Você gosta de livros de fantasia? Gosta de histórias cheias de lutas, batalhas, sangue e feitiços? Gosta de livros com o cenário medieval e repleto de princesas, príncipes, reis e magos? Você já ouviu falar em Robin Hobb, Scott Lynch ou em George R. R. Martin?

E o que você diria se eu contasse que em um livro apenas, você poderia encontrar nada menos que 16 histórias diferentes, de 16 autores diferentes? Em Crônicas de Espada e Feitiçaria, Gardner Dozois, reuniu os maiores nomes da fantasia mundial e montou uma coletânea de contos incrível.

Dozois, que infelizmente faleceu em maio de 2018, foi durante anos o editor chefe da Revista Azimov, uma publicação americana, conhecida mundialmente por ser o ponta pé inicial para grandes nomes da ficção cientifica e da fantasia. O sistema é bem interessante: o escritor manda seu conto para a editora, que avalia ele e o publica caso o conto seja bom, quando o escritor passa a ter publicações seguidamente, seu nome cresce no mercado e ele começa a atrair os olhos de grandes editoras. A revista é publicada dez vezes ao ano, normalmente mensal, a não ser pelas edições de abril e maio e outubro e novembro, que são duplas e lançadas apenas em um dos dois meses. Ela é extremamente bem-conceituada no mundo inteiro, fazendo nerds irem até bancas de revistas atrás dela. Infelizmente ela não é traduzida ou publicada aqui no Brasil.

O livro é muito bem editado, tem uma capa incrível, com arte de Marc Simonetti, e começa logo com um conto de tirar o fôlego, escrito por K. J. Parker, escritor que eu não conhecia, que é muito falado no mundo dos contos fantásticos e vencedor de diversos prêmios nesse segmento. O conto de Parker é seguido de uma indescritível obra de Robin Hobb, a escritora de A Saga do Assassino, muito bem vendida no mundo inteiro, e que teve publicada no ano passado aqui no Brasil O Navio Arcano, o calhamaço que dá início da trilogia Os Mercadores de Navios-Vivos.

Os outros autores, em sequência, são Ken Liu, Matthew Hughes, Kate Elliott, Walter Jon Williams, Daniel Abraham, C. J. Cherry, Garth Nix, Ellen Kushner, Scott Lynch, autor por sinal do melhor conto, Rich Larson, Elizabeth Bear (outra que traz um conto esplendido), Lavie Tidhar, Cecelia Holland, e, para finalizar com chave de ouro, um conto do universo de As Crônicas de Gelo & Fogo, produzido pelo próprio George Martin.

Contos têm uma construção muito peculiar, bem diferente de livros completos que contém apenas uma história, eles não contam a vida inteira dos personagens, você não vai saber informações sobre idade, onde nasceu ou com quem vive, na maioria das vezes, esses detalhes passam como informações rápidas e dispensáveis, já que a maioria dos contos tem entre 20 e 30 e poucas páginas. O maior espaço do livro fica por conta do próprio George Martin, que tem mais de 50 páginas a sua disposição. Em contra partida, todas as histórias são repletas de ação, todas contam com batalhas muito penetrantes, lutas bem descritas e, em sua maioria, com uma ambientação bem detalhada.

A sensação que eu tenho quando leio contos é de que sou largado no meio de uma história que já está em andamento, e não acho isso prejudicial, quero que aquela história que será contada para mim seja bem elaborada, tenha início, meio e fim, e em todos 16 contos isso acontece. Algumas histórias são sim mais fracas que outras, você nota que alguns autores tem uma qualidade maior. Tive muito medo de me decepcionar com alguns autores que eu já conhecia, mas que nunca tinha tido a oportunidade de ver como se saiam com contos, como no caso de Hobb, mas isso não ocorreu, seu conto é simplesmente maravilhoso, assim como o de Lynch e o de Liu, os quais eu já conhecia o trabalho através de obras completas, esse medo eu não tinha em relação a George Martin, já que é bem comum eu ter mais contato com os contos dele.

A construção da obra é muito legal, Dozois nitidamente inicia com autores conhecidos e consagrados no meio fantástico, deixando o leitor extremamente animado, como se levasse fortes “punchs” de fantasia plena, na sua forma mais bem elaborada, depois ele insere alguns autores não tão conhecidos do público em geral, como Cherryh e Larson, mas que também são bem interessantes e tem contos muito bons. O organizador não se preocupa em estruturar os contos para que tenham coisas haver ou que abordem o mesmo assunto, senti uma organização mais inclinada para o peso do nome e da qualidade de quem escreve cada conto, para que o leitor não perca o interesse pelo livro como um todo entre um conto e outro.

Não vou falar aqui sobre cada um dos 16 contos, pois minha ideia é passar o tema central e a estrutura dessa obra de fantasia para instigar os leitores a irem atrás dessa coletânea de mais de 500 páginas, porém não poderia deixar de comentar sobre o conto que mais me agradou, e olha que a escolha não foi fácil, a maioria deles são bem interessante e imersivos, mas o título de melhor conto para mim fica com A Fumaça do Ouro é Glória. A história é de um valente rapaz que conta sua façanha em busca do tesouro guardado por um dragão, a história é incrível e a narrativa é sem igual, o que mais me chamou atenção é que o autor une muitos feitiços, muita magia, criando cenas dignas de uma grande história de RPG.

Outra coisa bem legal na estrutura que foi criada pelo editor é o fato de cada início de conto haver uma apresentação bem bacana sobre o autor, relatando quem ele é e falando dos prêmios que já ganhou e de suas principais obras. Obviamente, a de George Martin é a mais extensa, já que ele é o grande nome do trabalho.

Acho o livro indispensável, sem defeitos, mesmo que alguns contos sejam mais arrastados e outros não tão bons, mas o fato é que ele entrega em todos o que promete no título, Espadas e Feitiçaria, e se você gosta de universos criados a partir dessas duas premissas será impossível não gostar desse livro. O mais bacana em livros de contos é que você não precisa lê-los de uma só vez, você pode ler um conto por dia, pode intercalar com outras leituras e também pode pular aquele conto que não está muito agradável.

Para finalizar, uma curiosidade bacana, apesar de não ser comum esse tipo de revista que publique contos aqui no Brasil, temos uma publicação bem próxima à “Azimov” americana. A revista Dragão Brasil há muitos anos publica contos de escritores brasileiros em suas páginas, um grande exemplo de quem começou publicando contos nesse livro é o nosso incrível Leonel Caldela, que até hoje ainda lança alguma coisinha por lá as vezes. Gostou da notícia? Quer saber mais? Dê uma olhada nesse projeto incrível, que iniciou lá em 1994 pela Editora Trama e hoje é lançado pela Editora Jambô.

Então, tá afim de embarcar em uma viagem cheia de histórias sobre Espada e Feitiçaria?


Título Original: The Book of Swords: Part 1 & 2
Autor: Gardner Dozois
Tradutor: Alexandre Martins e Paulo Afonso, Maria Helena Rouanet
Ano: 2018
Editora: Leya
Páginas: 512
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