Simone de Beauvoir é conhecida por seu papel de destaque nos movimentos feministas. Seus escritos influenciaram e ainda influenciam diversas mulheres no processo de descobrimento do que é ser mulher e de como nos tornamos mulheres. Sua obra mais conhecida é tida como a bíblia do feminismo, e tal posição gera uma série de conjecturas sobre quem de fato foi Simone. Muito já se escreveu a respeito dessa acadêmica, sobre sua vida familiar e amorosa e ela mesma já compartilhou detalhes marcantes sobre sua trajetória. Mas uma biografia não é apenas sobre quem se escreve, mas também sobre quem escreve.

Kate Kirkpatrick conhece profundamente a filosofia de Simone de Beauvoir, e já lecionou sobre esse feminismo na universidade de Oxford. Tendo acesso a materiais inéditos sobre a vida de Simone, Kate nos conduz por uma estrada de amadurecimento e autoconhecimento. Nesse livro conhecemos uma Simone vulnerável e ao mesmo tempo dona de si. Conhecemos uma mulher real, com erros e acertos, que nunca desistiu de ser ela mesma e de se descobrir enquanto ser humano cheio de potencial em uma sociedade extremamente machista e segregadora. Mas a escrita de Kate vai mais além, e ela se propõe não apenas a desnudar a vida desse ícone do feminismo, mas também de fazer com que o leitor de depare com questões filosóficas sobre existencialismo e até mesmo política.

Sócrates afirmava que para ser sábio é preciso “conhecer a si mesmo!”; Nietzsche escreveu que a tarefa de cada pessoa é “Tornar-se quem você é!”. Mas a réplica filosófica de Beauvoir era: e se, como mulher, “quem você é” for proibido? E se transformar-se em si mesmo significa ser visto como um fracasso em ser o que deveria ser – um fracasso como mulher, ou como amante ou como mãe?

É impossível falar sobre esse livro sem falar ao menos um pouco sobre mim enquanto leitora e autora desse texto. Foi um processo lento e bastante doloroso me perceber mulher feminista. Religiosa por quase 20 anos, era difícil me ver em outros cenários diferentes daqueles em que eu era colocada. Esposa, dona de casa, mãe. Todos eram títulos sobre quem eu deveria ser, mas nunca sobre quem eu já era. Ao mesmo tempo, o feminismo que chegou até meu conhecimento era deturpado, feio e radical. Eu achava que não precisava dele, estava bem confortável no meu faz-de-contas. Acontece que o mundo nunca girou ao meu redor, e quando eu finalmente comecei a perceber outras mulheres, outras realidades e outras experiências, eu comecei a entender uma série de outras coisas. Não é sobre mim, mas é sobre todas nós. Eu li um texto nas redes sociais e me identifiquei, vi um vídeo no youtube e aquilo começou a fazer sentido, escutei um podcast e a ficha ia caindo. Hoje estudar e ler sobre feminismo é um hobby que me enche de prazer, e principalmente de poder. Poder para ser quem eu realmente sou, enquanto luto para que outras mulheres possam fazer o mesmo.

Escolher ler uma biografia fugiu totalmente da minha zona de conforto. Eu pensei que seria chato, demorado, desinteressante. Mas eu resolvi me arriscar, decidi me desafiar… E que presente foi essa leitura. Se fosse para começar a ler sobre a vida de alguém, que fosse sobre alguém cuja vida me inspirasse a ser melhor e foi exatamente isso que aconteceu. Primeiro ponto sobre esse livro: o desenvolvimento é maravilhoso e extremamente envolvente. Foi como sentar para tomar café da tarde e escutar uma fofoca sobre alguém. Eu não conseguia parar de ler sobe a jovem Simone, sobre seus pais, sobre a vida financeira dessa família, sobre o cenário político da época. Apesar de seguir a ordem cronológica dos fatos, Kate embasou cada um de seus comentários pessoais em frases ditas e escritas por Simone já em sua vida adulta. Há muitas referências que nos transportam diretamente para a época, falas que nos colocam dentro da cabeça de Simone e trechos que nos fazem perceber que sua vida foi cheia de dualidades humanas e reais.

