Depois daquela noite, por Karin Slaughter

23 abr, 2026 Por Mariana Iazzetti

Decidi que em 2026 eu tentaria explorar livros de mistério e thrillers. Por algum motivo, esse é um gênero que eu sempre preferi no audiovisual, e acho que está mais do que na hora de abrir meu coração para os livros mais policiais – Depois daquela noite, da Karin Slaughter foi minha primeira tentativa, e com certeza é uma leitura que dá pano pra manga.

Na trama acompanhamos três protagonistas em uma investigação. Sara é cardiologista e médica-legista, e é quem inicia a história ao assistir a morte de Dani Cooper, que chega ao hospital drogada após o que tudo indica ter sido um estupro. Seu noivo policial Will e a parceira dele, Faith, começam a levantar casos antigos e nomes, quando uma pista aponta à conexão entre Dani e o estupro da própria Sara, 15 anos antes. Juntos, estão determinados a não deixar o culpado pela morte da jovem sair impune, mas jamais imaginariam o quão perturbadoras seriam as origens desse crime.

“Perturbador” certamente descreve bem Depois daquela noite. Tive de parar a leitura diversas vezes pela repulsa de situações extremamente pesadas e gráficas, então já fica um enorme aviso de gatilhos.

De um modo geral, Karin constrói uma narrativa com altos e baixos. As forças se concentram nos personagens principais, que, embora não particularmente marcantes, trazem uma carga emocional, e na constante intriga que fica pairando durante todo o desenrolar da história. De novo, é intrigante da mesma forma que um episódio de Law & Order: Special Victims Unit, e te mantém preso à investigação.

Faith pensou novamente em seus filhos, em como sua maior preocupação com Jeremy era que ele se apaixonasse por uma garota que partisse seu coração e seu maior medo com Emma era que ela se apaixonasse por um homem que quebrasse seus ossos. Ou pior.

As discussões sobre o estupro enquanto um mal social são bastante responsáveis e focadas no olhar feminino. Há conversas sobre culpabilização da vítima, sobre como lidar com o depois (sendo a sobrevivente ou pessoas de seu círculo), e um debate geral sobre misogínia estrutural e internalizada, tudo isso com nuances e múltiplas visões.

No entanto, existem dois problemas mais “técnicos” que não puderam deixar de me incomodar. O primeiro é a escrita de Karin, a qual simplesmente carece de qualquer sutileza. É um estilo duro, direto e descritivo; a autora não deixa nada fora do papel, nenhuma conclusão ou observação ou conexão. Isso me deu um pouco a sensação de que a escritora não confia na inteligência dos leitores para interpretarem o que está acontecendo, o que se torna cansativo já nos primeiros capítulos.

O segundo problema é o ritmo. Em um livro tão detalhado e denso na sua escrita, a primeira metade pareceu se arrastar muito mais do que deveria com um mistério tão grande a ser desvendado. O que resulta em uma segunda parte corrida e um clímax que parece um pouco fácil e rápido demais para uma construção tão criteriosa.

Por fim, o que mais me deixou reflexiva sobre se gostei ou não do livro foi a conclusão. Não entrarei em spoilers, mas o grande vilão por trás de todos os acontecimentos me soou como contraditório, pensando na mensagem que a autora aparentava querer transmitir. É uma conclusão que convida a discussão, mas para mim ficou bastante indigesta e pendeu para um lado de ter sido uma decisão narrativa com a intenção de causar choque, mais do que qualquer outra coisa.

Ao final de tudo, não sei se indico a leitura ou não. Sinto que é muito delicada sob diversos pontos e que é o tipo de livro que não pode ser lido passivamente, ou parecerá chocante só para ser chocante. Então, vá por sua conta e risco. Mas não se preocupe por esse ser, tecnicamente, o 11º livro em uma série; é perfeitamente possível entendê-lo do começo ao fim.

  • After that night
  • Autor: Karin Slaughter
  • Tradução: Laura Folgueira
  • Ano: 2023
  • Editora: Harper Collins
  • Páginas: 416
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