Algumas histórias são construídas sob fundações habilmente interligadas a elementos fantásticos, encantadoramente misteriosos, ligeiramente fictícios, porém, como toda boa história, com reflexos de realidade transparecendo para além da superfície.
Algumas famílias, igualmente fictícias ou encontradas na realidade de nossas vidas, são formadas através da maldição e benção que é viver através da criação das mesmas histórias fantasticamente reais de nossos mundos. A família Edevane reconhece todo o trabalho, magia, tristeza e alegria que o mistério e encantamento que cerca sua história, os encontros e desencontros observados nas linhas da vida de cada membro da família e as consequências enfrentadas para garantir a solidez das aparências sejam mantidas e que crianças continuem a ser crianças até o momento em que a vida atropele seus sonhos.
Durante uma noite delicadamente decorada na memória de cada pessoa que já passou pela adorável Loeanneth, durante os eventos agradáveis e peculiares em que membros do restrito círculo da família Edevane observam comportamentos estranhos em cada rosto, cada ato, cada palavra pronunciada e perdida no meio de tantas vozes, uma garotinho desaparece. Enquanto caminhos se cruzam e desencontros acontecem, no momento em que tristezas são enterradas, esperanças se perdem, certezas se encontram no meio dos momentos mais contraditórios, no meio da celebração do solstício de verão, o pequeno Theo Edevane desaparece para sempre da vida de sua família. Ninguém é capaz de dizer o que houve ou as motivações por trás do desaparecimento do garoto, porém, esse evento, o estopim para o fim da rotina e das certezas, deixa sua marca em Alice Edevane, fazendo com que, mesmo anos mais tarde ela tenha certeza acerca do desaparecimento, seja capaz de construir histórias policiais como nenhum outro autor, e, tenha seu futuro transformado por algo que guardou consigo por toda uma vida. 

Tinha vindo mais cedo cavar o buraco, mas só agora, sob o véu da escuridão, terminara o trabalho.

O tempo passa, as investigações são arquivadas, a encantadora e repleta de histórias Loeanneth é abandonada, nunca mais revendo aqueles que um dia viveram seus melhores dias em seus domínios. Porém, assim como na realidade de nossas vidas, o destino possuí sua forma própria de cruzar caminhos e assim, a investigadora da polícia, afastada de suas atividades, com a mente repleta de perguntas e anseios, Saddie Sparrow, durante uma caminhada pelos bosques da Cornualha, encontra o que um dia foi uma bela casa do lago. No momento em que a antiga casa surge na vida de Saddie, quando os detalhes se tornam tentadores demais para ignorar, a policial se lança nos mistérios esquecidos, nos segredos escondidos e na tentativa de solucionar um desaparecimento que nunca viu o fechamento que merecia.
A Casa do Lago é um mistério habilmente construído, composto de maneira a mostrar ao leitor possibilidades escondidas, teorias encontradas, segredos perdidos ao longo dos anos, aparências construídas com o intuito de manter disfarçados as rachaduras de uma família. A narrativa interliga histórias, destaca o passado de personagens, apresenta motivações, estabelece uma faceta humana até mesmo do personagem mais rancoroso, destaca a carga psicológica de cada personagem e sua ligação com toda a obra.
Da mesma forma em que se apresenta como um grande mistério a ser desvendado. Ao mesmo tempo em que o leitor se vê imerso nos detalhes de um passado distante, acompanhando as investigações de uma policial capaz e absolutamente real, a obra de Kate Morton destaca muito mais do que uma história em que leitor e personagens se unem para chegar a solução de um mistério.
Aqui encontramos os dramas de uma família cuja vida se transformou, cuja trajetória de cada membro interfere no plano geral, nos anseios da família, nos sonhos de crianças, nas esperanças de cura de adultos que precisaram crescer, que viram seu futuro se transformar com a vida. Aqui encontramos os segredos escondidos, as máscaras utilizadas com o intuito de proteger crianças, de esconder detalhes sombrios, de ver curados traumas antigos. Encontramos os sacrifícios, os medos, as escolhas de pais que fazem de tudo para manter sua família unida, que se empenham para garantir o futuro e sonhos de seus filhos.

Seria errado dizer que eles se apaixonaram-nas semanas seguintes, pois já estavam apaixonados no primeiro dia.

A Casa do Lago é rica em detalhes, em segredos esperando para serem descobertos, em ligações que surgem, contradizem teorias, nos fazem mudar de ideia, e brincam com nosso olhar apurado, ansioso por conhecer mais. Kate Morton cria uma história completa em que cada elemento se conecta, cada personagem possuí destaque e importância e todos estão interligados, perdidos dentro da trama de suas próprias vidas, unidos a um mistério trágico.
Uma história repleta de momentos passados e presentes, mistérios enterrados, personagens humanos e habilmente construídos, e, na mesma medida, uma bela, encantadora e única narrativa cujo palco vai muito além de uma casa do lago, estendendo-se para as linhas da vida de cada personagem. Esta obra destaca a forma mágica com que coincidências acontecem, e como nossas vidas, ao se cruzarem, são capazes de modificar nosso próprio destino.

  • The Lake House
  • Autor: Kate Morton
  • Tradução: Rachel Agavino
  • Ano: 2017
  • Editora: Arqueiroa
  • Páginas: 464
  • Amazon

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