Beauvoir poderia ser fiel a si mesma e aos desejos dos outros? Se “amor” significava que as mulheres sacrificam muito e os homens pouco, valeria a pena?

Kate, apesar de sua imensa admiração pela filosofia de Simone, conseguiu se abster de um posicionamento firme e de cunho totalmente pessoal ao nos conduzir pela vida dessa mulher que influenciou gerações inteiras. Ela nos conta os fatos pelas palavras da própria Simone, em recortes de seus próprios textos e fala. É importante mencionar a imensa responsabilidade que o biografo tem em mãos quando decide contar sobre a vida de outra pessoa. Nem tudo o que você irá relatar ali naquelas linhas, é algo com o qual você concorda, e mesmo assim é preciso ser justo com quem está lendo, e com quem está sendo representado. Eu senti que Kate teve respeito pelo conteúdo que produziu e reproduziu. Ela tomou todo o cuidado de não influenciar o leitor, mesmo quando opinou sobre determina ação ou escolha de Simone ela ainda deixou em nossas mãos decidir o que pensar sobre aquilo.

Mais que uma biografia, a obra de Kirkpatrick é um ensaio filosófico de exímia qualidade. Enquanto nos apresenta Simone em seu panorama histórico, ela nos faz refletir sobre quem nós somos, sobre os valores de toda uma sociedade, sobre nosso modo de encarar a vida e tudo o que diz respeito a ela. A gente se questiona a todo instante. A cada nova fala de Simone nos encaramos de um novo prisma, de uma nova perspectiva. É como se olhar em um espelho que não reflete a aparência física, e sim a alma, o intelecto e o espírito. Eu lia alguns parágrafos e ficava por muitos minutos em estado de contemplação. Refletindo sobre essa mulher, sobre sua coragem de buscar ser apenas ela mesma, refletindo sobre mim e na minha busca ingrata pela aceitação em um mundo machista que se esforça para gostar de mulheres, refletindo também sobre todas as mulheres que vieram antes e mim e cuja luta me possibilitou até mesmo escrever uma opinião literária nesse blog.

Mas algumas coisas sobre a vida de Simone me entristeceram e me incomodaram. Eu teci julgamentos e não sinto nenhum orgulho disso. Quando olhamos para alguém que admiramos, também devemos tirar o óculos cor de rosa e perceber que eventualmente aquela pessoa irá errar e acertar, ou também acertar e errar dependendo da opinião e experiências de vida de quem está lendo, e que isso não anula sua fala ou suas ideias. E Simone, em sua busca por autoconhecimento, amadureceu, em intelecto, em idéias. Sua luta se tornou a luta de outras mulheres. O feminismo que ela ouvia falar, se tornou o feminismo que ela defendia. E foi magnifico acompanhar esse desabrochar. Em resumo, a vida de Simone é tão cheia de poder e brilhantismo que é impossível não se sentir tocado ou inspirado. É incrível como o conhecimento nos torna mais e mas livres a medida em que o obtemos. Essa obra é tão preciosa, que mais do que ler é um dever aprecia-la. É fato que a gente nunca sai o mesmo depois de ler um livro, mas certamente alguns são mais espetaculares do que outros. Eu estava com ele em mãos no caminho para o trabalho, e só conseguia pensar que essa leitura foi uma oportunidade maravilhosa que eu gostaria de compartilhar com vocês aqui. Esse texto não é para falar sobre a vida de Simone, pois Kate Kirkpatrick já fez isso com perfeição, mas é uma forma de incentivar vocês a conhecer a Simone de Beauvoir que eu conheci enquanto me deleitava nas linhas dessa biografia.

Existem dois tipos de mulheres que leem “𝑶 𝒔𝒆𝒈𝒖𝒏𝒅𝒐 𝒔𝒆𝒙𝒐”, e, ao pegá-lo na biblioteca, tive um pouco de medo: há aquelas que acordam, sentem medo e voltam a dormir; e as que acordam, sentem medo e não conseguem mais dormir!

  • Becoming Beauvoir: A Life
  • Autor: Kate Kirkpatrick
  • Tradução: Sandra Martha Dolinsky
  • Ano: 2020
  • Editora: Planeta do Brasil
  • Páginas: 416
  • Amazon

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