Resenha: O Ceifador

15 jan, 2018 Por Joi Cardoso

Título Original: Scythe
Autor: Neal Shusterman
Ano: 2017
Editora: Seguinte
Páginas: 448
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O Ceifador é um lançamento do primeiro semestre de 2017, pela Seguinte e escrito pelo autor Neal Shusterman.

A humanidade enfim atingiu a imortalidade. Não existem mais doenças, guerras ou miséria, as pessoas conseguem viver centenas de anos, são imunes ao tempo e a velhice. E se você morrer por acidente, dentro de alguns dias você retornará a vida através da revivificação. Por trás desta sociedade perfeita está a Nimbo-Cúmulo, uma inteligência artificial e grande entidade do planeta, porém, que não consegue controlar tudo.

A Nimbo-Cúmulo percebeu que a Terra não comportaria toda a população por muito tempo e por este motivo, criou-se um grupo de pessoas responsáveis para manter o equilíbrio da sociedade. Com base em dados estatísticos e julgamentos da Era da Mortalidade, é garantido que algumas pessoas morram. As ações da Ceifa não podem ser contestadas pela Nimbo-Cúmulo, quem morre pelas mãos de um ceifador não pode voltar a vida.
Através do Honorável Ceifador Faraday, Citra Terranova e Rowan Damisch têm seus destinos cruzados. Escolhidos para serem aprendizes do ceifador, ambos deverão ficar sobre sua proteção por um ano e ao final deste prazo, apenas um deles poderá ser ordenado. Uma vez dentro da Ceifa, Crita e Rowan perceberão que os ceifadores têm percepções diferentes sobre os papeis que desempenham e estar tão perto desta realidade poderá colocar um com outro muito rapidamente.

“-Aí está o paradoxo da profissão – Faraday disse. – A função não deve ser concedida aos que a desejam. São aqueles que mais se recusam a matar que devem exercê-la.”

Ler um livro onde o tema central é a morte e a forma como todos dentro dessa sociedade, população, ceifadores e até a própria inteligência artificial que a controla, a percebe, sem dúvidas me proporcionou uma leitura extremamente reflexiva. E é ótimo pensar que isso partiu de um livro de ficção e não de uma tese hipotética ou de um livro didático escrito por um grande pensador. Neal Shusterman conseguiu explorar a maior ambição do ser humano, vencer a morte, nos apresentando uma sociedade que mesmo imune a tudo, também pode perecer. 
Este mundo utópico, somado ao grande dilema dos personagens, demonstra o quanto o autor pensou minuciosamente sobre suas reais intenções com esta história. De não só impressionar, mas de exemplificar que a natureza humana, pode permanecer imoral mesmo num cenário teoricamente perfeito. Citra e Rowan demonstram o quanto o manto de um ceifador pode ser pesado sobre o olhar de um aprendiz e os ceifadores Faraday e Curie confirmam ao leitor, através de seus atos e palavras, o quanto a tarefa precisa ser executada com o maior respeito possível.

Porém, nem todos pensam desta forma e aqui que conhecemos um outro lado da Ceifa. Assim como qualquer poder, o que um ceifador tem em mãos é capaz de corromper e esta é só uma das várias discussões que o autor aborda. Goddard é um exibicionista e tanto ele, quanto seus seguidores sentem prazer em matar, não abdicam de regalias e usufruem em demasia do que as pessoas lhe dão em troca de imunidade. Desta forma, percebemos que esta organização, mesmo protegida por regras e mandamentos, criados para regerem a ordem, pode exibir rachaduras prestes a ruir quando cada ceifador as distorce de acordo com as ideologias que preferem seguir. 


A sociedade apresentada em O Ceifador sofreu grandes mudanças, que hoje, na minha opinião, se mostram inalcançáveis. Nesta história ainda veremos pessoas deslumbradas pelo status, ainda veremos fanáticos, corruptos e também veremos uma ganância disfarçada, mas estampada por estas páginas. Com estas várias sutis incoerências, o autor apresenta ao leitor pequenas críticas e alertas, questões que mesmo meio a um mundo perfeito, ganham espaço para que questionemos a autenticidade de um mundo assim. Outro ponto interessante levantado, é a estagnação e toda a problemática causadas pela consequência de se viver em um mundo perfeito. Neste ponto o autor poderia deixar enorme ponta solta na minha cabeça, algo que realmente me faria questionar se esta história, supriu ou não minhas expectativas.
A resposta que encontrei é que sim, ele supriu e a grande responsável por isso, conveniente, mas genial, está nas mãos da Nimbo-Cúmulo, que evoluiu dos bancos de dados da nuvem e que assim, se tornou onipresente. Quão bom seria se uma inteligência artificial encontrasse a resposta para tudo que precisamos? Que garantisse que a Terra não mais pereceria nas mãos dos humanos, que nenhuma doença mais existisse, mesmo as que se tornariam ainda mais agressivas dentro desta sociedade, aparentemente, sem motivações. Pensar sobre a quantidade de questionamentos que O Ceifador proporciona é incrível e pertinente, e por mundo tempo será.

Se pudesse ficaria horas falando sobre o universo criado por Neal Shusterman, mas é preciso destacar a relação dos personagens e a forma que eles se destacam nesta história. É bastante interessante acompanhar Citra e Rowan em seus treinamentos e perceber o modo como cada um passa a enxergar a vida quando aceitam, mesmo que não num primeiro momento, fazer parte da Ceifa. As provações que cada um precisa passar, as resoluções, a desesperança, tudo. Cada um deles, demonstra algo especial para Faraday e é por isso que eles estão ali. Não querer matar, é o primeiro passo para se tornar um aprendiz, um ceifador não pode perder sua humanidade. São com estes ensinamentos que Citra e Rowan adentram neste mundo. Procurando saber sobre a moralidade da morte e com uma nova visão sobre o necessário ciclo da vida.

Apesar de ambos serem os protagonistas das histórias, a narrativa em terceira pessoa permite que o leitor se sinto imerso na consciência de diversas perspectivas da história. Ao fim de cada capítulo também podemos conferir trechos do diário de coleta de vários ceifadores, outro tipo de ferramenta que contribui com que o leitor se sinta ainda mais inteirado, principalmente em relação as motivações e princípios de cada um.

Apenas lamento por ter demorado tanto para concluir esta leitura, O Ceifador é o tipo de livro que marca o leitor, que traz questionamentos relevantes somado a um universo rico em detalhes. Meu primeiro contato com Neal Shusterman não só me proporcionou uma boa leitura, mas o contato com uma história surpreendente, ativa, crescente e com um final impactante. É impossível não ansiar pelo próximo volume. Thunderhead deve ser lançado ainda este ano pela editora e eu não vejo a hora de ter meu exemplar em mãos, afinal, não é todo dia que se lê uma história que se destaca dentre tantas do gênero e que buscam demonstrar uma nova visão do mundo e de princípios. Poucas realmente conseguem, mas O Ceifador cativou seu espaço e fez isso com a precisão de um bom ceifador ao matar.

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