias publicações, ela lançou uma antologia com cinco de suas histórias, chamada Throught the Woods, que agora está chegando no Brasil pela Darkside Books. Vale lembrar que a obra original já foi resenha aqui no site e você pode conferir a primeira resenha aqui.

Floresta dos Medos entrega os tipos de histórias que há muito tempo eu não me envolvia. Carrega uma atmosfera tão sombria, densa e carregada das mais variadas sensações, que após sua leitura, foi impossível não sentir um certo medo quando me aconcheguei na minha cama a noite. Não é nada que te dê sustos nem nada do tipo, até porque não existem jumpcares em livros. Mas existe sim outras formas de assustar, de forma igual ou tão mais convincente daquelas que encontramos em filmes. Construir uma narrativa onde o medo do desconhecido é explorado, o medo daquilo que as vezes não podemos tocar e nem ver, é sem dúvidas um trabalho que se diferencia nos detalhes.

A arte de Emily Carroll exprime bem isso. Ao longo de suas cinco histórias, seu traço percorrem paisagens tenras às mais bizarras. Todos os contos são de horror e como um todos, os quadros são belíssimos. A narrativa te conduz para o próximo, fazendo com que, mesmo que você não tenha muita experiência com este formato de leitura, você tenha uma ótima experiência. É literalmente como se Emily te pegasse pela mão e te levasse para dentro desta floresta e por este motivo que sua arte é tão poderosa.

A escolha das cores contribuem também. O vermelho, o azul e o amarelo são as cores que mais se destacam e se manifestam de acordo com o desenrolar das tramas. A vermelha, principalmente, está diretamente ligada a uma cena importante do enredo proposto e destaca algum momento que algo acontece ou que devemos prestar mais atenção.

Percebi que as histórias focam em relações, a de um pai com as filhas, um casal e um casamento arranjado, a relação de dois irmãos e também a de duas amigas, todas permeados de suspense e situações que colocam em dúvida o ceticismo do leitor e desperta seu imaginário. Dentre os contos, as que mais me surpreenderam foram A Casa do Vizinho e O Ninho, este último, inclusive, senti uma boa influência de quadrinistas japoneses. Mas como meu catálogo de quadrinhos é muito limitado, pode ter nada a ver. Na real, é possível perceber que, como alguns contos são inspirados nos antigos contos de fadas, como “chapeuzinho vermelho”, há muita referência de grandes nomes da literatura no trabalho de Emily Carroll.

A edição é composta também por um prelúdio e ao final temos uma conclusão. É através deles que percebemos que o fio condutor de todos estas histórias é a floresta. A floresta que ronda estes personagens e está presente diretamente ou indiretamente nas tramas. Tudo que a assola, a escuridão, o silêncio, contribuem para que a atmosfera de cada história seja recheada de coisas estranhas e misteriosas, fazendo seu sangue gelar no menor ruído. A floresta é o personagem que irá fazer com que você faça exatamente o que Carroll (provavelmente) maquinou. Pense, enxergue, crie teorias, viaje.

Com uma bela edição, com histórias curtas que exploram os mais diversos medos e com a atmosfera acertada para fisgar qualquer leitor, os contos góticos de Emily Carroll me encantaram. Ela conseguiu despertar em mim uma reação muito positiva, fazendo com que eu refletisse sobre cada história e tentasse enxergar além do que tinha visto. Se me aprofundar ainda mais, pode até enxergar outros tipos de fantasmas, como o luto, a inveja, a culpa, entre outros, sendo retratados e que nos acompanham, mas isso depende muito da ótica de cada leitor. Mas o que este tempo como leitora me ensinou é que nem sempre todas as nuances da obra estão ali bem claras, e nem precisam estar.

Por fim, sabe aqueles medos “bobos” que você tinha na sua infância? Aquele receio de ficar sozinho em casa, de levantar de madrugada para pegar água ou aquela necessidade de apagar a luz do banheiro e sair correndo depois disso? Toda esta magia vem à tona novamente e quando você percebe já está rendido a uma leitura primorosa e brilhante. Ao final tive que concordar com a sinopse quando percebi que este é o tipo de leitura que te proporciona as sensações mais estranhas, ao ponto que chega difícil explicar. Eu sinceramente nem sei se consegui compartilhar algo nesta resenha, mas se esta leitura tinha o objetivo de me confrontar com certos medos e cutucar o meu lado mais cético, com certeza ela conseguiu.


Título Orginal: Throught the Woods
Autora: Emily Carroll
Tradução: Bruna Miranda
Ano: 2019
Editora: Darkside Books
Páginas: 208
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