Eu sei que já comentei algo muito parecido com isso em uma resenha aqui no Estante Diagonal, mas nunca é tarde demais para recordar ou para repetir, pelo menos acredito que não nesse caso. Eu sou o tipo de pessoa que gosta de passear pelas livrarias, adoro olhar os lançamentos, descobrir livros que não estão em destaque (aqueles perdidos no meio das prateleiras), é sempre uma pequena aventura. Eu olho para diversas capas, leio algumas sinopses, adiciono alguns livros na minha listinha, mas acima de tudo, aproveito um tempinho só observando esses amigos tão queridos. E as vezes, naqueles momentos em que estamos com a guarda baixa, os livros nos observam e nos olham de volta, e é nesses momentos que encontramos grandes surpresas. Foi isso que aconteceu com esse livro, um daqueles tantos que eu nunca tinha ouvido falar, nunca tinha lido uma resenha sequer, e mesmo assim levei para casa. Acho que foi uma mistura de encantamento por essa capa linda e por esse título que me fizeram adquiri-lo, e hoje eu estou aqui para contar um pouquinho sobre ele para vocês!

O que era, exatamente, uma naturalista? Eu não sabia muito bem, mas resolvi passar o resto do verão sendo uma.

A Evolução de Calpúrnia Tate é um livro simples e leve, uma pérola que eu descobri no meio de tantos livros soltos pela livraria. Seu título já diz tudo, aqui iremos conferir a evolução de uma garotinha de onze anos (quase doze), a protagonista fofa, curiosa e engraçada Calpúrnia Tate, ou Callie Vee. Essa pequena vive em uma fazenda que cultiva arvores de pecã e algodão, em uma pequena província no estado do Texas. Calpúrnia é a irmã do meio, a única menina entre sete irmãos. Vocês podem imaginar que a confusão e o caos poderiam reinar na casa devido a tantas crianças, e tantos meninos correndo soltos para lá e para cá, mas a verdade é que embora a confusão insista em aparecer vez ou outra, a mãe de Callie consegue organizar e comandar muito bem a família.
Nossa história se inicia no terrível verão que assolou o Texas no ano de 1899, em meio a diversas tentativas para se livrar do calor e da busca por algo para se fazer, algo que fosse capaz de distrair e afastar o tédio, Calpúrnia percebe, sentada do lado de fora de sua casa, que existem dois tipos de gafanhotos vivendo no seco gramado. Uma espécie de gafanhoto era amarelada enquanto a outra era verde e se destacava em meio a grama seca, a pequena se viu cheia de perguntas, e se pôs a anotar tudo o que encontrava e tudo o que pensava em sua nova caderneta, dada a ela por seu irmão mais velho, Harry (o preferido dentre todos os irmãos). Com o passar do tempo, e com tantas outras perguntas surgindo em sua cabeça, Callie Vee se vê cheia de dúvidas e com poucas respostas, o único membro da família que parecia ser capaz de lhe ajudar, de tirar suas dúvidas, era seu reservado e distante avô. É através das dúvidas de Calpúrnia e de sua curiosidade que ela e seu avô embarcam em pequenas aventuras diárias, juntos eles descobrem vários segredos do mundo das plantas e dos animais, mas também constroem uma bela relação de amizade.
À primeira vista A Evolução de Calpúrnia Tate pode parecer um livro simples e sem muitos atrativos, mas garanto que eles existem e que vão muito além do que a relação de uma neta com seu avô, ou a análise de gafanhotos. A autora conseguiu dosar muito bem diversos elementos ao longo de toda a história, esses elementos, essa diversidade, é o que deixa o livro tão interessante e especial. No início de cada capítulo nós somos apresentados a um trecho do famoso livro de Charles Darwin, o livro A Origem das Espécies, esses trechos escolhidos a dedo pela autora, possuem grande ligação com a história e com o que acontecerá em cada capítulo, nos dando de forma indireta um gostinho do que está por vir. Além disso a autora realizou diversas pesquisas com relação a plantas e animais, trazendo mais desse mundo científico e naturalista em que o avô da menina vivia e ao qual, aos poucos ela também se inseria.

Um dia eu teria todos os livros do mundo, prateleiras e mais prateleiras deles. Viveria em uma torre de livros. Leria o dia todo e comeria pêssegos. E, se algum jovem cavaleiro de armadura ousasse vir gritando em seu cavalo branco, me pedindo que soltasse o cabelo, eu o bombardearia com caroços de pêssego até que fosse para casa.

