Lone Sloane: Salammbô apresenta um universo grandioso e violento, inspirado livremente no romance Salammbô, de Gustave Flaubert, mas transportado para um cenário de ficção científica cósmica. Aqui, acompanhamos Lone Sloane, um viajante espacial quase mítico, que assume o papel de Mathô, um guerreiro rebelde apaixonado por Salammbô, figura central de um império opressor. O conflito entre desejo, poder e destruição conduz a narrativa, sempre em escala monumental, como se tudo estivesse prestes a ruir a qualquer momento.

Eu gosto muito de leituras que me tiram do lugar comum, principalmente quando envolvem quadrinhos que fogem da narrativa tradicional. Foi justamente essa curiosidade pelo diferente que me levou a Lone Sloane: Salammbô. Eu já tinha ouvido falar de Philippe Druillet, mas nunca havia lido nada dele, então comecei a obra sem saber exatamente o que esperar, e isso fez toda a diferença na experiência.
Ao avançar pelas páginas, fica claro que não se trata de uma leitura convencional. A narrativa não se preocupa em explicar tudo de forma direta, muitas coisas precisam ser sentidas mais do que compreendidas racionalmente. A história é intensa, caótica e, em certos momentos, até confusa, mas essa confusão parece proposital, como se o leitor estivesse sendo jogado dentro de um universo em guerra constante. Lone Sloane não é um herói clássico: ele é trágico, excessivo, quase um símbolo, movido por desejo, violência e revolta.

Uma coisa que chama atenção logo de início é o tom adulto da obra. Há sensualidade, erotismo e corpos expostos, principalmente na representação de Salammbô e das figuras femininas. Isso pode incomodar alguns leitores, mas dentro da proposta da obra, esses elementos ajudam a construir um clima de decadência, dominação e desejo. O erotismo aqui não é gratuito: ele está ligado ao poder, à idolatria e à obsessão que movem os personagens. Ainda assim, é importante dizer que Druillet não é sutil, tudo é exagerado, intenso e visualmente impactante.
Falando em impacto, a arte é, sem dúvida, o grande destaque da graphic novel. Philippe Druillet cria páginas que parecem verdadeiros murais. As arquiteturas são gigantescas, quase opressoras, e os cenários dão a sensação de que os personagens são pequenos diante de forças muito maiores do que eles. As cores são fortes, vibrantes, por vezes psicodélicas, e ajudam a criar um clima de delírio constante. Não é uma leitura rápida no sentido tradicional, porque muitas páginas pedem pausa, contemplação e releitura.

A diagramação também foge do padrão. Os quadros não seguem uma organização rígida, e isso contribui para a sensação de caos e grandiosidade. Em vários momentos, tive a impressão de estar mais observando uma galeria de arte do que lendo uma história em quadrinhos comum. O final chega de forma abrupta, mas coerente com o tom trágico da obra. Não é uma história que busca conforto ou respostas fáceis. Lone Sloane: Salammbô termina deixando mais sensações do que explicações, o que reforça seu caráter épico e simbólico.
No geral, é uma leitura que exige abertura do leitor. Quem procura uma história linear, clara e objetiva pode se frustrar. Mas para quem gosta de quadrinhos experimentais, ficção científica grandiosa e obras que apostam no excesso visual e emocional, Lone Sloane: Salammbô é uma experiência marcante. É o tipo de obra que não se esquece facilmente, não apenas pela história, mas principalmente pela força das imagens.

- Lone Sloane: Salammbô
- Autor: Philippe Druillet
- Tradução: Rafael Meire
- Ano: 2025
- Editora: Pipoca e Nanquim
- Páginas: 196
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