Quando você é criança e vive em um lar saudável, desconhece o mundo cruel e assustador que existe atrás das cercas que protegem a casa. Seus pais são o mundo todo, e a regra geral diz que eles te amam acima de todas as coisas. Você sabe que essa é a única verdade que precisa conhecer para ser feliz e acredita na promessa feita todas as noites, aquela onde mamãe e papai juram te proteger de todo e qualquer monstro que ousar se aproximar. É nesse cenário de contos de fadas que vive Peggy, uma doce menina de oito anos de idade, cheia de sonhos e imaginação.

Talvez em sua ingenuidade segura ela não tenha percebido a ausência da mãe relapsa, nem tenha sentido a mudança repentina na personalidade do pai. Sua única preocupação é viver diariamente uma aventura que parece se repetir. Ela agora dorme no quintal de casa, dividindo uma barraca velha com o pai, que fala constantemente em sobrevivência. Após o que parecem ser dias, a mãe ainda não retornou e o mundo parece mais vazio do que de costume. Então quando o pai de Peggy lhe diz que todas as pessoas do mundo morreram e que eles precisam se esconder se quiserem sobreviver, ela rapidamente pega o que é necessário e ambos partem rumo à uma jornada perigosa e cheia de segredos onde mentiras e verdades se tornam uma só.

Mas a garotinha não terá oito anos para sempre, nem será capaz de continuar crendo nas histórias contadas pelo pai. No entanto a verdade parece dolorosa demais, e isso pode levar embora o resto de sanidade que Peggy possui. Afinal, todos mentem em algum momento da vida, mas algumas mentiras são maiores que outras e tendem a machucar muito mais.

Enquanto os trovões cobriam a floresta como ondas irritadas, meu pai me contou histórias. Sussurrou-as em meu cabelo enquanto me abraçava. No entanto, muito mais tarde, fiquei em dúvida se as histórias e o que aconteceu durante a manhã tinham sido meu castigo por largar a pipa.

Dificilmente escrevo a resenha de um livro assim que finalizo a leitura, gosto de refletir com calma sobre os pontos positivos e negativos da trama e só então colocar no papel todos os sentimentos que a história me trouxe. Nossos Dias Infinitos pediu um desabafo imediato, gerou um sentimento de urgência que nem o sono na madrugada foi capaz de apagar. Eu precisava conversar sobre essa história, precisava de respostas e principalmente, queria ter encontrado uma forma de tirar da memória um desfecho que foi tão brilhante quanto terrível.  Essa resenha foi iniciada um tempo atrás, e eu ainda lembro com detalhes vívidos cada coisa que li nessas páginas. Ainda sinto necessidade de falar sobre essa história, talvez como forma de exorcizar da memória aquela percepção de  que o mundo pode ser sujo e cruel mesmo com quem não merece.

Foi isso que havia acontecido, era assim que eu me lembrava. Mas os médicos dizem que meu cérebro está me enganando, que passei muito tempo com deficiência de vitamina B e a minha memória já não funciona como deveria. (…) Eles acham que me esqueci de coisas que realmente aconteceram e inventei outras.

Com todo o cuidado do mundo, compartilho com vocês um pouco do que foi a trajetória de Peggy, uma garotinha sequestrada pelo próprio pai aos 8 anos e que cresceu em meio à floresta passando por todo tipo de privação. Privação essa responsável por uma série de problemas de saúde, incluindo uma síndrome diretamente ligada à perda de memória, que tornou a narrativa por vezes duvidosa e deu ao enredo um irresistível tom de suspense. Apesar disso, essa não foi uma leitura fácil. O primeiro ano de Peggy e seu pai na floresta é descrito com uma riqueza extenuante de detalhes. A lentidão é exaustiva em certos pontos e angustiada eu virava as páginas esperando por mais. Você sente que algo de muito errado está acontecendo ali, então é normal criar certa expectativa com aquele grande momento de revelação, quando finalmente o bicho papão vai dar as caras e comprovar suas teorias malucas. Mas a verdade é que cada autor conduz sua obra de uma maneira única e diferente e cabe a nós leitores, seres exigentes por natureza, compreender esse fato e se deixar cativar de forma inteiramente nova, mas não menos surpreendente.

Claire Fuller apostou em uma escrita delicada, fugiu dos clichês exagerados e prende não pelo choque das cenas brutais, mas pelo tom ingênuo com que a protagonista nos consta sua história. E ela nos conta amores e dissabores, mas devido à natureza nada confiável de sua narrativa é difícil discernir entre o que é fantasia e o que é realidade. Mas se eu pudesse dar apenas uma dica para quem inicia essa leitura, certamente diria para se manter atento aos mínimos detalhes. Uma frase de duplo sentido, uma palavra que à primeira vista parece mal colocada, na verdade é um indício do que virá mais para frente. Mas receio que isso não será suficiente para responder todas as suas dúvidas, e ao virar a última página, sua mente estará mais cheia do que no início da trama e é bem provável que isso te tire o sono por um tempo. O desfecho vêm para colocar o último prego no caixão da sua consciência, e não tem como descrever isso de outra forma, mas você ficará simplesmente em choque. O primeiro sintoma será a negação: “Não, isso definitivamente não aconteceu”. Para então: “Eu não acredito no que acabei de ler”.

Por fim, a única certeza que fica, é a de que essa será uma daquelas histórias impossíveis de esquecer, tão infinita quanto os dias sem data que nossa protagonista viveu.

  • Título Original: Our Endless Numbered Days
  • Autor: Claire Fuller
  • Tradução: Carolina Selvatici
  • Ano: 2016
  • Editora: Morro Branco
  • Páginas: 336
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