A Balada de Black Tom | Victor Lavalle

Título Original: The Ballad of Black Tom
Autor: Victor Lavalle
Tradução: Petê Rissati
Ano: 2018
Editora: Morro Branco
Páginas: 195
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A Balada de Black Tom é uma releitura, do autor Victor Lavalle, do conto controverso do autor H. P. Lovecraft, O Horror em Red Hook. O conto original é um dos mais xenofóbicos e racista do autor. Como uma de suas principais influências, ao lado de nomes como os de Stephen King e Shirley Jackson, e como autor negro, Victor decidiu lidar com seus sentimentos conflitantes e criar um reconto que se caracteriza, ao mesmo tempo como homenagem, mas também como crítica a Lovecraft.

Esta é a uma das responsabilidades do leitor, interpretar textos, clássicos ou não, sob um olhar crítico, questionando e não procurando justificativas para tais ideias, mesmo em uma época em que tais eram toleradas. É fato que o legado de H. P. Lovecraft nunca foi abalado por tal posicionamento (e aqui poderíamos levantar diversas discussões), mas o leitor reconhecer isso e compreender como a crítica à sua obra é importantíssima para que questionemos, é o primeiro passo que podemos dar em prol da reconstrução do respeito em nossa sociedade. Com vocês, A Balada de Black Tom.

"Não poderá escolher a cegueira quando quiser. Não mais."

Charles Thomas Tester vive numa constante luta. Todos os dias se submete a pequenos trabalhos para juntar o sustento para ele e seu pai. Como morador negro de Nova York, ele sabe a atenção que recebe dos moradores brancos e seus policiais, mas imagina que ao se vestir com um terno puído e carregar um velho estojo de guitarra possa passar despercebido. Conhecemos Thomas quando ele está executando, aparentemente, um simples favor, a entrega de um livro oculto a uma bruxa reclusa. Mas Tom não imagina que ele estará abrindo a porta para uma magia desconhecida e que poderá despertar o sono de seres que deveriam permanecer assim.



Robert Suydam, um senhor rico e estudioso, ao conhecer Thomas lhe faz uma proposta irrecusável. Quinhentos dólares para tocar em um evento em sua casa. Porém lá, Tom percebe que algo espreita aquele lugar, como se houvesse uma presença obscura os roldando o tempo todo, algo muito além da compreensão humana. Mas uma vez lá dentro, já é tarde demais. Agora ele já tem conhecimento o suficiente para decidir se, libertar todo este mal ou se luta contra ele.

Ler A Balada de Black Tom nos dá a perspectiva contrária a que Lovecraft apresenta em seu conto. Dá o protagonismo para quem é menosprezado e depreciado por sua cultura ou cor de pele. Através de Thomas Tester, iremos descobrir qual era a realidade de um jovem de vinte e dois anos, morador do Harlem, um bairro onde a população é majoritariamente imigrante e afrodescendente. Iremos acompanhar Thomas sofrendo os mais absurdos dos preconceitos, simplesmente por estar presente num lugar que julgam que ele não deveria estar. 

Tudo isso é revoltante. E continua sendo se pensarmos que nossa sociedade ainda paira sob ecos desse tempo. O tratamento que o personagem recebe, as provações que precisa passar todos os dias e como, mesmo nos momentos de perda, ele é tratado como um nada. Aguentando os brancos invadindo sua vida como se fossem proprietários disso. Tudo isso contribuiu para que Victor Lavalle fizesse um ótimo trabalho e preparasse o leitor para a história terrível e impressionante que ele queria contar, equilibrando a crítica e o horror.


O livro é narrado por duas perspectivas, em suas partes diferentes. A de Tom e a do Detetive Malone. Através da primeira iremos acompanhar tudo que já citei, presenciaremos o medo e a humilhação se tornar algo a mais. É nesta parte que veremos o personagem recebendo uma nova guinada em sua vida. Na segunda, assim como o conto original, é onde descobriremos porque Malone será o único narrador do horror que se instalou por Red Hook e porque ele está fortemente envolvido nisso.

Ao final da edição, é possível conferir o conto, O Horror em Red Hook na integra. Traduzido com os mesmos termos pejorativos utilizados por Lovecraft. Assim, como o texto de apoio que a Editora Morro Branco inclui na obra diz, a sua experiência de leitura terá o mesmo impacto que causou em Lavalle e daí sua ideia de escrever sua própria versão. Parabéns a editora por proporcionar ao leitor isso, pois infelizmente, existem traduções no mercado que preferem amenizar o sentido verdadeiro do texto original. Negando ao leitor que ele mesmo tenha discernimento ao interpretar a obra de forma crítica. 

