Macbeth | Jo Nesbo

08 dez, 2019 Por Bruno Bastos

Todos conhecem William Shakespeare, um dos maiores gênios da literatura e da dramaturgia que já existiu, um monstro em escrever peças e livros, que viveu no século XVII e serve de inspiração até os dias de hoje, quase 500 anos após o seu nascimento. E é baseado em uma de suas maiores obras que Jo Nesbo escreve seu novo livro, utilizando o mesmo nome do livro originalmente lançado em 1611, ainda como peça, encenada em Londres, no Globe Theatre.

Na história original, Macbeth é um general do reino do Rei Duncan, que ouve a profecia de três bruxas, dizendo que um dia ele será o rei daquele lugar, ele conta isso à sua esposa, a famosa, Lady Macbeth, que começa a arquitetar tudo para que a profecia se torne real e que o reino seja deles como as bruxas previram. A ideia de Nesbo era justamente recriar essa história secular, trazendo os personagens para os dias de hoje, com uma representação atual, em um cenário diferente, mas com o mesmíssimo enredo, sem alterar o começo, o meio e o final da história.

A obra de Shakespeare é uma tragédia, e não poderia fazer parte de outro gênero literário vista a quantidade de pessoas que morrem durante o livro/peça (isso não é spoiler). E quando unimos essa obra, indiscutivelmente maravilhosa, a um dos autores mais sanguinários da atualidade, a quantidade de ação, cenas fortes e gráficas se multiplicam. Um exemplo disso é a forma que o livro inicia, com uma cena bem pesada, uma perseguição de um grupo de policiais contra bandidos, traficantes chamados de Nurse Riders. Com uma ação frustrada, a gangue consegue fugir, deixando para trás um rastro de policiais mortos. A sequência em questão é eletrizante, e olha que ela é só o começo doe livro.

Porém, não só com este ponto positivo a obra de manteve. Na minha opinião, apesar de ser uma releitura, a trama não é nada original, e isso me desagradou bastante. Como disse antes, Jo Nesbo usou a mesma construção narrativa dos fatos, portanto, saber quais seriam as próximas cenas, mesmo que o autor tenha dado uma roupagem completamente diferente para o cenário, era como se a leitura tivesse spoilers de 500 anos atrás.

Em contrapartida, a ação do livro é ótima, com cenas fortes, impactantes, com muito sangue e estratégia, mas o que mais me agradou no livro realmente foi a força feminina retratada na nova Lady Macbeth. É sempre revigorante ver mulheres fortes retratadas na literatura, e saber que em 1600 houve um cara que escreveu sobre uma mulher ambiciosa e cruel, em uma época que a população jamais aceitaria que uma mulher tivesse essa posição, é realmente incrível. Talvez por isso que essa obra viva até hoje e Shakespeare seja o maior artista que já existiu.

Jo Nesbo é conhecido por seus thrillers nórdicos, com histórias duras e vertendo sangue pelas páginas, mas o que mais me atrai em seus livros é sua capacidade de descrever cenários e atmosfera do ambiente, isso é algo que valorizo demais nas obras. Em Macbeth, Nesbo segue o mesmo estilo de seus livros anteriores, ele tem a capacidade de mencionar a música que está tocando no bar ao mesmo tempo em que fala sobre a estratégia do grupo de policiais que está prestes a entrar no local, mesclando a perspectiva dos bandidos desta mesma situação que estão ao mesmo tempo que preocupados com alguma possível ação da polícia, como também apenas bebendo e jogando conversa fora.

Como grande fã do autor, este foi um dos livros que menos gostei, quem está acostumado, por exemplo, com a série do Detetive Harry Hole, que é maravilhosa, vai encontrar não só um livro fora da sequência, mas também uma obra construída de forma completamente diferente do habitual, mesmo que tenha toda sua característica impressa nas páginas. Macbeth deixa a desejar na originalidade, na construção dos personagens e no desenvolvimento, se atendo apenas aquilo que foi criado pelo escritor original da obra, mudando apenas o cenário onde a história se passa. Sinceramente, esperava mais dele, pois como já disse, sou fã do auto e ficou bem aquém do que eu estou acostumado.

O que não significa que o livro seja ruim, acho que quem conhece Macbeth, quem já leu a obra do século XVII, sem dúvida gostará de rever o livro, com outra roupagem, mas a mesma essência, bem como quem não conhece o livro de Shakespeare, pode conhecê-lo com um novo formato, moderno, realista e com toda força feminina que o original tem. Porém acho que poucas pessoas trocariam a obra original de apenas 128 páginas, pelo seu livro remasterizado, de mais de 500 páginas.

  • Macbeth
  • Autor: Jo Nesbo
  • Tradução: Marcia Alves
  • Ano: 2019
  • Editora: Record
  • Páginas: 518
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