O Tempo Desconjuntado | Philip K. Dick

Título Original: Time Out of Joint
Autor: Philip K. Dick
Tradução: Braulio Tavares
Ano: 2018
Editora: Suma
Páginas: 267

Ragle Gumm levanta da cama todos os dias, desce os degraus da escada e direciona-se para a cozinha com o intuito de fazer um forte café preto. Em seguida, volta-se para a entrada da adorável residência que divide com a irmã, o cunhado e o filho do casal, localizada no subúrbio de uma pacata cidadezinha de um Estados Unidos de 1959. Após respirar o ar fresco da manhã ele pega o jornal do dia em suas mãos e volta para dentro, iniciando assim mais um dia de reflexões, análise de padrões, recolhimento de dados e preenchimento dos formulários correspondentes às respostas para o concurso do jornal, o qual é vencedor consecutivo desde que consegue se lembrar.

A rotina diária de Ragle Gumm poderia manter-se para sempre livre de grandes oscilações ou alterações, não fosse por uma sensação incômoda de que algo está acontecendo diante de seus olhos, porém, estes permanecem obscurecidos por uma fina camada de desconhecimento. Quando objetos reais insistem em desmaterializar-se, deixando para trás pequenos pedaços de papel com nada além de seu nome; no momento em que a opressão causada pelo sentimento de que, caso deixe de responder ao concurso do jornal, algo terrível irá acontecer; quando revistas são encontradas e ninguém parece conhecer os nomes dos filmes e atores famosos, este curioso personagem iniciará um processo sem volta de questionamento da própria realidade.

“As pistas que estamos obtendo não nos dão uma solução, mas nos mostram o alcance dessa impressão de coisa errada”

Uma vez que a pacata cidade demonstra não possuir qualquer resposta para a infinidade de perguntas que se formam em sua mente, configurando-se em nada mais do que um beco sem saída, um caminho circular que o leva sempre para o mesmo lugar, Ragle une-se ao cunhado em uma aventura para além dos limites da cidade. Juntos, dirigindo pelas imensas e sempre retas rodovias em um caminhão roubado, os dois irão descobrir uma realidade muito mais sombria, confusa e complexa do que suas mentes alienadas jamais poderiam imaginar.




Philip K. Dick, clássico autor de ficção científica, reconhecido por obras como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas e O Homem do Castelo Alto, além de uma quantidade considerável de reflexões filosóficas que comumente insere em suas obras, constrói aqui uma narrativa obscurecida pelo suspense e mistério da realidade. Trata-se de uma investigação em busca da verdade, da tentativa de conectar os mais diversos elementos e aspectos do mundo conhecido, do próprio conceito de realidade percebida, aquela que carrega em sua essência nossa visão de mundo, cultura, posição social e experiência. 

Assim, capítulo após capítulo, recebemos informações, formulamos teorias, estabelecemos padrões e configuramos a realidade ao qual o personagem se insere, porém, a brincadeira e trunfo da obra começa quando cada teoria se prova errada e novas informações são acrescentadas, obrigando-nos a produzir novos padrões, cenários e contextos juntamente ao personagem.

A escrita instiga por meio de seus mistérios, da tentativa de compreender a verdadeira realidade, o contexto por trás de tantos eventos confusos e peculiares, contudo, a leitura fluida não deriva única e exclusivamente desta característica, mas também de sua acessibilidade, da forma gradativa com que eventos e contextos vão descortinando-se, apresentando, por fim, o que rege o mundo destes personagens.


Ao contrário de outros livros do autor, O Tempo Desconjuntado não explora grandes questões filosóficas, não promove profunda reflexão do leitor acerca de sua realidade, daquela que percebe, concebe e modifica dia após dia. As mensagens e pensamentos, definitivamente, serão divergentes de leitor para leitor, mas aí reside o trunfo da obra. Já que trabalha a realidade percebida, as conexões necessárias para se compor o contexto geral de uma realidade, a verdade por trás de informações, conhecimentos e eventos, cabe ao leitor decidir acerca de quais mensagens e valores irá retirar e levar consigo, uma vez que somente ele poderá expressar o que viu.