Além disso nós somos apresentados a diversos detalhes da época em que o livro se passa, através dele observamos a instalação da primeira central telefônica (e do primeiro telefone) da província, o surgimentos e popularização dos automóveis, a inserção da mulher no mercado de trabalho (de maneira gradativa e lenta), a famosa Coca Cola, e todo o discurso de virada de século, a energia e as possibilidades que o ano de 1900 traria para a vida de todos. Juntamente a tudo isso, e para acertar bem a mistura, nós observamos o dia a dia da menina, observamos o que
sua mãe espera dela, o que a sociedade (que estava aos poucos mudando) esperava dela. Observamos a relação de Callie Vee com seus irmãos, e como eles, assim como ela, evoluem, amadurecem, aprendem mais e mais sobre os segredos da vida. Percebemos a descoberta de um amor por parte do irmão mais velho, os primeiros interesses amorosos de seus irmãos mais novos, descobrimos a tortura que era ter aulas de piano, sem contar no sofrimento de cozinhar e pior ainda, tricotar e aprender as técnicas de crochê.
Em meio a tantas situações, Calpúrnia se apresenta como uma pequena feminista, no sentido mais puro desse conceito tão comentando e interpretado atualmente. Ela não queria aceitar, e não consegue entender certas imposições e regras de sua mãe. A pequena garota não compreende porque tem que aprender a cozinhar quando seus irmãos estão todos soltos por ai se divertindo. Não entende porque ela deve aprender a tricotar quando tudo o que ela quer é coletar espécimes e ajudar nas observações científicas de seu avô. Ao longo do livro nós percebemos o quanto aquela pequena menina ansiava por uma mudança nos rumos da sociedade, o quanto ela estava voltada para o futuro, mesmo sem saber disso. Outro destaque do livro está em seus momentos de indignação, Callie Vee, além de ter toda a razão, se torna fofa e engraçada em seus momentos de revolta e indignação, a pequena é capaz de te divertir com suas ideias e pensamentos.

Ah, ervilhaca. Um instinto assassino invadiu meu peito. Eu queria voar sobre a mesa para cima dele, mas em vez disso, espumei em silencio pelo resto daquela refeição interminável.

Todo o trabalho realizado pela Editora Única também está maravilhoso. A revisão do texto foi muito bem realizada, ao longo da leitura não notei nenhum erro de revisão, se existem, eles passaram totalmente despercebidos. Toda a diagramação e escolha de fontes mostra um carinho pelo livro. Adorei ver as fontes mudando de trechos em trechos, como nas citações de A Evolução das Espécies, nas anotações da caderneta de Calpúrnia ou nas cartas apresentadas ao longo da história. A fonte geral do texto possuí um tamanho um pouco maior do que o convencional, é verdade, mas isso facilitou muito a leitura e fez com que ela fosse mais fluida, além de auxiliar essa pessoa que vos fala, que além de ser míope tem astigmatismo, e que muitas vezes vê as letras pequenas todas embaralhadas.
A Evolução de Calpúrnia Tate é um livro leve, muito gostoso de ler, com uma história bem construída e que flui muito bem. Como o próprio nome diz, ele se trata da evolução de uma garota, e não sobre uma revolução, por isso não espere encontrar enormes descobertas, grandes reviravoltas, mas sim, momentos comuns ao dia a dia de uma criança, seus pensamentos e aspirações, todos recheados com aquele encantamento e graça que as crianças possuem. Ele é maravilhoso em sua forma simples, através dos relatos da garota somos transportados para outro tempo, e vemos o mundo sobre os olhos dela. Para aqueles que procuram algo leve, mas surpreendente, eu recomendo este livro, e para aqueles que querem se divertir e acompanhar a evolução de uma garota, eu peço que leiam o livro. Garanto que as surpresas e pensamentos dessa menina podem surpreender vocês também.

O que Calpúrnia diz? O que eu poderia dizer? Que queria atirar o livro – nada melhor do que incendiá-lo – na lareira? Que queria gritar contra a injustiça daquilo tudo? Que naquele momento eu poderia ter feito uma violência, que queria esmurrar o rosto de todos eles e correr para o meu quarto?

  • The Evolution of Calpurnia Tate
  • Autor: Jacqueline Kelly
  • Tradução: Elisa Nazarian
  • Ano: 2014
  • Editora: Única
  • Páginas: 380
  • Amazon

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