Foi ao longo dos últimos meses de 2016 que recebi a oportunidade de realizar a leitura de A Coragem de Ser Imperfeito, primeiro livro publicado pela autora, acadêmica e pesquisadora Brené Brown. Embora meu contato com as ideias e conselhos da autora tenha ocorrido somente no final de 2016, descobri sua existência por volta do ano anterior, quando Elizabeth Gilbert tomou para si a tarefa de auxiliar na divulgação do segundo livro publicado pela autora, denominado Mais Forte do que Nunca. Uma vez que possuo amor incondicional por Elizabeth Gilbert, valorizo toda e cada ação que desenvolve com o intuito de fundamentar uma rede de apoio e relacionamento entre escritoras, e, principalmente, por confiar de forma praticamente cega – confesso que aqui estou exagerando – em suas indicações, não pude deixar de sentir certa curiosidade com relação ao trabalho realizado por Brené Brown.

Hoje, aproximadamente três anos após realizar a leitura de A Coragem de Ser Imperfeito e Mais Forte do que Nunca, sei que a autora conta com mais de 15 anos de pesquisas científicas realizadas afim de entender o conceito de vergonha e as maneiras com que esse sentimento tão poderoso e confuso age sobre os indivíduos, seguindo, até mesmo, para os domínios e regras de toda uma sociedade. Sei também que a autora realiza uma pesquisa séria, fundamentada em dados coletados a partir de entrevistas efetuadas com uma porção considerável de participantes que, ao enfrentarem seu medo e – olha a palavra mágica aqui outra vez – vergonha de tornarem-se expostos, possibilitaram que Brené Brown compreendesse o quanto somos influenciados pela vergonha, além de como as mais diversas situações podem provocar uma experiência traumática de vergonha ou, indo mais além, como a sociedade, em sua complexa relação de fatores, consolida uma cultura da vergonha perpetuada pelas mais curiosas e nocivas estratégias.

A vergonha é o sentimento ou a experiência intensamente dolorosa de acreditar que somos inadequados e por isso indignos de aceitação ou acolhimento.

Em Eu Achava que Isso Só Acontecia Comigo, a autora retoma os assuntos trabalhados nos dois livros anteriores por meio de uma nova perspectiva e recorte de pesquisa. Enquanto suas obras anteriores envolviam uma variedade de entrevistados, integrando participantes de diversas idades, pertencentes tanto ao sexo masculino quanto ao feminino, agora os esforços da autora limitam-se a compreender, aconselhar e instrumentalizar o público feminino. Deste modo, o conceito de vergonha será observado por meio de experiências de mulheres pertencentes as mais variadas faixas etárias, subdividindo-se entre alguns dos principais prismas a afetar suas vidas, relações, profissão e até mesmo autoimagem. Assim, autora e leitor direcionam-se para um percurso de análise, compreensão e desenvolvimento de estratégias capazes de instrumentalizar o indivíduo a lidar com situações de vergonha.

Porém, muito mais do que conceituar a vergonha e expor exemplos de mulheres reais cujas experiências, possivelmente, várias de nós vivenciamos em maior ou menor grau; além de delinear estratégias que facilitam a compreensão dos mais variados gatilhos e contextos em que a vergonha é experimentada ou enfatizada, garantindo nosso entendimento sobre o que ou quem é capaz de provoca-la e quais a melhores formas de lidar com os sentimentos que dela surgem, este livro realiza um trabalho maravilhoso ao salientar a importância da consciência crítica para a vida na sociedade conturbada, confusa, tecnológica e conectada atual.

Aqui espera-se que o leitor reflita, pense, interprete o mundo em que vive e as conexões existentes entre os mais inusitados fatores que, uma vez interligados, provocam situações, desafios e consequências inimagináveis. Embora voltado para o conceito de vergonha e suas ramificações, ao defender a construção de uma consciência crítica, ainda que inicialmente voltada para a compreensão de como sociedade, publicidade e sistemas institucionais fortalecem a cultura da vergonha, defende-se também a possibilidade de que cada indivíduo seja capaz de compreender as regras que fundamentam o mundo atual e, indo além, os fatores que aqueles leitores (do mundo) desavisados ou desacostumados não são capazes de relacionar.

Eu Achava que Isso Só Acontecia Comigo trata-se de uma pesquisa científica, trata-se de anos e anos de coleta de dados, de horas e horas de reflexões e interpretações, de uma espécie de livro de autoajuda que, muito mais do que melhorar sua vida agora, espera lhe fazer compreender o mundo, a sociedade, as relações e diversos fatores relacionados, voltando, sempre, para como a vergonha se infiltra em cada um deles.

Da mesma forma, esse livro trata-se de uma grata surpresa, trata-se do encontro entre uma pesquisadora de ficção científica distópica que defende a construção da consciência crítica … com uma pesquisadora da vergonha que também defende a construção da consciência crítica por parte do indivíduo, leitor ou entrevistado. É verdade que pode não ser o estilo de livro que muitos esperam ou buscam, mas, aqueles que se arriscarem por suas páginas dificilmente se decepcionarão pois vale a pena ler o que Brené Brown tem a dizer.

  • Título Original: I Thought It Was Just Me
  • Autor: Brené Brown
  • Tradução: Livia Almeida
  • Ano: 2019
  • Editora: Sextante
  • Páginas: 304
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