Com mistérios que se desenvolvem e descortinam-se de maneira fluída, cativando e instigando o leitor a prosseguir com a leitura, a obra classifica-se como uma ficção científica acessível. Aqui a parte científica da ficção não exige do leitor compreensão aprofundada de conceitos ou teorias da física quântica, mas sim a conexão de elementos e aspectos da narrativa para percepção das diversas realidades possíveis. Uma obra para tomar-se gosto pelo gênero é como descreveria O Tempo Desconjuntado. Um livro acessível, cativante, peculiar e habilmente escrito pelas mãos de um dos mais importantes autores da ficção científica do século XX.

8 comentários

  1. Costumo pensar que ler Dick é para poucos. Principalmente para quem de fato, gosta deste aprofundamento interior.
    Pode este trabalho não ser essa viagem interior completa, mas mesmo assim, joga o leitor sim, nestes questionamentos e eu adoro isso!
    Esse juntar as peças é marca registrada do autor e com certeza, o livro vai para a lista de desejados!!!
    Beijo

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  2. Acho legal esse tipo de trama que a gente tira o que nos impressiona, não tem aquela coisa certa e única de impressão. Se houver crítica, algo assim, é você que absorve aquilo da sua maneira. Chama atenção obras assim. E desse autor é outro livro que gostaria de ler. É bem louca esse mistério da realidade, o que tá acontecendo e como o personagem vai descobrir isso. Chama atenção por esse mistério e parece prender por isso. Leria. Gostei do jeito dele.

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  3. Não li nada do autor, é que não sou muito fã de ficção cientifica devido a compreensão tem algumas coisas complicadas de entender rs. Mas esse parece ser mais fácil de entender e fiquei curiosa com o mistério que adoro, é uma leitura que mexe com a mente fazendo com que o leitor tente desvendar os acontecimentos e o deixa olhando para o teto, com as informações.

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  4. Oi Izabel.
    Ainda não li nada do ator, mas quero mito, pois adoro ficção científica.
    Gostei bastante de saber que há diversas teorias que vão ser formadas e refutadas, o que gera mais informação, até enfim chegar a uma conclusão (ou não) sobre o que está acontecendo.
    Espero ler o livro em breve e gostar tanto quanto você.
    Acho as capas dos livros desse autor extremamente lindas!
    Beijos

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  5. Olá! Confesso que não conhecia o livro e todo o enredo me deixou um tanto quanto confusa (risos), mas de uma forma positiva, já que só fez com que a vontade de conhecer mais sobre a história aumentasse, ainda mais sabendo que o foco não será a ciencia. Acredito que o autor tem uma maneira única de escrever, por isso, quero muito conhecer sua escrita.

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  6. PKD foi um dos maiores autores de Ficção Paranoica (ou Paranoide), juntamente com Dostoiévski, Kafka e Orwell. Esse livro é um dos primeiros de sua carreira e parece ser muito bom (ainda não li). A questão filosófica sempre implícita em suas obras é a natureza da realidade e do ser. Quem eu sou? O que eu sinto e vejo é real? Está fora de mim? Ou dentro de mim? E o mais incrível é que ele consegue falar de metafísica, fantasia e ciência com bases simples e cotidianas, como andar pela casa e fazer palavras cruzadas de jornal. Parabéns pelo blog, sucesso!

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  7. Já me identifiquei com o personagem! Levantar todo dia de manhã e fazer o seu café preto forte rss
    Nunca ouvi falar do livro, mas o nome me chamou atenção!

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  8. Eu comecei a resenha pensando em uma história totalmente diferente, só depois, ao ler o nome do autor, percebi que tratava-se de uma ficção científica. Confesso que não entendi muita coisa, mas parece que esse é o "roteiro" do livro, visto que é cheio de mistérios desvendados ao longo da leitura. Não me interessei ao extrema, mas despertou-me uma pontinha de curiosidade. P.S.: adoro os títulos do Philip K. Dick.

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