Para quem acompanha o trabalho da quadrinista Lark, sabe que ninguém melhor que ela para trazer elementos fantásticos meio malucos e contar histórias que te fazem rir (para não chorar). Quem não a conhece, pode ser que já tenha sido impactado pelas tirinhas dos Fantasmas ou dos Pássaros. Muda de Chá é seu primeiro quadrinho em narrativa longa sequencial, e traz o que ela sabe fazer de melhor para um mundo totalmente original.

A HQ nos apresenta Martín, um duende (elfo?) antissocial que vive sua vidinha pequena cuidando de suas plantinhas de chá no topo afastado de uma montanha. Nada acontece para mudar seus dias, enquanto ele interage com o máximo de 1 pessoa para vender seu chá, e é isso. Mas tudo muda quando uma muda específica adoece, e Martín precisa descer até a vila para buscar uma cura – e acaba descobrindo que a população local não está consumindo o seu chá, mas sim uma horrível versão industrializada, que destrói a propriedade mais mágica da bebida: fazer com que as pessoas sonhem.
Lark construiu um conto de fadas como poucos autores poderiam fazer em pleno 2025. Não só Muda de Chá se enquadra tecnicamente nos requisitos do gênero, como personagens estereotípicos (não estereotipados), uma saga aventuresca em busca do bem maior e uma grande lição, mas também tem aquele tom de história atemporal e sem idade que buscamos nos clássicos.
Temos aqui uma história tão autoral e doce quanto as mais inventivas da Pixar. É genuinamente divertida como todas as obras da autora e têm personagens adoráveis nas suas excentricidades. Mas para mim a melhor parte é a metáfora criada para a arte. Em um mundo de inteligência artificial, aquilo que artistas cuidam com tanto carinho ao longo de anos se torna pausterizado e raso; é a arte que, como o chá de Martín, dá asas à imaginação de todos, mas, se não houver nenhum cultivador de chá por perto para nos lembrar que deveríamos sim sonhar e que existe um chá infinitamente melhor por sua autenticiadade, talvez esqueçamos disso.

Muda de Chá não se torna meu favorito de Lark por um mero fator de identificação. Para mim, O Livro dos Pássaros com sua mistura bizarra de The Office com fábula segue sendo incomparável, mas, se eu fosse uma artista, com certeza eu estaria tão revoltada quanto Martín com o mundo tomando chá de lata e achando que está tudo bem com isso.
Essa é uma história que deveria estar sendo trabalhada em escolas, em sua simplicidade enganosa e poucas páginas lindamente ilustradas. É uma leitura rápida, e a maior vantagem disso é poder relê-la várias vezes.

- Autor: Lark
- Ano: 2025
- Editora: Corvo Matheus
- Páginas: 223

