Imagine uma mãe de gêmeos cansada pelas noites em claro, atormentada pelo puerpério, fazendo o melhor que pode para garantir a estabilidade e conforto dos primeiros meses de seus filhos na Terra. Imagine o cansaço de levantar incontáveis vezes por noite, as consequências da privação de sono, o desgaste mental, físico e emocional que vão se acumulando ao longo dos dias que se transformam em semanas e semanas que se transformam em meses. Você não estaria disposto a tentar qualquer coisa por uma reparadora noite de sono? Não buscaria qualquer alternativa que lhe permitisse descansar pelo tempo que fosse e levantar tranquilo e com energia para atender seus filhos no meio da noite? Foi exata e somente nesse momento da vida, que Sara Hussein optou pela implantação de um “chip” regulador de sono e sonhos.

Agora imagine as implicações de tal tecnologia. Imagine os incontáveis riscos da cirurgia de implante cerebral. Considere o nível das pesquisas, teorias e produção científico tecnológica disponível para que uma empresa pudesse introduzir e comercializar tal produto no mercado. Reflita sobre os dados a que esse aparelho teria acesso, uma vez instalado nos milhares de fatigados cérebros humanos. Ignore as letras miúdas dos termos de uso. Reconsidere a crença de que seus dados são protegidos e que nunca, em hipótese alguma, ocorreria algum tipo de cruzamento de dados algorítmico entre câmeras de segurança, comportamento nas redes sociais, histórico de saúde, familiar, estudantil, econômico e, até mesmo, seus livres e inconscientes sonhos. Imagine o que poderíamos fazer com essa quantidade de dados, acessados livremente por empresas que “só querem ajudá-lo a dormir melhor”, a reduzir os índices de criminalidade e violência…

Foi graças a esse cruzamento de dados, à aprovação de uma lei que permitia empresas a deter cidadãos e algoritmos a classificá-los como perigosos para a sociedade, que Sara Hussein viu-se detida sem explicação plausível ou explicação convincente.

“Os comerciantes de dados que passaram décadas construindo uma taxonomia do comportamento humano consideram os casos atípicos problemáticos. Por definição, esses casos não são previsíveis, o que também significa que não são lucrativos. Logo, suas ações se tornam aberrantes, suas ideias, peculiares, suas vidas, transgressivas: eles são delinquentes.”

Uma vez detida, Sara perde contato com o mundo hiper conectado. Sua vida passa a ser regrada por normas que desconhecia. Sua rotina passa a ser compartilhada com a de outras detentas. Sua carreira desaparece e espera-se que ela colabore com o funcionamento do local, trabalhando na cozinha ou lavanderia, se voluntariando para reconhecer o real do irreal em cenas produzidas artificialmente. Seu acesso a informação, comunicação ou itens diferenciados, como os de higiene pessoal, somente é possível por meio de pagamento em dinheiro, que deve ser enviado para sua conta por amigos ou familiares … contribuindo para o perfeito funcionamento dessa sociedade perfeita … ou, assim vendiam os comerciais e campanhas publicitárias para aqueles que nunca tiveram a chance de desfrutar de uma maravilhosa estadia nos centros de detenção.

O Hotel dos Sonhos é uma ficção científica sobre a permissão gradual que direciona para o livre acesso de empresas de tecnologia à privacidade de nossas rotinas, ao âmago de nossas vidas, ao interior de nossas mentes. Restringindo o desenvolvimento narrativo para o confinamento do centro de detenção, Laila Lalami consegue espaço suficiente para trabalhar o passado e pensamentos de Sara ao mesmo tempo em que detalha o cotidiano e problemas do centro de detenção. É uma estrutura conhecida por leitores de ficção científica, sendo bastante convidativa e acolhedora para a chegada de novos leitores, uma vez que não te forçará a compreender teorias complexas, mundos criados “do zero” ou elementos que mesclam realidade, ficção, filosofias, crítica e teorias.

A escrita de Laila Lalami também é bastante fluída e agradável, permitindo avanço constante pelas páginas sem que nenhuma reflexão ou elemento se perca. Porém, algo na maneira como a narrativa é apresentada não me convenceu, não sei se por conta do texto fonte – possivelmente escrito em inglês – ou se por conta da tradução e revisões para o português. Os conceitos e debates promovidos pelo livro não são novos, embora pertinentes. A união entre ficção científica, comentários sobre contextos atuais e crítica social também não são inovadoras, isso é fato. O que destaca o livro dentre tantos clássicos do gênero, fomentadores de uma visão crítica do leitor contemporâneo, é seu recorte atual, é a maneira como parte de discussões que caminham tão lentamente e as distribuí para “grandes massas de leitores” … mas a maneira como é fácil perceber quando a autora larga mão da posição de narrador para deixar sua voz comentar, criticar e destacar problemas, ou percepções do mundo real, me pareceu pouco condizente com a posição de finalista do Prêmio Pulitzer, destoando do que vinha sendo construído até o momento em que sua voz, clara e evidente, resolve aparecer.

Nesse sentido, O Hotel dos Sonhos demonstra bem para que serve e a quem se direciona. Por tratar-se de uma ficção científica quase romance contemporâneo, ele é democrático e acolhedor de novos leitores, introduzindo-os num universo literário que, talvez, nunca tenham imaginado pertencer. Por reduzir os limites do universo narrativo e trabalhar – quase – única e exclusivamente com aquilo que ocorre ao redor da protagonista, todo o debate sobre preconceito racial e contra imigrantes, acesso e cruzamento de dados, restrição de liberdade e definição de privacidade, se torna palpável, de fácil compreensão para aqueles que ainda estão se localizando nas mudanças que, cada vez mais, afetarão nossa existência e o percurso no planeta. Por quebrar a estrutura narrativa, a constituição de narrador que havia escolhido para seu livro, permitindo transparecer sua própria voz, Laila Lalami não deixa dúvidas sobre sua posição no debate em que se insere. Isso pode ser visto como ponto negativo de construção narrativa e técnica de escrita, mas também serve como demonstrativo de que, aqui, a mensagem é muito mais importante do que o resto.

Lançado em 2025, o livro era uma aposta pessoal com relação às obras de ficção científica publicadas de 2020 para cá. Foi uma boa leitura e é ótimo perceber que o gênero ainda vive e consegue se encaixar em diversas propostas e posicionamentos, mas também é uma leve decepção quando você está acostumado a tudo que a ficção científica tem para oferecer e mantinha expectativas altíssimas com relação a uma narrativa que se propôs a debater.

Com final apressado e falta de arremates, a construção de uma esperança simples e pontos mal concluídos, o livro perturbará alguns leitores… mas também tenho certeza de que agradará aqueles que nunca se sentiram parte de um gênero que assusta por suas teorias complexas, seus debates filosóficos e universos inimagináveis. Aqui tudo é tão palpável quanto seu acesso ao Instagram e Tiktok, quanto os vídeos falsos de situações que nunca existiram, quanto cenários fantasiosos gerados por prompts cansativos, e é aí que percebemos seu maior valor.

rela
ciona
dos

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1 Comentário

  • Lady Sybylla
    11 abril, 2026

    Esse livro é daquelas obras em que a gente se pega pensando se é uma ficção científica ou se é um livro de não-ficção, porque tudo é real e próximo demais pra ser uma obra ficcional.