Eu tenho certeza que você, após concluir as duas leituras, irá preferir uma das versões sobre o que realmente aconteceu em Red Hook. Mas adianto que prefiro aquela onde o horror se instala pelas mãos de quem durante muito tempo viveu oprimido.

11 comentários

  1. Mesmo não estando tão por dentro deste universo fantástico que é Lovecraft, percebemos nitidamente que é realmente um universo que acaba pegando o leitor lá por dentro. Como se mexesse em nossa parte mais profunda.
    E talvez Thomas carregue não somente o peso do preconceito,mas também o nosso preconceito.
    E o que fazer a partir disso tudo.
    Nem todos agirão como Thomas,mas vale a dica, com certeza.
    Justiça pelas próprias mãos! A Editora Morro Branco está sendo uma das melhores nos últimos tempos!
    Com certeza, vai para a lista de desejados!
    Beijo

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  2. Oi, Joi,

    O assunto de suma importância inserido com esse toque de fantasia, é uma boa tática cativante utilizado pelo autor - que acredito que prenderia minha do começo ao fim.

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  3. Oi Joi,

    Achei muito interessante isso do autor trazer mudanças para a história original. Não conhecia, mas você falando que o original é muito racista e xenofóbico, então entendo os motivos Victor.

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  4. Li pouca coisa do H.P. Lovecraft, mas é possível perceber o quanto ele é racista e xenófobo. Algumas vezes lendo sua obra original fiquei incomodada com os termos utilizados e a forma como ele enxergava negros ou estrangeiros. Curiosa pra conhecer o trabalho feito pelo Victor!

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  5. Não costumo ler e me aventurar em livros desse gênero não, mas gostei do enredo da historia. E adorei a forma como ele mostra que boas histórias podem ser escritas sem precisar conter tanto veneno dirigido ao outro, seja por sua cor, religião ou cultura.
    Adorei a resenha, bjs

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  6. Ainda não li nada do Lovecraft embora tenho um livro aqui, mas achei interessante esse livro e deve dar uma angustia pelo que o personagem passa devido sua cor. Achei misterioso também essa magia desconhecida, mas pelo que o personagem passa é muita coisa, acho que vai acabar seguindo pelo caminho errado, fiquei curiosa em saber como ele vai sair dessa.

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  7. Oi Joi,
    Por incrível que pareça, só agora consegui entender mais sobre a essência de Lovecraft, e é a primeira vez que me despertou em curiosidade pela leitura, não só dele, mas de "A balada..." também.
    Não tenho dúvidas de que Thomas é um personagem marcante, primeiro porque sua história, mesmo que não ficção, é real, e conseguimos ver isso no decorrer da narrativa, e segundo, porque, mesmo ainda não lendo, também acredito que irei preferir a história contada por ele.
    Pretendo ler, belíssima crítica...
    Beijos

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  8. Oi! Eu li pouca coisa do H.P. então tenho certo conhecimento da escrita dele, apesar de em certas partes me perder, sem entender de fato as ideias do autor. Li algumas resenhas que criticaram um pouco a maneira que foram colocadas certas passagens e personagens, alegando certo racismo e preconceito. Dá pra compreender devido a época porque ele escrevia daquela maneira. Mas deixando isso de lado, gosto muito da premissa dessa história, e espero ler em breve!

    Bjoxx

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  9. Olá, confesso que minha afeição por Lovecraft decaiu um pouco depois de saber da existência desse conto, o qual infelizmente denuncia o caráter racista do autor. Lavalle, por outro lado, faz um trabalho incrível nessa releitura, introduzindo para o leitor uma história ao mesmo tempo brilhante e assustadora, se formos considerar que o personagem reflete a realidade de muitas pessoas. Beijos.

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  10. Oi Joi!
    Ainda não conhecia o livro e nem o autor...
    Como gosto mto de contos, este não poderia estar de fora da minha listinha.
    Espero ter oportunidade de ler e conhecer.
    A capa é bem bacana.
    Bjs!

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  11. Olá, Joi
    Não li nada de H. P. Lovecraft e nem de Victor Lavalle.
    Ainda bem que Lavalle resolveu escrever esse conto reparando ao que Lovecraft fez no conto original, gostei de saber que a editora Morro Branco trouxe as duas versões no mesmo livro para o leitor ter o conhecimento do todo.
    Espero ter chance de ler essa obra.
    Beijos

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