Imagine uma mãe de gêmeos cansada pelas noites em claro, atormentada pelo puerpério, fazendo o melhor que pode para garantir a estabilidade e conforto dos primeiros meses de seus filhos na Terra. Imagine o cansaço de levantar incontáveis vezes por noite, as consequências da privação de sono, o desgaste mental, físico e emocional que vão se acumulando ao longo dos dias que se transformam em semanas e semanas que se transformam em meses. Você não estaria disposto a tentar qualquer coisa por uma reparadora noite de sono? Não buscaria qualquer alternativa que lhe permitisse descansar pelo tempo que fosse e levantar tranquilo e com energia para atender seus filhos no meio da noite? Foi exata e somente nesse momento da vida, que Sara Hussein optou pela implantação de um “chip” regulador de sono e sonhos.

Agora imagine as implicações de tal tecnologia. Imagine os incontáveis riscos da cirurgia de implante cerebral. Considere o nível das pesquisas, teorias e produção científico tecnológica disponível para que uma empresa pudesse introduzir e comercializar tal produto no mercado. Reflita sobre os dados a que esse aparelho teria acesso, uma vez instalado nos milhares de fatigados cérebros humanos. Ignore as letras miúdas dos termos de uso. Reconsidere a crença de que seus dados são protegidos e que nunca, em hipótese alguma, ocorreria algum tipo de cruzamento de dados algorítmico entre câmeras de segurança, comportamento nas redes sociais, histórico de saúde, familiar, estudantil, econômico e, até mesmo, seus livres e inconscientes sonhos. Imagine o que poderíamos fazer com essa quantidade de dados, acessados livremente por empresas que “só querem ajudá-lo a dormir melhor”, a reduzir os índices de criminalidade e violência…
Foi graças a esse cruzamento de dados, à aprovação de uma lei que permitia empresas a deter cidadãos e algoritmos a classificá-los como perigosos para a sociedade, que Sara Hussein viu-se detida sem explicação plausível ou explicação convincente.
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