Em 2011 uma produção inglesa de título curioso, abordagens sombrias e temáticas demasiado inusitadas para os padrões reconhecidos por entre os seriados de sucesso consumidos ao redor do mundo, conquistou espaço na mente de espectadores chocados, da mesma forma com que se tornou um atrativo para atores, grandes produtoras e serviços de streaming. Black Mirror, com suas críticas ferrenhas, narrativas assustadoras, mundos distópicos inspirados em nossa dependência cega na ciência e tecnologia, possuí a honrada missão de lançar ao espectador a possibilidade de refletir sobre o mundo que o cerca. Ao longo de 23 episódios distribuídos por entre 5 temporadas, observamos cenários lamentáveis onde o verdadeiro culpado é a humanidade e todos os sistemas, produtos, aparatos e programas que elaborou ao longo de suas jornadas de sucesso.

Com uma dinâmica diferenciada onde cada episódio será responsabilizado por introduzir novos mundos, contextos, desafios, críticas, personagens e narrativas, o seriado trabalha com as mais diversificadas temáticas e visões, assim, direcionando o receptor à uma quantidade inimaginável de visões críticas com relação aos eventos, ambientações e sistemas que, muito mais do que ficção,
estão intimamente ligados a realidade de nossa própria sociedade. A atmosfera, ou posicionamento que permeia grande parte das histórias construídas, contudo, destaca-se pela visão negativa do futuro humano, demonstrando muito mais nossos erros, equívocos, síndrome de grandeza, cegueira e atitudes duvidosas do que possíveis saídas e desfechos que disponibilizem o mínimo de esperança.

O posicionamento geral de Black Mirror é negativo e distópico, portanto, as narrativas encontradas tendem a assombrar o espectador após sua finalização justamente por demonstrarem o lado mais sombrio da humanidade. Por não possibilitar qualquer resquício de esperança, por, com uma frequência considerável, buscar chocar o espectador ao levar ações, cenários e mundos às  últimas consequências e, por muitas vezes apresentar-se tão negativo e distante de qualquer visão minimamente positiva do futuro, é que não consigo me identificar, acompanhar e assistir mais do que um episódio num período de vários meses. Não se trata de não compreender a lições, mensagens e reflexões por trás de cada narrativa. Não quando passei um período de dois anos estudando e pesquisando exatamente as mesmas temáticas e histórias, os mesmos princípios da distopia e ficção científica, as mesmas teorias que dão base a criação do seriado. Mas do receio que tenho de que, ao finalizar um episódio ou temporada, o espectador perceba-se tão absorto, chocado, assombrado pelas coisas que viu, que diversas possibilidades de debate e reflexão sejam perdidas em meio aos cenários complexos, profundos e sombrios destacados pela série.

O que Black Mirror pretende é levar nossas atitudes, costumes e sistemas até as drásticas consequências, ressaltando por meio delas os erros que cometemos, bem como os elementos tão intrincados em nossa sociedade que muitos seguem despercebidos. Não se trata apenas de delinear as nuances da dependência de redes sociais, ou do que aconteceria caso produzíssemos uma réplica “perfeita” e verdadeiramente inumana de um amor perdido, mas de imaginar como a sociedade se comportaria, quais leis seriam refeitas, quais comportamentos seriam modificados, como tudo o que fazemos e consideramos normal poderia transformar o futuro em algo inegavelmente distópico.
Apesar de meu receio com relação a assimilação das mensagens transmitidas, de minhas ressaltas se o choque e a construção de mundos negativos realmente seriam a melhor forma de direcionar o espectador a reflexão acerca da realidade, o seriado é impecável em todos os sentidos. Os personagens e situações propostas impulsionam os atores pertencentes ao elenco selecionado a darem o melhor de si (com breves exceções). Os cenários e ambientações transportam o espectador para outros mundos, sejam estes sombrios até o âmago, claustrofóbicos e modernistas ou delicados e coloridos, escondendo assim a sujeira por meio de sorrisos e tons pastéis. Desde a direção de filmagem, fotografia, edição e trilha sonora, tudo é pensado para encaixar-se à mensagem que se pretende transmitir, permitindo uma análise ainda mais detalhada dos elementos inseridos para além da trama e levando espectadores concentrados e detalhistas a reflexões muito mais profundas sobre o que acabou de vivenciar.

Black Mirror é uma série curiosa, inusitada para os padrões comumente elaborados pelas gigantes produtoras de entretenimento, porém, sua principal missão é refletir e criticar o mundo em que vivemos, atingindo o que defendo como um dos principais objetivos de qualquer história de ficção científica e distopia, que é imaginar para quais futuros nos levariam os caminhos confusos e duvidosos que trilhamos, hoje, enquanto sociedade.
Para aqueles que nunca tiveram qualquer contato com o seriado mas pretendem conhecer suas histórias, desvendar suas mensagens e, com o tempo, descobrir os detalhes e teorias que balizam suas narrativas, ofereço dois conselhos de amiga. O primeiro é simples e direto, evite o primeiro episódio da primeira temporada caso não queria receber uma história criada com o principal intuito de chocar o espectador. O segundo trata-se mais de uma recomendação, caso não queira ser assolado por grandes ondas de pessimismo e negatividade com relação a própria humanidade, inicie sua trajetória por meio do primeiro capítulo da terceira temporada, um dos que, até o momento, considero mais leve e com uma pitada de esperança.

Black Mirror

Criado por: Charlie Brooker
Com: Daniel Kaluuya, Hannah John-Kamen, Michaela Coel, Hayley Atwell, Jon Hamm
Gênero: Ficção Científica, Drama
Duração: 3 a 5 episódios – 60 minutos

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